A terra é nossa, e quem quiser entrar precisa pedir autorização. É esse o recado da cacique presidente da Terra Indígena Laklãnõ/Xokleng, Fabiana, ao governador Jorginho Mello (PL), depois da visita às obras da Barragem Norte, em José Boiteux, que terminou em bate-boca e palavrão contra mulheres indígenas. Segundo a liderança, nem a comunidade nem a Funai foram comunicadas de que o governador entraria no território.
“Não foi comunicado a liderança, não foi comunicado a Funai dessa vinda do governador aqui”, afirma a cacique presidente. Foi ao encontrar o governador dentro do território, diz ela, que a comunidade fez um manifesto, indignada com as obras inacabadas. O protesto descambou quando Jorginho Mello respondeu a uma manifestante com a frase “a senhora não quer ir à merda?” e repetiu a ofensa em seguida. “Houve uma situação que nos deixou muito indignada, que foi as palavras de baixo calão que foi usada pelo governador contra nós, mulheres indígenas. Isso é inaceitável, isso nós não vamos aceitar”, declara.
Para a liderança, a ofensa violou a integridade das mulheres indígenas e atingiu também quem tentava conversar. “A nossa integridade foi violada diante dessas palavras que o governador deferiu para nós, mulheres indígenas, contra também uma liderança que estava ali tentando dialogar com ele e ele não aceitou. São coisas desse tipo que acontecem aqui e a mídia muitas vezes não fala”, afirma.
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“Culpa do próprio governo”
A cacique presidente também rebate a acusação de que a comunidade teria depredado a barragem. “Essa barragem está há mais de 20 anos sem reforma. Então, por que hoje o governador vem nos acusar de ter depredado essa barragem? Isso não é culpa da comunidade indígena, isso é culpa do próprio governo, que só agora lembrou que tem uma barragem para reformar”, dispara.
Segundo ela, havia inclusive um acordo recente sobre o alcance da intervenção na estrutura. No ano passado, afirma, o governador acertou com as lideranças apenas a limpeza das tulipas da barragem. “E hoje nós vemos aqui que não está sendo só limpada as tulipas, estão já começando a querer construir, arrumar essa barragem”, relata. A cobrança maior, porém, é mais antiga: o cumprimento do acordo firmado em 2015, que previa contrapartidas à comunidade e que, segundo as lideranças, não saiu do papel.
Casas onde “não cabe uma família”
A dívida com as famílias vem de ainda mais longe. A cacique presidente cita um documento de 1993, da época em que a barragem foi erguida, que obrigaria o governo a construir casas para a comunidade enquanto a estrutura existir, com 90 metros quadrados. Na aldeia Coplanca, diz ela, estão saindo cinco casas do programa Casa Catarina, além de uma igreja, mas o tamanho não corresponde ao acordado. “Hoje você entra dentro daquela casa, uma casa, olha, para uma família não cabe ali dentro”, afirma.
O recado final é direto. “Querem vir? Venham, mas peçam autorização, porque aqui nós temos leis, nós temos a nossa identidade. Nós não vamos permitir que alguém venha e faça o que quer dentro do nosso território”, declara a cacique presidente, que promete seguir mobilizada para que “essa situação de desrespeito não aconteça mais dentro do território indígena”.
A Barragem Norte é a maior estrutura de contenção de cheias de Santa Catarina e foi construída dentro do território Xokleng.
























