Um vídeo publicado pelo ex-deputado estadual Bruno Souza reacendeu a polêmica em torno da derrubada de árvores exóticas registrada no Parque Estadual do Rio Vermelho, no norte de Florianópolis, e trouxe à tona uma acusação grave feita por uma das lideranças do grupo à frente da intervenção na área. Segundo Souza, depois de expor a retirada da vegetação no coração da capital, ele teve acesso a áudios em que a líder do grupo afirma que os catarinenses são nazistas, que Santa Catarina é “um estado muito racista” e que o governador Jorginho Mello é “totalmente autoritário e nazista”.
Nas gravações, a interlocutora orienta os integrantes do grupo a não atacarem o vereador Bericó (PL-SC), um dos principais críticos ao projeto, pelas redes sociais, sob o argumento de que o grupo adversário “rastreia perfis, localiza parentes pelo sobrenome” e passa a importunar familiares. É nesse trecho que ela chama os opositores de “um grupo de nazistas”. Em seguida, amplia a acusação para o estado inteiro: “aqui é um estado muito racista aqui, tem muitos nazistas”. E emenda, citando o governador: “nós estamos vivendo uma época de um governo, de um governador totalmente autoritário e nazista”.
Procurada, não rebateu
O Jornal Razão entrou em contato com a líder do grupo. Inicialmente, ela exigiu saber quem havia enviado os áudios à reportagem. O Jornal Razão respondeu que a imprensa tem o direito de preservar a fonte de informação, garantia assegurada pela Constituição Federal. Diante da resposta, ela afirmou que acionaria a Polícia Federal para exigir a identificação de quem forneceu o material e, na sequência, disse que recorreria à Defensoria Pública, alegando pertencer a um grupo com proteção especial garantida pela legislação.
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Ela questionou ainda a autenticidade das gravações, sugerindo que poderiam ter sido produzidas por inteligência artificial, “porque hoje em dia é muito fácil fazer com IA”. Ao final, afirmou que não se rende a “intimidações e chantagens”. A líder não apresentou seu contraponto sobre o conteúdo das falas nem quis se manifestar sobre o mérito das declarações atribuídas a ela.
30 famílias, quase 10 km²
O grupo é formado por cerca de 30 famílias que se declaram quilombolas, descendentes de escravos libertos em Florianópolis no fim do século XIX, e que tiveram reconhecida uma área de quase 10 quilômetros quadrados no norte da Ilha. Para se ter ideia da dimensão, os 961 hectares reconhecidos equivalem a aproximadamente 961 campos de futebol, destinados a essas 30 famílias, dentro de uma unidade de conservação no coração da capital.
O contexto das cotas
A referência ao governador tem um contexto. Jorginho Mello sancionou a Lei estadual 19.722/2026, que proibiu cotas raciais em instituições estaduais de Santa Catarina. Em abril, o Supremo Tribunal Federal considerou a norma inconstitucional. A existência da lei e a decisão do STF são fatos; o enquadramento do governador como “nazista”, porém, é unicamente opinião da líder. Nos mesmos áudios, ela afirma ainda que candidatos de cotas teriam sido prejudicados em um concurso, mas não apresenta nomes, números ou processos que permitam medir esse prejuízo.
“Guerra” e crise interna
Em outra gravação, a liderança prevê que o grupo enfrentará uma “guerra muito difícil”, em sentido político, judicial e social, e afirma que os catarinenses não aceitam o reconhecimento das terras “de jeito nenhum”. É nesse ponto que ela expõe uma crise interna diretamente ligada ao dinheiro: acusa o tesoureiro da associação de irresponsabilidade por ter mostrado a outras pessoas o contrato do projeto e revelado quanto cada uma das famílias estaria recebendo com a operação. A acusação não é de desvio, mas de exposição desses valores.
O pano de fundo dessa preocupação é o volume de recursos envolvido. Segundo informações extraoficiais, apenas a autorização para a retirada do pinus já envolveria uma cifra milionária, além do valor pago pela quantidade de madeira efetivamente extraída. Na prática, depois de assegurarem o reconhecimento do território, as famílias passaram a obter ganhos expressivos com a exploração da madeira da área, e é essa exposição, a de que estariam “cheios de dinheiro”, que ela teme. Nos áudios, a líder afirma que mostrar contratos e pagamentos poderia transformar moradores e seus filhos em alvos de sequestro. Trata-se de um temor levantado por ela própria, sem citação de suspeitos, mensagens ou plano concreto.
Um terceiro áudio conecta a hostilidade à retirada de madeira. A liderança repete que ninguém deve atacar o vereador Bericó nas redes usando seus próprios perfis, e afirma: “isso aí é por causa da madeira, eles estão putos”. A tensão está ligada à intervenção na vegetação do parque e à destinação econômica da madeira extraída, tema que também aparece nas menções a “recurso” e “contrato”.
Uma disputa de anos
O reconhecimento do território se arrasta há anos. A comunidade foi certificada pela Fundação Cultural Palmares e teve a área reconhecida pelo Incra em 2022, após estudos históricos e antropológicos. A área tem 961,2893 hectares, o equivalente a 9,61 km², mas o reconhecimento é territorial e coletivo, e a titulação definitiva segue em discussão judicial. Em 2024, o grupo recebeu autorização de uso sustentável sobre 170,5 hectares da União, para moradia e usos tradicionais. Em janeiro de 2026, o TRF4 suspendeu a ordem que exigia a conclusão da titulação total em 90 dias.
O embate sobre a madeira
A retirada de pinus é o centro do embate ambiental. A associação afirma executar um projeto de erradicação do pinus, espécie exótica invasora, para recuperar a Mata Atlântica, com horizonte de cinco anos e seguindo normas do IMA, do Ibama e do Conama. O próprio IMA já planejava a retirada de pinus e eucaliptos do parque, conforme documento do MPF, e a área reconhecida ocupa cerca de 63% da unidade de conservação. O Estado, no entanto, alegou que os trabalhos teriam ultrapassado a remoção do pinus, atingindo vegetação nativa e abrindo vias, e questionou a situação do plano de recuperação. A associação nega e diz que se trata de restauração ambiental.
Circula ainda nas redes que a comercialização dessa madeira estaria rendendo valores expressivos ao grupo. Não há, porém, divulgação pública de quem seriam os compradores nem do valor pago, informações que não foram tornadas públicas. O que se sabe é que a intervenção foi autorizada para a remoção do pinus, reconhecidamente uma espécie invasora, e que os questionamentos sobre a destinação econômica do material extraído seguem em aberto.
Em junho de 2026, o TRF4 manteve suspensos o embargo e a multa, permitindo a continuidade apenas da retirada de espécies invasoras e da recuperação ambiental. O mérito ainda não foi julgado em definitivo.

























