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Coach de Balneário Camboriú vira alvo de ação de R$ 300 mil do MP por dizer que “pobre não devia votar”

Léo Marcondes, influenciador e "treinador financeiro" com base em Balneário Camboriú, é réu em ação civil do MP-SP que classifica falas contra o voto dos pobres como aporofobia. Ele diz que não foi notificado e chama as acusações de "injustas".

Coach de Balneário Camboriú vira alvo de ação de R$ 300 mil do MP por dizer que “pobre não devia votar”
Foto: Reprodução
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“Você já parou pra pensar que pobre não devia ter direito de votar?” A frase, dita olhando para a câmera por um influenciador que soma mais de 1,3 milhão de seguidores no Instagram, é o ponto de partida de uma ação civil pública que agora pode custar R$ 300 mil ao criador de conteúdo. Léo Marcondes, coach e “treinador financeiro” com base em Balneário Camboriú, no Litoral catarinense, virou réu num processo do Ministério Público de São Paulo que classifica suas falas como aporofobia, o desprezo e a discriminação contra pessoas por causa da condição de pobreza.

O vídeo que sustenta a ação foi publicado em 26 de dezembro de 2025. Nele, Marcondes não apenas questiona o direito de voto da população mais pobre, ele o nega de forma direta. “Uma pessoa que é pobre, ela não soube tomar boas decisões pra ter o melhor pra sua família e pra si mesma. E essa pessoa que não tomou boas decisões pra ter o melhor pra si mesma, ela vai agora tomar uma decisão que vai ser o melhor para o país”, afirma no vídeo reproduzido pela promotoria.

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“Toda decisão do pobre é equivocada”

A lógica do influenciador, na sequência, é a de que a pobreza seria prova de incapacidade. “Qual que é a habilidade que essa pessoa tem ao tomar decisões? Nenhuma. É uma pessoa que não deveria votar. Porque um país ou uma empresa não pode estar nas mãos de uma pessoa que não consegue nem ter responsabilidade sobre as próprias atitudes”, continua. Em outro trecho, sustenta que “o mundo seria um lugar melhor se os pobres não votassem” e defende que o poder de decisão deveria ficar “na mão dos ricos, até que o pobre ficasse rico”. Fecha o raciocínio com uma sentença que resume o teor da fala: “Toda decisão do pobre é equivocada. Afinal, se ele tomasse boas decisões, ele não seria pobre, ele seria rico.”

No mesmo material, segundo o processo, Marcondes ainda declarou que “pobre quer tirar vantagem em tudo”. A promotoria afirma que o episódio não é isolado. Em outros vídeos, ele teria dito que pobres “não deveriam ter o direito de transar” e que “pobre não gosta de trabalhar no feriado porque é preguiçoso”, associando a baixa renda à falta de inteligência, higiene, capacidade moral e responsabilidade.

O que diz o Ministério Público

Para o promotor Ricardo Manuel Castro, autor da ação, esse tipo de fala equipara a escassez de recursos materiais a uma suposta “irresponsabilidade constitucional” e ultrapassa os limites da liberdade de expressão. O Ministério Público sustenta que o direito ao voto é expressão da cidadania e do sufrágio universal, garantido a todo brasileiro independentemente de renda ou escolaridade, e que é incompatível com qualquer exclusão baseada em critério econômico. Segundo o órgão, ao associar pessoas pobres à incapacidade e à irresponsabilidade, o influenciador constrói e reforça estereótipos e tenta afastar essa parcela da população da participação política.

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A ação foi ajuizada em 25 de junho de 2026 pela Promotoria de Justiça de Direitos Humanos da Capital paulista, a partir de informações encaminhadas pelo Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância (GECRADI). Além da indenização de R$ 300 mil por danos morais coletivos e dano social, que iria para o Fundo Estadual de Defesa dos Interesses Difusos, o MP pede que a Justiça determine a retirada do vídeo e de todo o perfil do influenciador do Instagram, com multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento. A promotoria requer ainda que Marcondes seja proibido de fazer novas publicações consideradas aporofóbicas e que participe, no prazo de um ano, de um curso sobre inclusão social com carga mínima de 30 horas. A empresa Meta, dona do Instagram, também é ré e foi acionada para preservar por um ano os registros das publicações.

A versão do influenciador

Durante depoimento na fase de investigação, o influenciador afirmou que usava a palavra “pobre” em sentido figurado, para se referir a uma “mentalidade”, e não à condição financeira das pessoas. O Ministério Público rebate essa versão, sustentando que as próprias publicações contradizem a explicação, ao associar pobreza a características depreciativas e defender a restrição de direitos políticos com base na renda.

Depois que o caso repercutiu nos portais, Marcondes publicou um vídeo e uma nota oficial nas redes. Nela, diz ter sido “surpreendido” com as notícias sobre a suposta ação e afirma que, até aquele momento, não havia sido citado, intimado ou comunicado oficialmente sobre qualquer processo. “A equipe jurídica está adotando as providências necessárias para verificar a origem e o conteúdo das informações divulgadas, uma vez que, até o momento, não foi localizada ação judicial em consulta processual”, diz o texto. O influenciador afirma que causa “estranheza” a divulgação de detalhes de um processo que, segundo ele, tramitaria sob sigilo, antes mesmo de a defesa ser oficialmente intimada.

Na mesma manifestação, Marcondes diz que passou a receber ataques, ofensas e ameaças após a repercussão, sem que lhe fosse assegurado o direito ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal. Em sua página, classificou as acusações como “injustas” e afirmou que quem o conhece sabe quais são “seus valores”. A defesa informou que só vai se manifestar sobre o mérito depois de ser formalmente notificada e ter acesso aos autos.

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Ex-atleta profissional de vôlei, Marcondes se apresenta como coach, palestrante e empresário. É fundador da escola NPAC, que oferece cursos, mentorias e eventos voltados ao mercado financeiro e ao empreendedorismo, e na descrição do perfil vende “diagnóstico financeiro” e divulga um “clube de enriquecimento”. O processo segue em andamento na Justiça de São Paulo.

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