“Satanás inventou a fake news. Satanás inventou político que se elege com fake news.” A frase é de Flávio Dino, dita em abril de 2023, quando ele ainda era ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Lula. Três anos depois, com Dino no Supremo Tribunal Federal (STF) por indicação do próprio Lula, é o presidente quem aparece na TV repetindo um boato já desmentido contra o adversário na corrida ao Planalto, o senador Flávio Bolsonaro (PL).
O discurso de Dino foi feito em 26 de abril de 2023, em Fortaleza (CE), no lançamento do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), e registrado pelo Poder360. Na época, o ministro comentava a suspensão do Telegram determinada pela Justiça Federal em Linhares, no Espírito Santo.
“As redes sociais foram inventadas por inspiração de Deus, como tudo de bom que a humanidade tem. Mas também, como a trajetória humana mostra, o diabo se introduz pelo meio”, disse. “Satanás inventou o grupo de WhatsApp.” Depois das risadas da plateia, emendou: “É verdade, eu juro pra vocês. Satanás inventou a fake news. Satanás inventou político que se elege com fake news. Satanás inventou político que acha que internet é brincadeira.”

O tom subiu no trecho seguinte. “Essa gente não é anedótica, essa gente é perigosa. Essa gente mata. Quem mente, mata. A mentira mata. Quem faz da mentira profissão é um homicida, é um genocida”, afirmou Dino. “É preciso falar com firmeza com essa gente. E esta gente está aí nesse negócio de internet, obtendo dinheiro, voto e poder.”
A fake news da padroeira
A fala ganhou outro peso nos últimos dias, com a notícia falsa que tomou as redes: a de que Flávio Bolsonaro, se eleito, tiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Não existe nenhuma proposta dele nesse sentido. A história foi montada em cima de uma fala de agosto, em que o senador prometeu decretar que “o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo”, e de um projeto de lei de 2007, do então deputado Victório Galli, rejeitado e arquivado pela Câmara em 2008, sem qualquer relação com Flávio.
Segundo a campanha de Flávio, o boato começou na noite de 23 de setembro, num post do perfil “Dilma Bolada”. No dia 24, um comentário na GloboNews associou o senador à ideia; a emissora corrigiu a informação durante a madrugada e pediu desculpas. Levantamento do Instituto DX, publicado pelo Poder360, contou 977,6 mil publicações e 8,5 milhões de interações sobre o tema, o terceiro maior assunto político das redes em 2026. Dois terços dos posts de perfis políticos vieram da esquerda.
Em 25 de setembro, o ministro André Mendonça, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou retirar do ar 1.170 links que ligavam Flávio ou a família dele à intenção de acabar com o título de padroeira e classificou a narrativa como “notoriamente inverídica”.
“Tá na rede social”
Nada disso impediu Lula de levar o assunto à entrevista ao Canal Livre, da Band, exibida no domingo (27). O presidente puxou o tema antes mesmo das perguntas: “Esse negócio de mexer com Nossa Senhora Aparecida, não é aceitável”. Contestado ao vivo pela jornalista Adriana Araújo (“Mas foi uma fake news, né, presidente?”), respondeu que não sabia. Os entrevistadores explicaram a origem do boato e lembraram que a própria emissora que o divulgou já tinha pedido desculpas.
Mesmo assim, Lula insistiu. “O dado concreto é que isso tá na rede social, muito forte”, disse. A frase passou a ser repetida por internautas nos comentários do trecho.
Na régua que o próprio Dino traçou em 2023, a mentira que corre na internet em busca de “dinheiro, voto e poder” não é brincadeira: é coisa de “seres do mal”, que ele prometeu “exorcizar”. Resta saber se o ministro do STF enxerga assim quando o boato sai da boca de quem o indicou para a Corte.





















