Foram dois disparos no pescoço, à queima-roupa, dentro do próprio carro da vítima. Dirson Cardoso, de 58 anos, conhecido como “Feijão”, dono de um bar na região, não teve tempo de reagir. Ele foi encontrado sem vida no banco do motorista, em Jaraguá do Sul, no norte de Santa Catarina, em uma execução que, dois dias depois, terminaria com uma autora que ninguém esperava: Rosangela Borges Manoel Schafranski, de 60 anos, sem antecedentes criminais, que mantinha com ele uma relação havia mais de duas décadas.
O corpo foi localizado na tarde de segunda-feira (15), dentro de um veículo estacionado na Via Verde. Acionada por volta do meio-dia, a Divisão de Investigação Criminal (DIC), responsável por apurar homicídios na cidade, chegou ao local e iniciou o trabalho ainda diante do carro. Conforme a Polícia Científica, a vítima apresentava lesão provocada por arma de fogo na região do pescoço, e o projétil atravessou o corpo até atingir o vidro traseiro do veículo.
A partir das primeiras informações sobre a vítima, os investigadores passaram a reunir relatos de familiares e a analisar imagens das câmeras de monitoramento espalhadas pelas proximidades. Foi nesse material que surgiu a primeira pista. As imagens, ainda que distantes, mostravam uma mulher em atitude suspeita: ela saía de um carro, retirava o casaco que vestia, guardava a peça e seguia a pé por alguns metros antes de desaparecer do campo de visão das câmeras. Pouco depois, um automóvel parava para buscá-la e seguia em rumo ignorado.

A confissão
A continuidade das análises permitiu identificar o veículo usado na saída e, a partir dele, chegar a Rosangela. Nesta quarta-feira (17), os policiais foram até a residência dela. Os questionamentos começaram de forma cautelosa, apenas para esclarecer eventual ligação com a vítima ou com o crime. A reação, segundo a polícia, foi surpreendente: a mulher confessou o homicídio de maneira detalhada e tranquila.
Em depoimento, ela relatou que mantinha um relacionamento com Dirson havia mais de 22 anos, marcado, nos últimos tempos, por conflitos. No dia do crime, segundo a versão apresentada por ela, teria decidido pôr fim àquela relação. “E aí, em função disso, de muitos desentendimentos, colocaria um fim nisso”, explicou o delegado Caléu Mello, responsável pela investigação. Para isso, ela teria pegado uma arma de fogo legalizada pertencente a um familiar, marcado um encontro e dissimulado suas intenções, levando a vítima a acreditar que se tratava de um contato afetivo. Aproveitando-se da confiança e de um momento de descuido, teria efetuado os dois disparos sem que houvesse qualquer possibilidade de reação.

Depois dos tiros, ainda conforme o relato, ela deixou o local a pé e chamou um familiar para buscá-la, que teria atendido o pedido sem suspeitar de nada. De volta à residência, teria limpado a arma, lavado a roupa que usava no momento do crime e devolvido o armamento ao lugar de costume, seguindo a rotina como se nada tivesse acontecido.
As provas
Na casa, os policiais localizaram munições intactas na área externa e, durante as diligências, foram apreendidos a arma de fogo usada no crime, peças de roupa que haviam sido lavadas após o homicídio e o celular da autora, encaminhado para perícia. O aparelho da vítima, que não estava no veículo, teria sido danificado e descartado em um rio da região, segundo a própria investigada.
A arma apreendida será analisada pela Polícia Científica em confronto balístico com o projétil encontrado no local. Rosangela foi autuada em flagrante pela DIC de Jaraguá do Sul pelo crime de homicídio qualificado, em razão do recurso que dificultou a defesa da vítima, diante da dissimulação usada para se aproximar dela.
O caso ganhou repercussão poucas semanas depois de Jaraguá do Sul ser apontada como uma das cidades mais seguras do país. À frente da investigação, a Polícia Civil destacou o trabalho da DIC, que chegou à autoria em menos de 48 horas. Após a autuação em flagrante, foi representada a prisão preventiva de Rosangela. Ela passará por audiência de custódia, quando o Ministério Público e o Poder Judiciário decidirão se permanece presa ou responde em liberdade. As investigações seguem em andamento.















