Um bebê de 3 meses morreu na manhã de quinta-feira (7) em Navegantes, no Litoral Norte de Santa Catarina, e o caso segue em investigação pela Polícia Civil. Após serem alvo de acusações nas redes sociais e de ameaças de morte, os pais da criança e uma vizinha gravaram vídeos negando qualquer tipo de violência contra o bebê. A família diz que a criança morreu em decorrência de problemas respiratórios.
O Jornal Razão publicou o caso com base em duas fontes oficiais: a denúncia formal do médico do SAMU, que constatou uma laceração na região anal da criança durante o atendimento de emergência, e o registro da Polícia Militar de Santa Catarina, que acionou a Polícia Civil e conduziu os pais à delegacia. A Polícia Científica descartou preliminarmente indícios de violência sexual e de agressão física, mas o laudo necroscópico definitivo ainda não foi concluído. Paralelamente, a PM encontrou drogas, crack e munição no quarto onde o bebê dormia.
De onde veio a denúncia
A criança chegou à UPA do bairro Meia Praia por volta das 7h15 de quinta-feira, levada por uma vizinha e desacompanhada dos pais. Estava em parada cardiorrespiratória. A equipe médica do posto iniciou a reanimação, que foi assumida em seguida pelo SAMU. Após mais de uma hora de tentativas, o óbito foi confirmado.
ASSISTA AO VÍDEO
Foi o médico do SAMU quem, durante o atendimento, constatou e denunciou à polícia uma laceração na região anal do bebê. O achado, feito por profissional de saúde com obrigação legal de notificar qualquer suspeita de violência contra criança, motivou o acionamento imediato da Polícia Militar e a condução dos pais à delegacia. A suspeita não foi criada pelo Jornal Razão nem pelas redes sociais: partiu do próprio sistema de saúde.
O que a Polícia Científica descartou
Em nota divulgada nesta sexta-feira (8) pela Central de Plantão Policial de Itajaí, a Polícia Civil informou que o exame necroscópico preliminar não identificou indícios de violência sexual nem de agressão física no bebê. O pai, que havia sido conduzido à delegacia na manhã de quinta-feira, foi liberado.
A Polícia Civil ressaltou que, em nenhum momento, veiculou ou confirmou a ocorrência de crime sexual. A autoridade plantonista optou por aguardar o pronunciamento técnico da Polícia Científica antes de qualquer deliberação. A investigação prossegue, e a causa oficial da morte só será definida após o laudo necroscópico definitivo, que ainda não foi concluído.
O que diz a vizinha
Em vídeo enviado ao Jornal Razão, uma vizinha que ajudava a família nos cuidados com o bebê defendeu o casal. Conforme seu relato, ela permaneceu na residência até por volta das 3h da madrugada de quinta-feira, ao lado da sogra da mãe e do pai da criança, fazendo compressas no peito do bebê porque acreditava que ele sentia dor. Quando a criança adormeceu, voltou para casa.
“O pai não pode ter mexido com essa criança porque eu fiquei toda noite com essa criança, eu, ele e a sogra dela. No momento que a gente dormiu, acho que foi que aconteceu o acontecido aí. A lei tem que saber o que realmente aconteceu, mas até aí não pode estar julgando uma pessoa que não sabe o que aconteceu”, afirmou a vizinha.
Por volta das 6h, segundo ela, os pais chegaram à sua residência com a criança sem sinais vitais e com coloração arroxeada. Ela teria tentado manobras de reanimação antes de o bebê ser levado às pressas ao posto de saúde.
O que diz a mãe
Em vídeo gravado durante o velório da criança, a mãe deu sua versão dos fatos. Ela disse que o bebê apresentava problemas respiratórios havia cerca de uma semana, com o “peito estralando” e choro constante, e que a família havia procurado atendimento no hospital de Navegantes e na UPA local sem que fosse identificada gravidade.
Conforme a mãe, ela cuidou do bebê durante toda a madrugada e o colocou no berço por volta das 6h30, quando ele adormeceu. Ao acordar entre 7h15 e 7h20, foi alimentá-lo e o encontrou sem sinais vitais.
“Quando eu botei a mão nele, virei ele, ele já tava roxo, roxo, roxo, gelado. Eu só sei que caí no chão. Gritei pra vizinha, a vizinha pegou ele e fez os procedimentos de primeiros socorros ali”, relatou a mãe.
A mãe denunciou ainda que a família vem recebendo ameaças de morte nas redes sociais e nas proximidades de casa. “A gente tem medo até de sair na rua. Ameaça tem muito, o povo vai me matar. Isso tá ruim pra mim”, afirmou. Ela disse que gravou o vídeo justamente para confrontar as acusações: “O que postaram nas redes sociais é mentira, é uma falta de respeito.”
O que a família não menciona
Os vídeos gravados pela família não fazem referência aos achados da Polícia Militar na residência do casal. Em ocorrência complementar, a PM retornou à casa, no bairro Meia Praia, e fez varredura no imóvel.
No quarto onde o bebê dormia, conforme a corporação, os policiais encontraram quatro cigarros de maconha — sendo dois fumados pela metade —, uma porção sobressalente da mesma droga, uma pedra de crack, uma munição calibre .380 percutida e não deflagrada, uma faca supostamente utilizada para cortar a droga e uma garrafa pet adaptada para uso de entorpecentes. Todo o material estava agrupado em um prato de cozinha.
Na cozinha, a equipe constatou que não havia alimento suficiente para manter o bebê, e o pouco encontrado estava em latas com mofo.
As passagens dos pais
Os vídeos também não mencionam o histórico criminal do casal. Conforme apurado pela polícia, o pai da criança, de 21 anos, natural do Maranhão, tem diversas passagens policiais por crimes como ameaça, posse de arma branca, desacato, desobediência, lesão corporal, dano, posse de drogas, sequestro e cárcere privado.
A mãe, de 24 anos, natural de Santa Catarina, possui passagens por tráfico de drogas, associação para o tráfico, tentativa de furto, ameaça, abandono de incapaz e lesão corporal.
Conforme apurado pela polícia, o casal era acompanhado pelo Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) em razão de histórico de desentendimentos. A mãe informou à polícia que o casal tem outros dois filhos, que não residem com eles e estão sob os cuidados dos avós. Funcionários da unidade de saúde relataram à PM que o pai seria usuário de drogas.
O que falta para o caso ser resolvido
A apuração segue sob responsabilidade da Polícia Civil de Santa Catarina. O laudo necroscópico definitivo da Polícia Científica deve ser concluído nos próximos dias e apontará a causa exata da morte do bebê. Independentemente do resultado, o caso envolve também a apuração dos crimes de tráfico de drogas e de posse de munição constatados na residência.
O Jornal Razão acompanha o caso desde a manhã de quinta-feira (7), publicou a denúncia feita pelo médico do SAMU, o registro da PMSC, a nota oficial de descarte da Polícia Civil e todas as versões apresentadas pela família. Leia a primeira matéria sobre o caso.






















