Existe um tipo de denúncia que não cabe em página de jornal, boletim de ocorrência nem em processo. Ela aparece nos comentários de um grupo de Facebook de desapego, embaixo de um post, quando alguém pergunta o que fazer com uma criança ardendo em febre. E a resposta da cidade inteira é a mesma: não leve ao nosso hospital.
“Leva direto pra Porto Belo.” “Vai pra Itapema, tem ala pediátrica.” “Pega seu neto e corre pra Floripa.” “Não vale a pena se arriscar ali.” Dezenas de pessoas, espontaneamente, dando o mesmo conselho. Não é reclamação isolada de quem teve um dia ruim. É um comportamento coletivo aprendido. Tijucas, uma cidade que beira os 60 mil habitantes, construiu uma certeza silenciosa: quando a saúde aperta de verdade, o melhor hospital de Tijucas fica em outra cidade.
E aqui mora o paradoxo que precisa ser dito em alto e bom som: vinte milhões de motivos para ficar.
O Hospital São José, único hospital de Tijucas, foi vendido. O Jornal Razão apurou e noticiou com exclusividade: a Associação Congregação de Santa Catarina vendeu o imóvel ao IGAPS, instituto sediado em Santo André, São Paulo, por mais de R$ 20 milhões. O instituto já administrava a unidade desde 2022. Agora é dono dela.
Quem desembolsa mais de R$ 20 milhões não veio passear. Ninguém faz um aporte dessa magnitude para fechar as portas no ano seguinte. O IGAPS veio para ficar, e isso é um fato. A questão que Tijucas tem todo o direito de fazer é outra, e é desconfortável: veio para ficar fazendo o quê?
Porque ficar pintando a fachada, mantendo a mesma fila, os mesmos corredores, as mesmas poltronas desconfortáveis que cospem o paciente de volta para a rua, não exige R$ 20 milhões. Isso a cidade já tinha. E não é de graça.
A conta que sai todo mês
Todo mês, o caixa da Prefeitura de Tijucas repassa R$ 550 mil ao hospital, por meio do convênio firmado em 2022. Para efeito de comparação, em 2012, quando a unidade ainda era tocada pelas Irmãs da Divina Providência, o repasse era de R$ 34 mil. O salto é de mais de quinze vezes. É óbvio que é necessário investir em saúde. Os R$ 34 mil eram irrisórios. Os R$ 550 mil talvez também sejam. Pode não ser o suficiente. Talvez precise de mais dinheiro. O que não pode é continuar como está.
É dinheiro do tijucano. Não para pagar um luxo, mas para pagar o básico: que uma pessoa com dor seja atendida com dignidade. E é exatamente o básico que os relatos dizem não estar chegando.
Uma moradora contou ter esperado cerca de cinco horas com fortes dores, sem qualquer medicação para alívio. Quando avisou que não aguentava mais e pensava em ir embora, diz ter ouvido da equipe que era “só abrir a porta e sair”, e que se voltasse no dia seguinte não teria acesso ao resultado dos próprios exames. Outra relatou mais de doze horas de espera. Uma gestante com sangramento disse ter sido informada de que “ali não era maternidade”. Uma mãe levou a filha de quatro anos com 39 de febre e, segundo ela, a criança foi medicada às pressas e mandada para casa, só para piorar dois dias depois.
São versões de pacientes, e como versões devem ser tratadas. Toda história tem lados. Nem sempre o relato raivoso é 100% fiel. Mas quando as versões se repetem às dezenas, vindas de pessoas que não se conhecem, sobre o mesmo lugar, elas deixam de ser desabafo e viram um retrato. E o retrato do Hospital de Tijucas tem sido o de uma população que, na hora do desespero, foge dele.
A paciência de dois lados
É preciso ser justo. O prefeito Maickon Sgrott herdou a parceria com um hospital que, desde a saída das freiras, já trocou de mãos mais de uma vez em uma década. A gestão municipal cobra o IGAPS, acompanha cada etapa e projeta para os próximos anos a volta da maternidade, fechada desde 2018, e a implantação de leitos de UTI, que a cidade nunca teve. A paciência de Sgrott com o IGAPS, dizem os mais próximos, também está sendo testada.
Também está em teste a paciência do morador de Tijucas, que é cronometrada em horas de corredor, em filhos com febre no colo, em viagens de madrugada para Porto Belo, Itapema, São José ou Floripa, porque a alternativa em casa, cada vez mais, deixa de existir.
A maternidade promete voltar em 2027. A UTI, a começar em 2026. São promessas legítimas, e torço para que se cumpram. Mas promessa não medica quem está com dor hoje. E enquanto o calendário das obras avança no papel, o calendário do paciente é o relógio da emergência, que não espera 2027.
A dívida que não está em cartório
A venda do Hospital São José foi registrada em cartório, com cifra, data e partes. Mais de R$ 20 milhões mudaram de mãos. Dizem que beira, ou até passa, os R$ 30 milhões. Mas existe uma outra dívida, essa não escriturada, que cresce a cada plantão: a dívida com a confiança de quem mora aqui.
Esse hospital nasceu de doação. Foi a comunidade de Tijucas que, em 1942, ergueu com as próprias mãos a primeira unidade de saúde da cidade e a confiou às Irmãs da Divina Providência. Oito décadas depois, esse mesmo patrimônio virou ativo milionário de um instituto que sequer é de Santa Catarina. A propriedade mudou. O custeio explodiu. A pergunta, teimosa, continua a mesma de quando o atendimento começou a deixar a desejar: até quando?
O IGAPS veio para ficar. Tijucas só quer saber se veio para transformar, ou apenas para administrar a decadência com dono novo e endereço em São Paulo. A cidade está esperando. E, ao contrário do paciente na fila, ela não vai esquecer quanto tempo levou.















