O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma linha de crédito de até R$ 20 bilhões para socorrer os clubes de futebol que vão perder o dinheiro das casas de apostas. O plano surgiu depois que o próprio Lula assinou, na sexta-feira (25), a medida provisória que proíbe as bets em todo o país, a nove dias do primeiro turno da eleição em que ele tenta a reeleição.
O socorro corre em paralelo ao discurso do presidente de que o fim das apostas não afeta os times. Na cerimônia de sanção da lei de incentivo ao futebol feminino, nesta segunda-feira (28), em Brasília, Lula afirmou: “Esse negócio da gente ter acabado com a bets não traz nenhum prejuízo pro futebol”. Disse ainda que as bets representam, em média, menos de 7% da arrecadação dos clubes. No mesmo discurso, soltou: “E os clubes que se virem”.
O plano leva o nome de Programa Nacional de Reestruturação Financeira do Futebol Profissional e atenderia clubes das Séries A e B do Brasileirão e as Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs). A ideia é que os times troquem dívidas caras por financiamento com juros menores, em condições parecidas com as do BNDES, com até 20 anos para pagar e dois anos de carência antes da primeira parcela.
O dinheiro teria destino definido: dívidas trabalhistas e de direito de imagem, débitos com a Receita Federal, o INSS e o FGTS, empréstimos bancários, dívidas cíveis e obras nas categorias de base. Pelo desenho em discussão, o crédito não poderia pagar salário do mês, contratar jogador nem cobrir despesa do dia a dia, e não haveria perdão de dívida. O valor ainda está em negociação e não foi aprovado.
O plano já esbarrou no banco que serve de referência. Em nota, o BNDES afirmou que não participou de nenhuma discussão sobre o tema e que “possui vedação estatutária para realizar financiamento para clubes”. Ou seja, pelas regras do próprio banco, ele não pode emprestar para time de futebol. Outras formas de ajuda ainda estão em estudo no governo.
A negociação com os times também travou. Uma reunião no Palácio do Planalto estava marcada para esta terça-feira (29) com os ministros da Fazenda, Dario Durigan, do Esporte, Paulo Henrique Cordeiro, e do Planejamento, Bruno Moretti, além de dirigentes de clubes e federações. O encontro foi adiado sem nova data. O ministro do Esporte atribuiu o adiamento à proximidade da data e aos horários de voo disponíveis para os participantes. A CBF vai avisar os clubes da nova data.
A pressa dos clubes tem motivo. Segundo levantamento da Sports Value, as bets pagaram R$ 1,143 bilhão em patrocínio aos 20 clubes de maior receita do país em 2025, 85% a mais que os R$ 618 milhões de 2024. O valor equivale a 34% de tudo o que esses times faturaram com marketing. O Flamengo lidera, com R$ 269 milhões por ano, seguido por Corinthians (R$ 150 milhões) e São Paulo (R$ 113 milhões).
A MP 1.394/2026 está em vigor desde sexta e proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas esportivas e jogos online, inclusive de sites sediados fora do país. O apostador tem até 5 de outubro para sacar o saldo. No dia 6, sites e aplicativos saem do ar, e de 9 a 14 de outubro o dinheiro que sobrar deve ser devolvido. O Congresso tem 180 dias para votar a medida.
A proibição é uma virada do próprio governo. Em 2023, Lula sancionou a lei que regulamentou as bets. Depois disso, o governo vendeu licenças de R$ 30 milhões a cada empresa autorizada e a União recolheu cerca de R$ 10 bilhões em impostos do setor em 2025.
Na oposição, o candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro, chamou a MP de “estelionato” e acusou Lula de tentar enganar o eleitor às vésperas da eleição.
O governo ainda precisa remarcar a reunião com os clubes e fechar o formato do programa, que pode sair por medida provisória ou por projeto de lei. O primeiro turno é no domingo, 4 de outubro.























