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“Agora eu te achei”: os bastidores da execução de garota de 17 anos por facção em Santa Catarina

Segundo apurou o Jornal Razão com exclusividade, uma ligação de vídeo com liderança da facção “Os Manos” selou a morte da jovem, e os criminosos voltaram à cova com soda cáustica para ocultar o corpo.

“Agora eu te achei”: os bastidores da execução de garota de 17 anos por facção em Santa Catarina
Foto: Reprodução
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A batida na porta veio na hora exata em que a família esperava a carona da salvação. Do lado de fora, no bairro Kasper, em Maravilha, no Oeste de Santa Catarina, um motorista contratado pelos parentes aguardava para levar a adolescente de 17 anos a um município vizinho, onde ela recomeçaria a vida na casa do pai, longe das ameaças que vinha sofrendo. Mas quem bateu primeiro não foi a carona. Quando a avó abriu a porta, na noite de sábado (4), encontrou um revólver apontado para a própria cabeça.

O Jornal Razão teve acesso exclusivo aos bastidores da investigação que desvendou o sequestro e a execução da jovem, morta a tiros por integrantes da facção autodenominada “Os Manos” e enterrada em uma cova rasa na zona rural de Nova Erechim. As informações, confirmadas por diferentes fontes ligadas ao caso, revelam uma videochamada que funcionou como tribunal do crime, o retorno dos assassinos à cova com soda cáustica e o detalhe quase invisível em uma câmera de segurança que derrubou o grupo. Três homens estão presos: Cézar Augusto Rodrigues Vaz, de 20 anos, conhecido como “Mexicano”, apontado como mandante e ex-namorado da vítima; Saymon Araújo Cunha, de 28; e Dionatan Luan dos Santos Barcarolo, de 25.

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A noite do arrebatamento

Dois homens encapuzados, altos, magros e de luvas invadiram a casa aos gritos, segundo uma fonte que acompanha a investigação. Um deles manteve a idosa sob a mira da arma na sala, com ordem para não se mexer, enquanto o outro vasculhava os cômodos até encontrar a adolescente escondida no banheiro. “Agora eu te achei, agora vai pagar o que você deve”, teria dito o criminoso, de acordo com o relato.

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A jovem foi agredida, arrastada pelos cabelos para fora de casa e jogada dentro de um carro prata estacionado em frente, que saiu em direção ao interior do bairro. Antes de fugir, os criminosos ainda levaram o celular da avó, um cálculo frio para retardar o acionamento da polícia. O motorista contratado pela família, que aguardava a passageira do lado de fora, só soube do sequestro por pessoas que passavam pelo local.

A dívida e o plano de fuga

A adolescente tentava sair do crime, e a facção sabia. Segundo o que o Jornal Razão apurou, ela acumulava uma dívida de cerca de R$ 3 mil com o grupo, atribuída ao sumiço de “mercadorias”, e vinha sendo ameaçada havia meses. No ano passado, já teria sido mantida em cárcere privado por quatro dias em um apartamento de Maravilha por causa de outra cobrança. Para libertá-la naquela ocasião, a família chegou a pagar entre R$ 1,6 mil e R$ 1,8 mil, entregues a duas mulheres, relatou uma fonte próxima ao caso.

Outra fonte ouvida pela reportagem contou que a jovem chegou a ser levada a municípios do Rio Grande do Sul para acompanhar cobranças do tráfico e que, em uma delas, presenciou um homem ser espancado por uma dívida de R$ 10 ou R$ 20. Teria sido depois desse episódio que ela decidiu romper de vez com o grupo, e com o namorado.

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O relacionamento com Cézar Vaz, apontado como liderança local da facção, teria durado cerca de um ano e foi marcado por ameaças e agressões. O namoro acabou cerca de um mês antes do crime, quando o pai foi buscá-la na casa em que os dois viviam. Quinze dias antes do sequestro, o suspeito teria circulado armado por um município vizinho à procura da ex-namorada. A mudança da adolescente para a casa do pai chegou a ser marcada para uma quinta-feira, mas acabou adiada. O novo plano era sábado à noite. A facção chegou primeiro.

“Ela tinha muito medo de ficar na rua. Acreditava que alguém poderia pegá-la a qualquer momento”, contou uma pessoa do convívio da jovem.

O tribunal do crime

A logística da execução começou com um carro sequestrado junto com o próprio condutor. Uma mulher, apontada pela investigação como intermediária do grupo, atraiu o motorista a um ponto de encontro na noite de sábado. Ali, embarcaram três homens fortemente armados com pistolas, que já carregavam uma pá e uma enxada. Coagido sob a ordem de “ficar quietinho”, o motorista do carro sequestrado foi obrigado a dirigir até a casa da vítima e, depois do arrebatamento, a cortar o bairro por rotas alternativas para evitar as vias principais.

No trajeto em direção à zona rural de Nova Erechim, os criminosos fizeram uma videochamada com um homem tratado pelo grupo como “Velho”, apontado como liderança da facção. Foi nessa ligação, segundo uma fonte com conhecimento do caso, que a motivação ficou explícita: a cobrança da dívida e a retaliação pelo fato de a adolescente ter ido a uma festa de uma facção rival e publicado um vídeo do evento nas redes sociais. A sentença de morte foi selada ali, em tempo real, com a vítima dentro do carro.

Mais de dez disparos

Em uma estrada de chão isolada, os três desembarcaram com a jovem e ordenaram que o motorista esperasse. À distância, ele viu apenas os reflexos de luzes de celular e ouviu barulho de água. Na sequência, mais de dez disparos. De volta ao carro, os criminosos justificaram que a ação seria apenas um “susto”, mas que “evoluiu” para os tiros. No retorno a Maravilha, o motorista ouviu ameaças diretas contra a própria família caso abrisse a boca.

A volta com soda cáustica

Na segunda-feira (6), a mesma intermediária voltou a atrair o motorista, e o grupo embarcou outra vez no mesmo carro sequestrado, agora com ferramentas de escavação e um pote branco contendo substância semelhante a soda cáustica. No caminho, os criminosos confidenciaram ao motorista que precisavam “refazer o serviço”, que teria sido “mal feito”. No local do descarte, aprofundaram a cova, despejaram o produto químico para acelerar a decomposição do corpo e camuflaram o ponto com capim e folhas cortadas.

Enquanto isso, a execução já circulava como recado nas ruas. Um dia depois do crime, um homem teria sido ouvido em um estabelecimento da cidade comentando que “tinham pegado a filha” de uma mulher e que ela “havia sido avisada várias vezes e continuava fazendo coisas erradas, então o problema era dela”, relatou uma fonte à reportagem.

O detalhe que derrubou o grupo

A queda do grupo começou pela geografia. A casa da avó fica exatamente entre dois pontos de monitoramento por vídeo, um empresarial e outro residencial, instalados em extremidades opostas da rua, um cercamento eletrônico involuntário que registraria qualquer veículo entrando ou saindo do perímetro. As imagens mostraram o carro prata subindo a via pouco antes do crime e desaparecendo por cerca de quatro minutos no ponto cego entre as câmeras, tempo exato da invasão e do arrebatamento.

Foi no registro do retorno, com o carro em alta velocidade, que um detalhe mudou o rumo da investigação. A partir das imagens, o cruzamento de informações com a Polícia Militar de Maravilha levou à identificação do veículo e, na sequência, do motorista do carro sequestrado. Ele procurou os investigadores voluntariamente na terça-feira (7) e, sob pavor de retaliações contra a família, detalhou toda a dinâmica do crime e indicou o local exato onde o corpo estava.

O corpo na clareira

Guiados pelo relato, policiais civis avançaram em linha por uma área de mata fechada na zona rural de Nova Erechim, nas proximidades do Rio Chapecó. Uma clareira destoava da vegetação ao redor. No centro, uma porção expressiva de terra remexida. Nos caules das árvores que contornavam o espaço, marcas de mãos sujas de terra, deixadas por quem buscou apoio durante a escavação. Pouco mais de um minuto de remoção do solo bastou para expor os pés da vítima.

A equipe interrompeu a escavação imediatamente para preservar os vestígios e acionou a Polícia Científica, que fez a remoção do corpo com apoio do Corpo de Bombeiros Militar. Mesmo em análise preliminar, foram identificadas diversas perfurações compatíveis com disparos de arma de fogo no tórax e no rosto da adolescente, como o Jornal Razão mostrou na cobertura da localização do corpo.

Da fuga ao ônibus no Mato Grosso

Cézar Vaz e Dionatan Barcarolo foram presos em flagrante logo após a localização do corpo. Como a ocultação de cadáver é crime permanente, a situação de flagrância se estende enquanto o cadáver não é descoberto, o que sustentou juridicamente as prisões. Saymon Cunha, apontado como o homem que invadiu a casa com o rosto coberto e arrastou a adolescente, fugiu. Ele acabou capturado escondido dentro de um ônibus interestadual em Confresa, no interior do Mato Grosso, quando tentava se distanciar de Santa Catarina.

Na quarta-feira (8), em audiência de custódia na Vara Regional de Garantias de São Miguel do Oeste, a Justiça homologou os flagrantes de Cézar Vaz e Dionatan Barcarolo e converteu as prisões em preventivas, além de decretar a prisão preventiva de Saymon Cunha, então foragido. O Ministério Público pediu as três prisões. As defesas não se opuseram à homologação dos flagrantes e pediram liberdade provisória com medidas cautelares, o que foi negado.

Na decisão, a Justiça destacou a gravidade concreta da conduta, com a vítima alvejada por cerca de dez disparos nas regiões do peito e da cabeça, e o risco à apuração, já que a testemunha-chave sofreu ameaças direcionadas a familiares. Soltos, registrou a decisão, “os investigados poderiam perseguir testemunhas diante da periculosidade demonstrada”. Pesou ainda o vínculo do grupo com organização criminosa: Dionatan Barcarolo responde a sete ações penais em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, a maioria por tráfico de drogas, além de receptação e associação criminosa. Cézar Vaz, tecnicamente primário, já foi investigado por crime previsto no Estatuto do Desarmamento.

Os elos que faltam

A investigação atribui papéis definidos a cada um dos presos. Cézar Vaz teria atuado como mandante e coordenador tático, presente do planejamento à execução. Saymon Cunha estaria na linha de frente, responsável por render a avó e arrastar a adolescente até o carro. Dionatan Barcarolo teria agido como contenção e escolta armada nas duas idas ao local do descarte. Os três devem responder por sequestro, homicídio duplamente qualificado e ocultação de cadáver.

Seguem sob apuração a identidade de um quarto envolvido, que teria dado suporte por telefone durante o trajeto, da mulher que atuou como intermediária do grupo e do “Velho”, que participou da videochamada. A Delegacia de Investigações Criminais de Maravilha mantém diligências de campo e de inteligência para fechar o cerco sobre os demais integrantes da facção. Os três presos permanecem à disposição da Justiça.

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