A Justiça de Santa Catarina mandou o vereador Leonel Camasão (PSOL), de Florianópolis, apagar em 24 horas três publicações no Instagram contra o ex-deputado estadual Bruno Souza (PL). Nos vídeos, o parlamentar do PSOL afirmava que Bruno tinha mais de R$ 8 milhões em bens bloqueados pela Justiça e o ligava à contratação da ONG investigada na Operação Backstage, da Polícia Civil. Se não cumprir a ordem, Camasão paga multa de R$ 2 mil por dia, até o limite de R$ 20 mil.
A decisão liminar foi assinada nesta segunda-feira (28) pelo juiz Fernando de Castro Faria, do 1º Juizado Especial Cível da Comarca da Capital. Para o magistrado, ao menos nesta fase do processo, a primeira publicação “ultrapassou os limites do exercício da liberdade de expressão”.
Na mesma tarde, Bruno Souza foi até o gabinete do vereador na Câmara Municipal de Florianópolis com uma cópia da decisão nas mãos e gravou tudo. Na porta, ao lado da placa com o nome de Camasão e do partido, ele chamou pelo parlamentar. “Eu acabei de conseguir uma decisão judicial contra um vereador PSOL que usa a mentira como método e eu vim aqui entregar pra ele”, disse no vídeo.
Camasão não estava. Bruno entregou o documento a um integrante da equipe e avisou: “Vocês têm vinte e quatro horas para retirar as mentiras do ar e eu espero que realmente não se repita”. Depois, foi até o comitê de campanha do vereador, que também estava fechado.
Os R$ 8 milhões que a Justiça não encontrou
O primeiro vídeo foi ao ar em 3 de junho. Nele, Camasão dizia que Bruno “tem mais de oito milhões de reais em bens bloqueados pelo Judiciário” e que, “segundo a decisão da Justiça, ele se apropriou do patrimônio dos próprios irmãos”. Bruno negou as duas afirmações e levou ao processo as cópias das ações em que é parte, ligadas a uma disputa familiar e de herança.
O juiz analisou esses documentos e não encontrou o que o vereador do PSOL anunciou. Segundo a decisão, os processos reconhecem que existe o litígio entre a família, mas não concluem que houve fraude, desvio ou apropriação de patrimônio por parte de Bruno. O magistrado apontou “possível desconformidade” entre o que as decisões judiciais dizem e a narrativa levada ao público.
Camasão foi chamado a se manifestar antes da liminar e respondeu no processo, mas, de acordo com o juiz, não juntou nenhum documento capaz de sustentar o que publicou. O alcance pesou na decisão: o perfil do vereador tem mais de 117 mil seguidores e o primeiro vídeo passava de 265 mil visualizações.
A ONG da Operação Backstage
Nos dias 26 e 30 de junho, Camasão voltou ao tema e associou Bruno à ONG investigada na Operação Backstage, deflagrada em junho pela Polícia Civil. A investigação apura suspeita de fraude em licitação, direcionamento de contratos, corrupção e organização criminosa na Secretaria de Assistência Social de Florianópolis, em contratos da Associação Alberto de Souza para a gestão da Passarela da Cidadania e do Restaurante Popular. O termo inicial previa R$ 3,3 milhões por 90 dias e ganhou um aditivo de cerca de R$ 21 milhões.
A contratação aconteceu quando Bruno era o secretário de Assistência Social da Capital, cargo que assumiu em janeiro de 2025 no governo de Topázio Neto. Ao juiz, ele afirmou que não é alvo da operação e que as decisões do prefeito foram no sentido contrário ao que ele havia sugerido. Para o magistrado, isso é reforçado por um documento anexado ao processo e pela saída de Bruno da secretaria, após divergências com Topázio. Atribuir a ele responsabilidade pelo caso sem conclusão da investigação, escreveu o juiz, é “ao menos por ora, lesiva”.
O juiz, porém, negou dois pedidos de Bruno. Não proibiu o vereador de fazer novas publicações sobre o assunto, porque isso seria “censura prévia”, vedada pela Constituição; eventuais excessos futuros, segundo a decisão, podem ser levados à Justiça caso a caso. Também negou a retratação pública imediata, por entender que ela anteciparia o julgamento do mérito.
Camasão e Bruno Souza são adversários políticos e disputam uma vaga de deputado estadual na eleição deste ano. Em agosto, os dois já tinham se enfrentado cara a cara num ato em São José, quando o vereador do PSOL tentou arrancar o megafone das mãos de Bruno. O processo segue no Juizado Especial Cível e ainda não há data para o julgamento. O espaço está aberto para a manifestação do vereador Leonel Camasão.















