No dia 30 de abril, o prefeito de Ituporanga, Geison Kurtz, sentou no estúdio da Rádio Sintonia FM ao lado do empresário José Clemir Spinelli para rebater, juntos, as denúncias sobre a 28ª Expofeira Nacional da Cebola. Na despedida, ao vivo, o prefeito parabenizou o contratado e fez um desejo público: “que venha ano que vem, que vença também a licitação e cale a boca de muitos”. Pouco mais de dois meses depois, na manhã desta terça-feira (7), Spinelli acordou preso pela Operação Pão e Circo, apontado pelo GAECO como um dos pivôs do cartel que fraudava licitações de shows em Santa Catarina.
A entrevista é o retrato de como a Prefeitura de Ituporanga se posicionou em cada etapa do caso. O município habilitou a Spinelli Produções e Eventos com base em um atestado que o CREA-SC rejeitou dias depois. Contratou a empresa por R$ 723.430,43. Pagou mesmo depois de a própria Câmara de Vereadores apontar R$ 526.672,23 em estruturas cobradas e não entregues na festa. De todo o rombo calculado pelo Legislativo, descontou exatos R$ 12.027,55, o equivalente a 2,3%. E, no fim, o chefe do Executivo ainda foi ao rádio torcer pela vitória do mesmo empresário na edição de 2027.
Hoje, prefeito e empresário respondem lado a lado na Justiça. Uma ação popular em tramitação na 2ª Vara da Comarca de Ituporanga mira o Município, Geison Kurtz, o secretário de Turismo e Eventos Paulo Roberto Ribeiro, o pregoeiro do certame e a própria Spinelli, acusados de permitir que a empresa vencesse o Pregão Eletrônico nº 40/2025 com um atestado de capacidade técnica supostamente irregular. O processo aguarda parecer do Ministério Público, e a Justiça ainda não decidiu nem o mérito nem o pedido de suspensão do contrato.
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A corrida contra o prazo
O atestado no centro da briga afirma que a Spinelli executou um Plano de Sustentabilidade Ambiental em um evento natalino de Mafra. Segundo a investigação, a comprovação teria sido fabricada em cima da hora: no dia 26 de janeiro de 2026, cerca de quatro horas antes de estourar o prazo de envio de documentos da licitação de Ituporanga, a empresa teria firmado um contrato com efeito retroativo com uma empresa de engenharia para simular um serviço que sequer constava do contrato original de Mafra.


O detalhe que agrava o quadro: a Spinelli não apresentou a certidão em si, e sim o mero protocolo do pedido. Foi com esse papel que a prefeitura considerou a empresa apta e lhe entregou a maior festa da cidade. Em 2 de fevereiro de 2026, quando o CREA-SC de fato analisou a documentação, o conselho indeferiu formalmente o registro da Certidão de Acervo Técnico. A essa altura, o contrato já estava assinado. E de pé permaneceu.

A manobra, se confirmada, não seria inédita no grupo. No processo da Pão e Circo, o Ministério Público lista o reaproveitamento de documentos e as inconsistências temporais em assinaturas digitais como marca registrada do cartel: em Braço do Trombudo, os promotores encontraram um orçamento datado de 30 de junho de 2025 assinado digitalmente em 4 de junho de 2024, mais de um ano antes da data que o papel exibia.

Meio milhão virou R$ 12 mil
A segunda frente do escândalo nasceu dentro da própria festa. No dia 8 de abril, enquanto Gusttavo Lima e Luan Santana se apresentavam no parque, os vereadores Feliciano José Paes e Angela Machado percorreram as estruturas comparando o que o edital exigia com o que estava montado. No item mais emblemático, as treliças de alumínio, o contrato previa 1.400 metros, e a dupla estimou cerca de 800 instalados. Somando tendas, estandes e demais itens, o levantamento chegou a R$ 526.672,23 em estruturas que teriam sido pagas e não entregues.
A resposta da prefeitura foi julgar a si mesma, e o próprio prefeito descreveu o espírito da apuração interna. “Montamos uma comissão com cinco funcionários nossos, efetivos da prefeitura, pra justamente tá defendendo”, disse Kurtz na entrevista à Sintonia FM. Criada pela Portaria 814/2026, a comissão mediu as estruturas e chegou à direção oposta à da Câmara: nas treliças, encontrou 1.389 metros, apenas 11 a menos do que o exigido. Para as tendas e estandes que faltavam, acatou justificativas de “adequação de layout” e de falta de necessidade, apresentadas pela própria Spinelli e pelo secretário Paulo Roberto Ribeiro. O mesmo secretário que responde na ação popular ajudou a justificar as falhas que a comissão perdoou.
No fim da conta, sobraram poucas faltas confirmadas, como barricadas, bilheterias e tendas. Sobre elas, a comissão aplicou um fator redutor proporcional ao desconto de 49,99% que a Spinelli deu no pregão, e a glosa encolheu para R$ 12.027,55. O restante do contrato foi pago, sob o argumento de que a festa foi um sucesso de público e de que a anulação total geraria enriquecimento ilícito do próprio município. Na rádio, Kurtz confirmou a conta e revelou que ela já foi remetida aos promotores: “a diferença total, global, da licitação inteira, do valor total, dá em menos de doze mil reais”, disse, acrescentando que a resposta foi “já feita pro próprio Ministério Público”.

Agora os números terão de aparecer também na Justiça. O juiz da ação popular determinou que o Município informe a situação completa do contrato, incluindo saldos, valores efetivamente pagos e glosas aplicadas. Na defesa, a Procuradoria sustenta que os servidores agiram de boa-fé e que o pregoeiro não tem poder de polícia investigativa para atestar a falsidade de um documento assinado por autoridades de outra cidade.

“Sou docinho, pra mim não existe é não”
A entrevista de 30 de abril ao programa Café com João mostra o tom da administração diante das denúncias. Kurtz atacou a origem do questionamento: “tínhamos dois vereadores fazendo uma denúncia no meio da festa. Já começa a ser errado”. Em seguida, mirou o autor da ação popular: “quem fez a denúncia foi o rapaz que perdeu a licitação”, afirmou, sustentando que a vitória da Spinelli gerou “uma economia pros cofres públicos de mais de trezentos mil reais” e que, por isso, “já cai em descrédito a própria denúncia dele, porque ele é o lesado de ter perdido a licitação”.
Spinelli, sentado ao lado do prefeito, fez sua própria defesa. “Sempre falo que eu sou docinho, porque pra mim não existe é não”, disse o empresário, garantindo ter a “consciência livre de tudo que foi feito”. “Somos de fé pública, jamais vão querer fazer uma coisa errada. Nós entregamos tudo, com certeza”, completou. O secretário Paulo Roberto Ribeiro foi além e apresentou o modelo local como vitrine: segundo ele, Ituporanga “está dando consultoria pra outros municípios de Santa Catarina” sobre como se faz uma festa nesse formato, sem tirar “nenhum real da prefeitura”.
O desfecho do programa coroou o alinhamento. Ao se despedir, o prefeito parabenizou o empresário e desejou que ele voltasse a vencer o certame do ano seguinte para “calar a boca de muitos”, prometendo devolver “a essa torcida contra com trabalho”. Sessenta e oito dias depois, o GAECO bateu na porta de Spinelli em Itapema.

Guerra dentro do cartel
Há ainda uma camada que transforma Ituporanga em um capítulo à parte da Operação Pão e Circo: segundo o Ministério Público, o pódio inteiro do pregão da Festa da Cebola era do cartel. A Spinelli venceu, a E3 Eventos ficou em segundo e a CJR Produções em terceiro, e as três empresas são apontadas pela investigação como integrantes do mesmo grupo criminoso, que simulava concorrência entre si para dominar contratos públicos.
O autor da ação popular contra o contrato é justamente o dono da segunda colocada. Eder Coelho, da E3 Eventos, é apontado pelo MP como integrante do núcleo central do cartel, com o nome incluído na lista de prisões preventivas pedidas pelo GAECO. Para a investigação, a briga judicial de Ituporanga tem contornos de disputa de território entre integrantes do mesmo grupo pelo controle do contrato milionário. Denunciante e denunciado, no fim, sentam à mesma mesa do processo da Pão e Circo.
A ironia se completa na cláusula que originou tudo. A exigência de Plano de Sustentabilidade em editais de festas, aquela que a Spinelli teria driblado com o atestado forjado, é apontada pelo MP como uma criação do próprio cartel: nos autos, os promotores demonstram que a trava nasceu em Porto Belo, em 2022, arquitetada por empresários do grupo com o objetivo confesso de “dar uma travada na licitação” e “segurar um pouco as pessoas”, e depois foi replicada em série em editais de municípios como Apiúna, Ascurra, Doutor Pedrinho e Biguaçu. Entre os criadores da estratégia identificados pela investigação está o próprio Eder Coelho, que agora usa a mesma cláusula na Justiça para tentar derrubar o rival em Ituporanga.
Os vereadores levantaram ainda uma última suspeita: a de que o Plano de Sustentabilidade também não teria sido executado na Festa da Cebola, com a ausência de itens como copos ecológicos e gestão de resíduos. A Spinelli negou e enviou documentos à comissão alegando ter cumprido essa parte do contrato. O ponto segue em aberto.
Entenda o caso
A Operação Pão e Circo foi deflagrada na terça-feira (7) pelo GAECO, com apoio da Polícia Civil, e cumpriu 50 mandados de busca e apreensão em 19 municípios, além da prisão de Spinelli em Itapema, do afastamento do prefeito de Governador Celso Ramos e do bloqueio de cerca de R$ 9 milhões em bens dos investigados. Para o Ministério Público, o caso da Festa da Cebola é a prova de que o esquema não se limitava a manipular licitações: avançava sobre a execução dos contratos, em um cenário que os promotores classificaram como “escárnio com o patrimônio público”. Não há qualquer imputação aos artistas que se apresentaram no evento: as suspeitas recaem sobre a licitação e a execução do contrato, não sobre os shows.
A reportagem tenta contato com a Prefeitura de Ituporanga, com a Spinelli Produções, com Eder Coelho e com as defesas dos citados, e o espaço segue aberto para manifestações.
























