O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que seus adversários “pegaram um agiota e transformaram num banqueiro” e que ele transformou o banqueiro “num prisioneiro”. A frase, sobre o Banco Master e seu ex-controlador, Daniel Vorcaro, foi dita na noite desta quinta-feira (1º), em entrevista ao Flow Podcast, a três dias do primeiro turno. Lula disputa a reeleição contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).
“Eles pegaram um agiota e transformaram num banqueiro. Eu transformei o banqueiro dele num prisioneiro, porque foi eles que criaram o Banco Master, que deu um golpe de sessenta bilhões. Não foi sessenta reais, sessenta bilhões nesse país, e que corrompeu todo mundo”, disse o presidente ao apresentador Igor Coelho. Lula não disse quem são “eles”, mas falava de Flávio Bolsonaro e do grupo político do adversário, a quem tinha acabado de chamar de “ligado aos milicianos”.
Em seguida, o presidente disse que não queria julgar ninguém. “Eu não sou juiz e não sou delegado, mas pelo que eu tô vendo na imprensa, tem muita gente com o rabo preso”, afirmou. E acrescentou: “Além do dinheiro, tem as orgias”. Lula não citou nomes nem apresentou prova do que disse sobre as festas.
O que é fato e o que é acusação
“Agiota” é a palavra de Lula. Vorcaro é investigado na Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que apura fraudes no sistema financeiro envolvendo o Banco Master. Ele foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, no aeroporto de Guarulhos, quando ia embarcar para Dubai, foi solto dias depois e voltou à prisão em 4 de março deste ano, por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), como mostra a linha do tempo publicada pela CNN Brasil. Ou seja: a prisão foi decretada pela Justiça, em operação da Polícia Federal, e não pelo presidente da República.
Sobre quem “criou” o banco, o registro é este: Vorcaro pediu ao Banco Central autorização para comprar o controle do Banco Máxima, depois rebatizado de Master. O pedido foi negado em fevereiro de 2019 e aprovado em 14 de outubro de 2019, no primeiro ano do governo Jair Bolsonaro, quando o Banco Central era presidido por Roberto Campos Neto, segundo documentos do próprio BC noticiados pelo jornal O Tempo. O banco foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, já no governo Lula.
O número citado pelo presidente é maior que o registrado até aqui. O rombo deixado no Fundo Garantidor de Créditos (FGC) pelo conglomerado Master, pelo Will Bank e pelo Banco Pleno soma R$ 51,8 bilhões, de acordo com levantamento do Poder360 publicado em fevereiro. Lula falou em R$ 60 bilhões.
A fraude do INSS
Na mesma resposta, antes de chegar ao Master, Lula atribuiu aos adversários a fraude dos descontos em aposentadorias. “Eles criaram a quadrilha, nós desmontamos a quadrilha, prendemos a quadrilha, tomamos seis bilhões de pertence da quadrilha e pagamos três bilhões e meio a cinco milhões de aposentados”, disse.
A Operação Sem Desconto foi deflagrada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União em abril de 2025. Os descontos indevidos devolvidos pelo governo foram feitos entre março de 2020 e março de 2025, período que pega o governo Bolsonaro e o atual. Até julho, o INSS tinha devolvido R$ 3,26 bilhões a 4,8 milhões de aposentados e pensionistas, conforme balanço noticiado pela Banda B, números próximos dos citados por Lula. O Jornal Razão não localizou dado oficial que confirme os R$ 6 bilhões que o presidente diz terem sido tomados da quadrilha: a investigação estima que o esquema movimentou cerca de R$ 6,3 bilhões.
Luciano Huck e Alexandre de Moraes
Lula voltou ao caso minutos depois e defendeu investigação ampla. “É preciso investigar todo mundo”, disse, sem “proteção” a presidente da República, ministro do Supremo, deputado ou senador. Citou o apresentador Luciano Huck, da TV Globo: afirmou que ele viajava no avião de Vorcaro “pra baratear as custas do programa dele junto à Globo” e que o Will Bank financiava a atração. “Virou uma putaria. Desculpa o palavrão”, disse o presidente.
As mensagens entre Huck e Vorcaro extraídas do celular do banqueiro mostram o apresentador pedindo aviões em 2024 para ir a Canoas (RS), durante a enchente, e a Varsóvia, na Polônia, e tratam do patrocínio do Will Bank ao programa dele, segundo reportagem do Poder360. O texto registra que não há relação ilegal nos diálogos. Em nota reproduzida pelo portal, a assessoria de Huck afirmou que “toda a interação entre Luciano Huck e Daniel Vorcaro se deu em torno da captação e da gestão do patrocínio do Will Bank” e que “não houve sociedade”.
Mais adiante, o presidente contou ter cobrado o ministro Alexandre de Moraes, do STF, sobre o contrato do escritório da mulher dele com o banco. “Eu disse pro Alexandre de Moraes: você deve uma explicação à sociedade brasileira”, relatou. O escritório de Viviane Barci de Moraes tinha contrato de R$ 129 milhões com o Master e recebeu R$ 80,2 milhões entre 2024 e 2025, segundo dados da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado e noticiados pela CNN Brasil. Na ocasião, o escritório disse que não confirmava “essas informações incorretas e vazadas ilicitamente” e, antes, tinha informado que prestou “ampla consultoria e atuação jurídica” ao banco.
Flávio Bolsonaro, que trocou mensagens com Vorcaro, já afirmou que conheceu o banqueiro em dezembro de 2024, depois do fim do governo do pai, e que não ofereceu nem recebeu vantagem. O Jornal Razão mantém o espaço aberto para a manifestação do senador, do ex-presidente Jair Bolsonaro, da defesa de Daniel Vorcaro, de Luciano Huck e do ministro Alexandre de Moraes sobre as declarações desta quinta-feira. O primeiro turno é no domingo (4).
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