O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou a abertura da entrevista ao Flow Podcast, na noite desta quinta-feira (1º), para atacar a TV Globo e os debates da emissora. Questionado pelo apresentador Igor Coelho sobre por que estava ali e não no último debate antes do primeiro turno, Lula respondeu: “Porque eu gosto mais de você do que da Globo”. Em seguida, acusou a emissora de ter impedido debates em 1994 e 1998 para proteger Fernando Henrique Cardoso e de ter agido com “preconceito” contra ele em 2006.
A pergunta de Igor Coelho abriu a conversa: “Por que diabos o senhor tá aqui comigo e não tá no debate da Globo?”. Depois da brincadeira, o presidente disse que questiona há tempo o formato da emissora. “Quando chegou em 94, não teve debate porque a Globo defendia a eleição do Fernando Henrique Cardoso e não queria que tivesse debate pra não expor o Fernando Henrique Cardoso. Não teve nem debate em 94, nem debate em 98. É importante lembrar”, afirmou.
A acusação é de Lula. O que os registros das duas eleições mostram é que a Globo não fez debate presidencial em 1994 nem em 1998, mas houve debates em outras emissoras em 1994, na Bandeirantes e na Manchete. Em 1998, não houve nenhum: Fernando Henrique, que disputava a reeleição e venceu no primeiro turno, recusou os convites e alegou estar ocupado com a crise internacional.
“Não tá discutindo merreca, quem vai lacrar mais”
Lula elogiou apenas o debate de segundo turno de 2002, contra José Serra, “o candidato tête-à-tête, cada um falando um contra o outro”. Para ele, o modelo com vários candidatos não funciona. “Você fala um minuto e espera dez minutos, fala dois minutos e espera dez minutos, não tem sequência. É como se o jogador desse um pique e voltasse pra descansar”, comparou.
“Eu, sinceramente, acho que esses debates são infrutíferos, não produzem nada”, disse. “O pessoal começa a fazer gracinha. Qual é a piada, qual é a pegadinha. Quando você tá numa disputa pra presidente da República, é uma coisa mais séria. Você tá discutindo o país, o povo brasileiro, a soberania brasileira. Você não tá discutindo merreca, quem é mais engraçado, quem vai lacrar mais aquela piadinha.”
A cadeira vazia de 2006
Na sequência da entrevista, o presidente lembrou a outra vez em que faltou ao debate da Globo. “Em 2006, eu não fui no debate, porque tinha o Alckmin, que era meu adversário, que hoje é meu vice. E tinha três candidatos do PT. Eu fiquei pensando: eu vou no debate pra ficar brigando com meu ex-companheiro do PT? Eu não vou”, contou. “O que a Globo fez comigo? Colocou uma cadeira vazia. Que não colocou o Fernando Henrique Cardoso. Colocou o Lulinha, porque com o Lulinha pode tudo. O preconceito é muito grande.”
O debate de 2006 aconteceu três dias antes do primeiro turno. A cadeira de Lula ficou vazia no estúdio e os adversários fizeram perguntas ao ausente. Participaram Geraldo Alckmin (PSDB), Heloísa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT). Os ex-petistas no palco eram dois, e não três: Heloísa Helena e Cristovam. Naquele ano, Lula terminou o primeiro turno na frente, foi aos debates do segundo turno e se reelegeu contra Alckmin.
Sobre a decisão deste ano, Lula disse que não precisava se apresentar ao eleitor. “Eu tava decidido, eu não vou no debate. O pessoal já me conhece demais. Eu já sou uma figura muito conhecida”, afirmou.
Em 2026, a cadeira vazia foi proibida pelo TSE
Quando Lula falava da cadeira de 2006, Igor Coelho interrompeu: “Hoje teve uma decisão pra não ter, né?”. O apresentador se referia à liminar concedida na tarde desta quinta pela ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a pedido da coligação do próprio Lula. Ela suspendeu o item 7 da ata do debate, que previa manter no cenário o lugar do candidato faltoso, identificado e com destaque para a ausência, e permitia perguntas a ele.
A ministra mandou a Globo se abster de aplicar a regra, “inclusive quanto à exibição destacada da cadeira vazia identificada e quanto à dinâmica de formulação de perguntas dirigidas ao candidato ausente”, sob pena de multa. Para ela, a cláusula tinha “aparente intuito de compelir os candidatos a comparecer ao debate, renunciando à facultatividade de participação assegurada em lei”. Estela Aranha foi nomeada para o TSE por Lula, em julho de 2025, depois de trabalhar no Ministério da Justiça e no Palácio do Planalto.
Não foi a única ordem judicial do dia. Cerca de duas horas antes do programa, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou uma decisão do presidente do TSE, Nunes Marques, e mandou a emissora colocar Renan Santos (Missão) na vaga de Lula. O senador Flávio Bolsonaro (PL), que tinha desafiado o presidente a comparecer, desistiu em seguida e atribuiu a decisão à “censura imposta ao evento pelo TSE”.
O debate, no fim, não aconteceu. A Globo cancelou o programa e afirmou, em nota, que “as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade” dos veículos de imprensa de organizar debates eleitorais, conforme a íntegra reproduzida pelo Correio Braziliense.
Com a ausência, o presidente termina o primeiro turno sem ter participado de nenhum debate em 2026. Em 23 de agosto, ele já tinha faltado ao da Band e dado entrevista à TV Record. No Datafolha divulgado nesta quinta, Lula tem 45% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro, 40%. O primeiro turno é no domingo (4).
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