Na quinta-feira, Abdul Manaf Inusah repetiu o gesto que sustentava três pessoas do outro lado do oceano: enviou dinheiro à mulher, ao filho e à mãe, que vivem em Gana. Horas depois, na madrugada de sexta-feira, o coletor de lixo de 26 anos morreu atropelado por uma caminhonete enquanto trabalhava na rua Vitória, no Centro de Içara, no Sul de Santa Catarina. Foi o último envio que a família recebeu dele.
Inusah deixou o país de origem para trabalhar no Brasil e era o responsável pelo sustento dos parentes em Gana. A remessa feita um dia antes do acidente virou, para a família, o retrato de quem ele era: um trabalhador que passava as madrugadas na coleta de lixo para garantir a vida de quem ficou.
Sulaima Mustafha, familiar da vítima, contou que a família ainda tenta entender a perda repentina.
“O rapaz estava trabalhando, meu parente estava trabalhando de madrugada. Nosso coração está muito partido. Só Deus sabe o que nós estamos passando agora”, afirmou.
Enquanto vive o luto, a família acompanha os desdobramentos do caso na Justiça. O empresário de 45 anos que dirigia a caminhonete envolvida no atropelamento, preso em flagrante logo após o acidente, recebeu liberdade provisória depois de passar por audiência de custódia. Conforme o Tribunal de Justiça de Santa Catarina, a Vara de Garantias da comarca de Criciúma concedeu o alvará de soltura mediante o pagamento de fiança de dez salários mínimos, o equivalente a R$ 16,2 mil.
A liberdade veio acompanhada de medidas cautelares. O motorista teve o direito de dirigir suspenso por seis meses e está proibido de obter permissão ou habilitação nesse período. Ele também deverá comparecer a todos os atos do processo, manter endereço e telefone atualizados e não poderá deixar a comarca onde mora por mais de oito dias sem autorização da Justiça.
A soltura chegou ao conhecimento da família, que afirma respeitar as leis brasileiras, mas cobra que o caso não termine na fiança.
“Nós não queremos nada. Nós queremos o direito, o direito dele. Se fosse um colega do Brasil aqui, o direito vai tratar ele. Nós queremos tratar o Manaf do mesmo jeito”, disse Sulaima.
O familiar resumiu o temor de que a liberdade provisória represente o fim da apuração. “Nós acabamos sabendo que o motorista foi liberado, ele pagou a fiança. Eu estou rezando para não ser o final do que aconteceu”, declarou.
Entenda o caso
Inusah recolhia o lixo na rua Vitória, em Içara, quando foi atingido pela caminhonete na madrugada de sexta-feira. Conforme o Corpo de Bombeiros Militar, o trabalhador foi encontrado inconsciente sobre a via, com pulso fraco e um ferimento exposto com hemorragia na perna direita. Ele foi levado por uma equipe do Samu ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos.
Segundo a Polícia Militar, o motorista apresentava sinais visíveis de embriaguez e admitiu aos policiais ter consumido bebida alcoólica antes de assumir a direção. Ainda conforme a corporação, não foram encontrados indícios de frenagem ou tentativa de desvio antes da colisão. Ele foi preso por embriaguez ao volante e homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e conduzido à delegacia.
A Racli, empresa onde Inusah trabalhava, lamentou a morte do funcionário e prestou solidariedade aos familiares, amigos e colegas de trabalho. O caso segue em apuração pela Polícia Civil.






















