Logo Jornal Razão
Publicidade

EXCLUSIVO: mulher que fingia ser criança enganou projeto social seis anos antes, em Belo Horizonte

Fundadora do Projeto ComPaixão, em Belo Horizonte, reconheceu a estelionatária presa em Joinville e revela que, já em 2019, a mulher se passava por uma criança vítima de exploração sexual para ser acolhida. Um exame chegou a apontar mais de 200 agulhas no corpo dela.

EXCLUSIVO: mulher que fingia ser criança enganou projeto social seis anos antes, em Belo Horizonte
Foto: Reprodução
Publicidade

O golpe da mulher que se passava por criança é bem mais antigo do que se imaginava. Antes de enganar um casal em Joinville e de chocar o Rio de Janeiro em 2023, ela já aplicava o mesmo tipo de farsa em Belo Horizonte, em 2019, usando o nome de “Carol”. Quem a reconheceu foi a gestora de um projeto social que a acolheu na época.

Delma Soares de Souza é fundadora e diretora do Projeto ComPaixão, que há mais de 20 anos atende profissionais do sexo, incluindo mulheres, pessoas trans e travestis, na região central de Belo Horizonte. O projeto mantém uma rede de assistência, com encaminhamento a psicólogos, cursos profissionalizantes e inserção no mercado de trabalho. Foi durante uma palestra em uma igreja que Delma recebeu o primeiro contato da mulher, que se apresentou ao projeto como Carol.

Publicidade

O primeiro contato

Conforme Delma, uma voluntária apresentava o projeto na igreja quando Carol assistiu à palestra e pegou um cartão com o telefone da diretora. Naquela mesma noite, Delma recebeu uma mensagem de WhatsApp, perguntando se era ela quem ajudava mulheres vítimas de prostituição e abuso sexual. A mensagem dizia ser de uma adolescente de apenas 12 anos.

Desconfiada, Delma marcou um encontro em uma igreja e, por precaução, acionou uma delegada parceira da Delegacia da Infância e Juventude. As duas até achavam que ninguém apareceria, mas Carol chegou. Tinha aparência de adolescente, usava mochila e chinelo infantis e se comportava como uma criança. Apesar dos mais de 30 anos de experiência da diretora, que atua inclusive dentro de presídios, a farsa convencia, pela voz e pelos modos.

Uma história diferente da contada em SC

Publicidade

A versão que Carol apresentou em Belo Horizonte era diferente da que usaria depois em Santa Catarina. Em SC, ela se dizia autista. Em BH, contava que havia sido vendida pelos pais a uma rede de prostituição, que sofria abusos e que, no início, só conseguia se comunicar por desenhos. Em um deles, retratou a suposta execução da própria mãe. A diretora guarda até hoje esse material.

Carol foi levada à casa de acolhimento do projeto, onde ficou cerca de um ano e meio, e seguiu sendo acompanhada por mais dois anos, passando por outros abrigos da cidade. Segundo Delma, a mulher tinha um padrão claro: procurava sempre pessoas ligadas a igrejas, por serem mais dispostas a ajudar, e repetia em cada casa a mesma história.

A máscara que caiu

A virada veio no fim de um ano, quando as crianças e os adolescentes acolhidos iam passar o Natal com famílias voluntárias. Sem querer deixá-la sozinha, Delma levou Carol para a própria casa, onde a família chegou a fazer uma festa com tema da Minnie, personagem de que ela dizia gostar. Pouco depois, com um irmão gravemente doente, a diretora precisou viajar e avisou que teria de devolver Carol ao abrigo.

Publicidade

A reação mudou tudo. Conforme Delma, a mulher destruiu parte da casa, quebrou móveis e o portão e passou a agir de forma agressiva, incompatível com uma criança.

“É como se ela tivesse saído daquele corpo, daquela fantasia, daquela máscara que ela vestia, e voltado para o estado dela”, relata a diretora.

Quando foi confrontada, ainda segundo Delma, Carol desmaiou e, em seguida, voltou a se comportar como criança. Um policial que atendeu à ocorrência chegou a acreditar mais na versão dela do que na da própria diretora.

As mais de 200 agulhas

Foi a partir desse episódio que Delma começou a juntar as peças e a pesquisar na internet. Mais tarde, um oficial de justiça enviou a ela um documento mostrando que, em outro estado, já havia sido constatado que a “adolescente” era, na verdade, uma mulher adulta.
A diretora conta que a aparência dificultava a percepção da idade, porque o corpo da mulher tinha muitas feridas. Em uma internação em um hospital de Belo Horizonte, enquanto a paciente dormia, foi possível fazer um raio X. O exame, segundo Delma, revelou mais de 200 agulhas espalhadas pelo corpo, em braços, pernas e outras regiões.

“Não deixem de ajudar”

Para Delma, o caso é, antes de tudo, um problema grave de saúde mental que nunca foi tratado. Ela afirma que a mulher tinha família e que, se tivesse recebido acompanhamento no passado, talvez não tivesse chegado a esse ponto. A diretora faz questão de defender que o episódio não afaste as pessoas do trabalho social.
“Não deixem que a Carol ou a Amanda seja o motivo de não ajudar mais o próximo”, diz.
Ela lembra ainda que, por anos, a mulher não foi presa porque não havia crime comprovado: mesmo morando nas casas que a acolhiam, não chegava a furtar dinheiro ou bens, concentrando o golpe em se passar por uma criança vulnerável.

O desfecho em Joinville

A situação mudou agora em Santa Catarina. Identificada como Amanda Maria Souza de Oliveira, a mulher de 37 anos foi presa em flagrante nesta terça-feira (2) depois de viver mais de um ano na casa de um casal em Joinville como se fosse uma criança de 12 anos. Ela confessou os crimes, está no Presídio Regional de Joinville e responde por estelionato e falsa identidade.

Receba as notícias no WhatsAppEntrar
Publicidade
Publicidade
Grupo de WhatsApp · Tempo real

Santa Catarina no seu WhatsApp

Entre no grupo oficial do Jornal Razão. As principais manchetes do dia, direto no seu aparelho. Sem spam.

Entrar no grupo
+48 mil catarinenses já acompanham