Um bebê de 45 dias morto. Dez vezes mais adrenalina do que o médico mandou. E, agora, uma técnica de enfermagem indiciada por homicídio culposo.
Cinquenta dias depois da morte do pequeno Murilo, o caso que comoveu Camboriú ganhou dois desdobramentos decisivos. O Jornal Razão teve acesso com exclusividade ao laudo da Polícia Científica de Santa Catarina, que confirma o erro na aplicação do medicamento. E a Polícia Civil indiciou a técnica de enfermagem responsável pela aplicação.
Enquanto isso, a mãe do bebê segue sem respostas do poder público. O secretário de Saúde de Camboriú e o prefeito Leonel Pavan não quiseram falar com a reportagem.
“A resposta é nenhuma resposta. Já se passaram 50 dias que o meu filho não está mais comigo, e eu vejo que não está sendo feita nenhuma justiça.”
Uma alergia e as últimas horas de vida
Murilo tinha 45 dias quando deu entrada no Hospital Cirúrgico de Camboriú (HCC), no meio da tarde de 12 de agosto. Segundo a mãe, ele teve uma reação alérgica depois de tomar fórmula infantil pela primeira vez.
O médico avaliou o caso como reação alérgica aguda e prescreveu dois medicamentos por via intramuscular: 0,1 miligrama de adrenalina e 0,4 miligrama de dexametasona.
Segundo o laudo, foi na aplicação desses medicamentos que tudo mudou.
O que diz o laudo
O laudo da Polícia Científica foi concluído em setembro e anexado ao inquérito da Polícia Civil. A partir dos prontuários dos dois hospitais por onde o bebê passou, a perícia reconstruiu o atendimento.
O ponto central está no relatório final do próprio Hospital Cirúrgico, assinado pelo médico assistente e pela equipe de enfermagem: em vez das doses prescritas, a técnica aspirou e aplicou as ampolas inteiras dos dois medicamentos.
No caso da adrenalina, isso significou 1 miligrama no lugar de 0,1 miligrama. Foram dez vezes a dose prescrita.
A conclusão da perícia é direta: a dose aplicada “excedeu substancialmente a dose pediátrica usualmente calculada por peso” e configurou sobredosagem medicamentosa.
Logo após a aplicação, o bebê ficou roxo, perdeu a estabilidade e o coração disparou. Os registros do Hospital Cirúrgico apontam frequência cardíaca de 247 batimentos por minuto. O eletrocardiograma indicou taquicardia extrema, provavelmente supraventricular.
O Samu foi acionado, e Murilo foi transferido para o Hospital Infantil Pequeno Anjo, em Itajaí, onde chegou com o coração ainda acima de 240 batimentos por minuto. Ele foi internado na UTI. Às 19h10, o bebê teve uma parada cardiorrespiratória. As manobras de reanimação não tiveram resultado, e a morte foi declarada às 19h46.
“Participação causal significativa”
A perícia reconhece que a anafilaxia já era, por si só, uma condição potencialmente fatal. Mas o laudo destaca que, na avaliação médica feita antes da adrenalina, a oxigenação do bebê estava preservada. Para a perícia, isso torna “menos evidente” que a falta de oxigênio tenha sido o mecanismo principal da morte.
O que se agravou depois da aplicação foi o coração. Segundo o documento, a sequência dos fatos e os exames cardíacos são compatíveis com um efeito adverso grave da exposição excessiva à adrenalina.
A conclusão é que a administração da dose excessiva “teve participação causal significativa na evolução fatal”.
O laudo ainda é complementar. Os exames toxicológico e anatomopatológico não estavam prontos quando ele foi concluído.
Técnica é indiciada e admite inexperiência
A investigação da Polícia Civil chegou a um nome. Conforme apurou o Jornal Razão, a técnica de enfermagem que aplicou os medicamentos foi indiciada em setembro por homicídio culposo, que é quando não há intenção de matar.
Em depoimento, ela admitiu que aplicou a ampola inteira de adrenalina. E disse mais: que não tinha experiência nesse tipo de procedimento.
O Hospital Cirúrgico informou que a profissional está afastada desde o caso. Na segunda-feira (28), o diretor técnico da unidade, Alexandre Tolentino, afirmou ao Jornal Razão que todos os profissionais envolvidos seguem afastados, sem salário e sem previsão de retorno.
“O caso está nas mãos das autoridades competentes. Não cabe ao administrativo fazer os devidos julgamentos.”
Alexandre Tolentino, diretor técnico do Hospital Cirúrgico de Camboriú
A técnica responde ao processo em liberdade, segundo informações obtidas pelo Jornal Razão. Para a mãe, o afastamento não basta.
“Foi só afastada? É isso que vocês têm a fazer? Só afastar? E a justiça?”
Fernanda Santos, mãe do Murilo
“Minha vida foi destruída”
Murilo era o único filho de Fernanda. Em entrevista ao Jornal Razão, ela descreveu o luto como um tormento que não alivia.
“Não foi só a vida do meu filho que foi tirada de mim de uma forma brutal, pelo erro de uma técnica. Foi a minha vida também destruída. Hoje eu preciso de medicação para lidar com tudo isso que está acontecendo.”
Fernanda Santos, mãe do Murilo
“Cada dia que passa é um tormento. Não alivia. Só quem já perdeu um filho sabe qual é a dor.”
Fernanda Santos, mãe do Murilo
Ela diz que segue cobrando justiça para que outras famílias não passem pelo mesmo.
“Eu sei que nada vai trazer meu filho de volta, mas eu quero justiça para que nenhuma outra mãe passe pelo que eu estou passando. Quantas mães vão precisar perder e vir na internet pedir justiça para que alguma coisa seja feita?”
Fernanda Santos, mãe do Murilo
O pedido de desculpas que não veio
Um dia depois da morte do Murilo, o secretário de Saúde de Camboriú, Henrique Manuel Alves, afirmou ao Jornal Razão que o município “não tem que pedir desculpa” e sim “acolher” a família. Na mesma entrevista, disse ainda “nada como um dia após o outro”. As falas ainda machucam a mãe.
“Imagina você ter o seu filho arrancado de você e depois ouvir um secretário de Saúde dizer que não deve desculpa para você. É dolorido ouvir isso, e torna o luto muito mais difícil do que ele já é. Eu mereço ouvir um pedido de desculpa, por mais que não vá trazer meu filho de volta.”
Fernanda Santos, mãe do Murilo
“Os dias estão se passando, e o meu filho não voltou.”
Fernanda Santos, mãe do Murilo
Secretário vai embora ao ver a reportagem
O Jornal Razão foi até a Secretaria de Saúde de Camboriú para ouvir o secretário Henrique Manuel Alves sobre o laudo e o indiciamento. Ele não quis conversar com a reportagem.
Mais tarde, enquanto a equipe gravava em frente ao Hospital Cirúrgico, o secretário estava por coincidência no local. Ao ver a equipe do Jornal Razão, entrou no carro e foi embora sem responder às perguntas.
A reportagem também foi até a Prefeitura de Camboriú para tentar falar com o prefeito Leonel Pavan. A assessoria de comunicação informou que o prefeito não tem interesse em falar sobre o caso.
Em nota, a assessoria disse apenas que as investigações estão em andamento e que a Secretaria de Saúde vai se pronunciar oportunamente. A Prefeitura não informou o andamento da sindicância anunciada pelo prefeito em agosto, quando prometeu “responsabilizar quem quer que seja”.
Hospital Pequeno Anjo
Procurado, o Hospital Infantil Pequeno Anjo, em Itajaí, afirmou que o atendimento prestado ao Murilo foi de caráter emergencial e “totalmente condizente com o quadro clínico apresentado”. Segundo a nota, o procedimento foi conduzido “com o máximo cuidado, respeito e zelo pelo paciente”, e nenhum profissional da instituição foi afastado.
Entenda o caso
- 12 de agosto: Murilo, de 45 dias, dá entrada no Hospital Cirúrgico de Camboriú com reação alérgica. Recebe dez vezes a dose prescrita de adrenalina, é transferido ao Hospital Pequeno Anjo e morre às 19h46.
- 13 de agosto: em nota, a Prefeitura confirma que o prontuário registra medicamento em quantidade superior à prescrita. A Associação Hospitalar do Brasil (AHBR), que administra o HCC, afasta a técnica e o pediatra e comunica os conselhos de Enfermagem e de Medicina. O secretário de Saúde diz que o município “não tem que pedir desculpa”.
- 14 de agosto: Murilo é sepultado no Cemitério do Rio do Meio, em Camboriú.
- Setembro: a Polícia Científica conclui o laudo complementar, que aponta participação causal significativa da dose excessiva na morte. No mesmo mês, a Polícia Civil indicia a técnica de enfermagem por homicídio culposo.
O Hospital Cirúrgico de Camboriú pertence ao Município desde 2025 e é administrado pela AHBR por meio de contrato com a Prefeitura.
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