O sinal do cruzamento em frente à Praça Governador Celso Ramos já tinha fechado quando o Peugeot 3008 preto cruzou a Avenida Beira-Mar Norte sem reduzir. A motocicleta que fazia a travessia foi atingida em cheio, e o mototaxista e a passageira que ele levava foram arremessados na pista, diante de dezenas de pessoas que caminhavam pela avenida na noite deste domingo (26), na Agronômica, em Florianópolis. Segundos depois, o motorista abriu a porta, olhou a cena e foi embora a pé.
Ao volante do carro estava Wagner Rodrigues Trindade, cabeleireiro conhecido no circuito de beleza da capital catarinense, dono de um espaço que leva o próprio nome e com presença ativa nas redes sociais, onde acumula milhares de seguidores e divulga trabalhos e parcerias com marcas do setor. Ele deixou o local sem prestar socorro às vítimas e sem se identificar às equipes de resgate.
A passageira da motocicleta, uma mulher de 32 anos, morreu ainda no local. Ela era mãe solo de um menino de cerca de um ano e oito meses e voltava do trabalho quando foi atingida. Os dois não se conheciam: ela havia chamado uma corrida de mototáxi para ir para casa depois do expediente. O condutor da moto, que trabalhava como mototaxista naquele horário, foi socorrido em estado grave, com suspeita de lesão na coluna cervical e fratura em uma das pernas, e encaminhado ao hospital.
O sinal vermelho
A dinâmica do sinistro é contada de forma semelhante por quem estava na avenida e por quem estava dentro do próprio carro. Um motorista que trafegava logo atrás do Peugeot afirmou que o veículo avançou o sinal vermelho e estimou que ele seguia a cerca de 70 km/h no momento em que entrou no cruzamento. Uma moradora que passeava com o cachorro na calçada relatou ter visto o carro furar o vermelho e, em seguida, duas pessoas sendo arremessadas com o impacto.
Dentro do automóvel, a versão é parecida. Um dos passageiros contou que o condutor acreditou que conseguiria concluir a travessia durante a mudança da sinalização, mas que o sinal ficou vermelho antes de o carro terminar de cruzar a via. Outros dois ocupantes afirmaram que o semáforo estava amarelo e que ele acelerou para tentar passar. Nenhuma das versões, nem as mais favoráveis ao motorista, sustenta que o cruzamento tenha sido feito com o sinal verde.
A motocicleta seguia no sentido oposto e ingressava na via transversal quando foi atingida. O carro seguia no sentido bairro. O impacto foi frontal, em plena área de travessia.
A versão de quem estava com ele
Sobre a fuga, familiares e amigos que estavam no carro apresentam a mesma explicação. Segundo eles, Wagner não teria abandonado o local por má-fé, e sim porque ficou nervoso e assustado com a movimentação que se formou logo após a colisão. Um dos ocupantes relatou que diversas pessoas e motociclistas começaram a se aproximar do veículo e que, com medo do que poderia acontecer, o condutor decidiu sair dali.
Uma parente que estava no carro repetiu a mesma justificativa, afirmando que ele saiu por estar nervoso. O grupo havia acabado de deixar um show em uma praça da capital e seguia para outra região da Ilha quando o sinistro aconteceu.
Os ocupantes também negam que o cabeleireiro estivesse embriagado. Um deles afirmou não ter visto Wagner ingerir bebida alcoólica em nenhum momento da noite e disse que as bebidas que estavam dentro do veículo pertenciam ao restante do grupo. Como o condutor deixou o local antes da chegada das equipes, não houve teste de alcoolemia no momento da ocorrência, e a hipótese de embriaguez não foi confirmada nem descartada pelas autoridades.
Um cruzamento sob reclamação
O ponto onde tudo aconteceu é um dos mais movimentados de Florianópolis e vem sendo alvo de queixas de moradores. Pedestres que utilizam a travessia diariamente relatam episódios frequentes de veículos avançando o sinal vermelho mesmo com a faixa aberta para quem atravessa a pé, inclusive em horários de grande fluxo. Outro morador afirmou que o mesmo carro havia passado por ele minutos antes da colisão, em velocidade elevada e trocando de faixa.
O atendimento às vítimas foi feito por equipes do Corpo de Bombeiros Militar e do SAMU. Diante da confirmação do óbito, a área foi isolada e preservada, e a Polícia Científica realizou os levantamentos no local. A Polícia Civil também esteve no cruzamento e adotou as providências relativas às suas atribuições.
O que vem agora
O caso foi encaminhado à autoridade policial sob a apuração de três condutas: homicídio culposo na direção de veículo automotor, lesão corporal culposa na direção de veículo automotor e omissão de socorro. A definição jurídica final depende do resultado da investigação e da perícia.
Até a publicação desta reportagem, não havia informação sobre prisão, apresentação espontânea ou indiciamento do condutor. O Jornal Razão tentou contato com Wagner Rodrigues Trindade, sem sucesso, e o espaço segue aberto para a sua manifestação e a de sua defesa.
A investigação segue em andamento.
























