Tijucas decidiu eternizar no concreto o nome do homem que dedicou a vida a impedir que a memória da cidade se perdesse. A Câmara Municipal de Tijucas aprovou o projeto de lei que denomina “Ponte Leopoldo Barentin” a nova ponte que será construída sobre o Rio Tijucas, no eixo da Avenida Hercílio Luz, ligando os bairros Centro e Pernambuco.
A homenagem é a um nome que se confunde com a própria história recente da cidade. Leopoldo José Barentin foi jornalista, radialista, escritor, pesquisador e fundador do Jornal Razão, em 1995, ao lado da esposa Araci da Silva Barentin. Autor de cerca de 20 livros sobre Tijucas e região, ficou conhecido como o maior guardião da memória oral tijuquense, registrando em obras como “Os Tijucanos”, “Biléca, o Filho da Costa Esmeralda” e “O Sonho de Paula” a vida de pescadores, lavadeiras, benzedeiras e trabalhadores que normalmente ficam de fora da história oficial.
A trajetória de Leopoldo é também uma história de superação. Em 1985, aos 19 anos, ele sofreu um grave acidente automobilístico na BR-101 que quase lhe tirou a vida e, depois de anos de cirurgias, o deixou completamente cego. Foi justamente nessa condição que ele construiu a fase mais importante do seu trabalho: já sem a visão, passou a ouvir, gravar e transformar em livros os relatos dos moradores antigos do município, usando softwares de leitura para pessoas cegas. Faleceu em dezembro de 2021, aos 56 anos.
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Conforme o projeto de lei, de autoria do vereador Esaú Bayer, a nova ponte integra as obras autorizadas pela Lei Municipal nº 3261/2026, que viabilizou a intervenção no eixo da Avenida Hercílio Luz. O Poder Executivo ficará responsável por providenciar a identificação oficial do espaço, com placa, letreiro ou outro meio adequado.
Durante a sessão, a aprovação foi acompanhada de uma sucessão de homenagens. Vereador após vereador subiu à tribuna para relembrar a trajetória do historiador, e uma imagem se repetiu nos discursos: a de que Leopoldo, mesmo sem a visão, enxergava a cidade melhor do que muita gente. “Ele enxergava com os ouvidos”, definiram. Os parlamentares destacaram o conhecimento profundo que ele tinha da história e da política de Tijucas, sua personalidade forte e democrática, e a generosidade com que ajudava as pessoas, especialmente outras pessoas com deficiência, orientando-as inclusive na aquisição de veículos adaptados.
Vários vereadores lembraram ainda o tamanho que o Jornal Razão alcançou. Fundado como um periódico local em 1995, o veículo se tornou o de maior longevidade da história de Tijucas e hoje é administrado pela família, levando o nome da cidade para fora do município. “Em 1995, quando ele criou o Jornal Razão, não deveria imaginar isso. Hoje é uma grande vitrine do nosso município”, afirmou um dos parlamentares. Foi nas páginas do Razão que nasceu a coluna “Páginas da Nossa História”, um arquivo vivo da identidade local.
A homenagem chega poucas semanas depois de Leopoldo voltar a “aparecer” para os tijuquenses. No documentário “Tijucas 166 anos: entre o Rio e o Mar, o despertar de uma potência náutica”, produzido pelo Jornal Razão e lançado pela Prefeitura em comemoração ao aniversário da cidade, o historiador foi recriado por inteligência artificial e atua como apresentador, conduzindo a narrativa sobre a trajetória do município. A pesquisa histórica do documentário tem como base justamente o acervo reunido por ele ao longo de décadas.
Não por acaso, a futura ponte ficará no mesmo eixo da Avenida Hercílio Luz, onde Leopoldo ergueu, no centro de Tijucas, a sede do Jornal Razão, que segue vivo até hoje. Privado da visão física, Leopoldo Barentin ensinou toda uma cidade a enxergar as próprias raízes. Quando a ponte for erguida, quem atravessar o Rio Tijucas vai carregar, mesmo sem saber, o nome do homem que garantiu que Tijucas nunca esquecesse de onde veio.
















