Logo Jornal Razão
Publicidade

Ilha do Papagaio vendida por milhões, rancho do Seu Andrino destruído em Naufragados

Demolição do rancho do pescador de 84 anos em abril e venda milionária da ilha em Palhoça, noticiada pela coluna de Cacau Menezes no ND Mais, geraram comparação imediata entre moradores do litoral catarinense.

Ilha do Papagaio vendida por milhões, rancho do Seu Andrino destruído em Naufragados
Foto: Reprodução
Publicidade

Duas notícias percorreram o litoral catarinense nos últimos meses e, postas lado a lado, produziram uma faísca que nenhuma redação precisou acender. Em abril, máquinas derrubaram o rancho do pescador Andrino Santino Borges, o Seu Andrino, 84 anos, na Praia dos Naufragados, extremo sul de Florianópolis, onde ele vivia há mais de seis décadas. Agora em junho, a coluna de Cacau Menezes, no ND Mais, noticiou que a Ilha do Papagaio, em Palhoça, foi vendida por valor que superou os R$ 10 milhões a cinco empresários de Balneário Camboriú, que pretendem transformar o antigo refúgio de luxo em retiro particular.

Que fique claro desde já: não há vilão nessa compra. Os empresários adquiriram um imóvel que estava à venda, dentro de uma negociação legítima, de uma família que era dona da ilha desde os anos 1970 e que construiu ali uma pousada respeitada. Quem trabalhou, prosperou e pode comprar um pedaço do paraíso não deve satisfação a ninguém. O incômodo não mora aí.

Publicidade

O incômodo mora na comparação que o povo fez sozinho, e fez na hora. Bastou a notícia da venda circular para os comentários se encherem de um mesmo nome: Seu Andrino. E essa indignação é compreensível. Não é inveja, como apressadamente alguém diagnosticou. É a perplexidade de quem olha para a mesma costa e vê o Estado agir com duas velocidades: implacável e pontual quando o alvo é o rancho de um pescador octogenário, silencioso e distante quando o assunto é o patrimônio dos que podem pagar bons advogados e boas taxas.

O detalhe que mais doeu na demolição de Naufragados foi o calendário. As estruturas caíram em abril, dias antes do início da safra da tainha, que começa em primeiro de maio e é, para o pescador artesanal, o que a colheita é para o agricultor: o momento do ano em que tudo se decide. Derrubaram não apenas paredes, derrubaram o refeitório que servia os pescadores na temporada, o abrigo das canoas, o ponto de apoio de um ofício que existe naquela praia desde o século XIX. E o mais curioso: três meses antes, o próprio Incra havia reconhecido ali um território pesqueiro tradicional, com 34 famílias. Um braço do governo federal reconhece, outro braço do poder público demole. O cidadão comum, vendo isso, tem todo o direito de coçar a cabeça.

Rui Barbosa, na sua Oração aos Moços, deixou a régua que serve para medir esse caso: tratar desiguais com igualdade, ou iguais com desigualdade, é desigualdade flagrante. A lei pode estar formalmente correta nos dois episódios. A demolição tinha ordem judicial transitada em julgado, a venda da ilha tinha escritura e história. Mas a Justiça não vive só de estar correta. Como ensinou o juiz inglês Lord Hewart numa frase que virou patrimônio do direito, não basta que a justiça seja feita, é preciso que se veja que ela foi feita. E o que o povo do litoral viu foi um velho pescador sentado diante dos escombros e, na mesma costa, uma ilha trocando de mãos por milhões sem que nenhum órgão levantasse uma sobrancelha.

É a velha lição da mulher de César: não basta ser honesta, é preciso parecer honesta. O poder público catarinense e federal pode até ter razões técnicas para cada decisão que tomou. Mas quando o resultado prático é esse contraste, a aparência cobra seu preço, e o preço é a confiança da população na ideia de que a lei pesa igual para todos.

Receba as notícias no WhatsAppEntrar

A pergunta que esta coluna deixa, portanto, não é para os cinco empresários, que façam bom proveito do seu paraíso. A pergunta é para o Estado: que régua é essa? Se a área do Seu Andrino era da União e por isso precisou ser desocupada, que se explique ao povo, com a mesma energia das retroescavadeiras, por que tantas outras ocupações de beira-mar seguem intocadas. Se a tradição de 60 anos de um pescador não vale um rancho, que se diga isso olhando nos olhos dele. Enquanto a resposta não vem, fica a imagem que o litoral inteiro já entendeu: a tainha passou, o rancho caiu, a ilha foi vendida. E o Seu Andrino, coitado, só não comprou uma ilha porque lhe faltaram os R$ 10 milhões.

  • Florianópolis
  • Ilha do Papagaio
  • Naufragados
  • Palhoça
  • pesca artesanal
Publicidade
Publicidade
Grupo de WhatsApp · Tempo real

Santa Catarina no seu WhatsApp

Entre no grupo oficial do Jornal Razão. As principais manchetes do dia, direto no seu aparelho. Sem spam.

Entrar no grupo
+48 mil catarinenses já acompanham