Era madrugada de sexta-feira quando o fogo tomou conta da rua Leão Marinho, em Bombinhas, no Litoral Norte catarinense. As chamas subiam de uma viatura dos agentes de trânsito do município, estacionada em frente à sede do Departamento de Trânsito, e já avançavam sobre um segundo veículo ao lado. O clarão no meio da noite virou o símbolo de algo que moradores vêm denunciando há meses: a sensação de que a cidade conhecida como uma das mais seguras do estado deixou de ser o que era.
O incêndio foi resultado de ação criminosa. Os veículos ligados à estrutura pública foram alvo de um ataque proposital, em plena madrugada, diante da própria sede do Departamento de Trânsito, o que aprofundou entre os moradores a sensação de ousadia e de abandono.
Conforme o Corpo de Bombeiros Militar, a ocorrência foi registrada por volta de 1h51. Quando as equipes chegaram ao local, encontraram uma das viaturas completamente tomada pelo fogo, enquanto as chamas começavam a atingir o veículo estacionado ao lado. Os bombeiros iniciaram o combate para impedir que o incêndio se espalhasse para a segunda viatura e para a edificação.
Assista ao vídeo
Durante a operação, foi solicitado o deslocamento preventivo de uma viatura de apoio de Itapema para proteger o prédio, medida cancelada depois que a situação foi controlada. Ao todo, foram utilizadas duas linhas de combate e cerca de três mil litros de água para extinguir as chamas.
Além dos danos nos dois veículos, o fogo atingiu a fachada do Departamento de Trânsito. Segundo os bombeiros, folhas de vidro temperado das portas de duas salas estouraram por causa do calor, somando-se a outros prejuízos na estrutura do prédio público. Após o combate e o rescaldo, o local foi deixado sob responsabilidade da Polícia Militar e do vice-prefeito do município.
Meses de denúncias
O ataque foi imediatamente lido por boa parte dos moradores como mais um capítulo de um cenário de insegurança que se agravou na cidade. Nos últimos meses, o tema tomou conta das redes sociais locais. Em publicações sobre segurança pública, moradores relatam uma sequência de roubos e furtos a residências, comércios e veículos. Há quem conte ter sido obrigado a instalar câmeras depois de tentativas de arrombamento, quem fale em estabelecimentos invadidos durante a madrugada e quem descreva o aumento de pessoas em situação de rua em diferentes bairros.
Em uma das postagens mais comentadas, um morador resumiu o sentimento que se espalhou pela cidade. “Bombinhas não é mais a mesma”, escreveu, em frase repetida em diferentes variações por outros perfis. Em outro comentário, uma moradora desabafou: “A gente não consegue ir num mercado sem ser abordada por moradores de rua. Há cinco anos essa cidade era outra.” Há ainda quem aponte a frequência dos crimes: “4 arrombamentos na cidade em uma noite e nada?”
A cobrança por reforço na segurança aparece de forma recorrente. Boa parte dos relatos defende a criação de uma Guarda Municipal, lembrando que o município seria um dos poucos da região a ainda não contar com a corporação, e pede rondas noturnas constantes e mais viaturas nas ruas durante a madrugada. “Tem que ter viaturas na madrugada, rondas, só isso já resolve”, escreveu um morador. Outros pedem atenção ao avanço de ocupações irregulares e à presença de usuários de drogas em pontos da cidade.
Discurso de um lado, cobrança do outro
Enquanto a insegurança se espalha, a Prefeitura tem feito da segurança pública sua principal vitrine nas redes sociais. O prefeito publica, com frequência, registros de ações ao lado da Polícia Militar e das forças municipais, em que aparece acompanhando pessoalmente operações pelas ruas e afirma que combater o tráfico e os roubos é prioridade. Em uma das publicações, declarou que “aqui não haverá espaço para malandro”.
O contraste, porém, está nos próprios comentários dos moradores. Em uma das publicações que mostram a abordagem ao lado da Polícia Militar, a caixa de comentários aparece desativada, justamente no espaço em que a população costuma cobrar respostas. Nos posts em que os comentários seguem abertos, as críticas são diretas. “Nem adianta marcar prefeito ou prefeitura, parece que eles estão cagando pra tudo que tá acontecendo”, escreveu uma moradora. Outra resumiu a desconfiança com o discurso oficial: “Na teoria tá lindo. Na prática não vejo uma única ronda pelas ruas.”
As queixas se acumulam embaixo das postagens institucionais. Há quem questione a efetividade do monitoramento, “cadê as câmeras? estão inativas? polícia tá só no protocolo”, e quem relate ter sido vítima de crime na própria semana em que o poder público celebrava as ações de segurança. A sensação de distância entre o que é anunciado e o que se vive nas ruas aparece como o fio condutor das manifestações.
Um novo patamar
O ataque às viaturas adicionou um elemento mais grave ao debate. Atingir veículos ligados à estrutura pública, em frente à própria sede do Departamento de Trânsito, é visto por muitos moradores como um sinal de ousadia que escancara a fragilidade da segurança no município. Para parte da população, o episódio é a tradução, em fogo e fumaça, daquilo que vinha sendo dito nos comentários havia meses.
A Polícia Militar ficou responsável pelo local após a ocorrência, e a investigação deve apontar a autoria e a motivação do ataque. Até a última atualização, o caso seguia sob investigação. As autoridades buscam identificar os responsáveis, e a cobrança dos moradores por respostas concretas, e não apenas por publicações, sobre a segurança da cidade tende a continuar nos próximos dias.















