A pergunta aparece no vídeo antes de qualquer explicação, dita quase sem respirar, no meio da cozinha onde ela ganha a vida: que diabo essa pessoa tá fazendo aqui que ela ainda não foi embora? A frase é de uma paraibana que mora em Itajaí, no Litoral catarinense, há dez anos, e que decidiu gravar depois de esbarrar em mais um vídeo de gente de fora reclamando de Santa Catarina e do catarinense.
Ela se apresenta como empreendedora, trabalha por conta própria e vende empadas na cidade. Não fala de estatística nem de política pública, fala do que viveu. “Eu fico irada quando eu vejo um vídeo de alguém falando mal de Santa Catarina e falando do catarinense”, diz no começo da gravação, antes de virar a acusação do avesso e apontar para quem reclama sem arredar o pé.
O argumento central dela é físico, quase geográfico. “As perna que veio, chegou até aqui, é as mesmas perna que podia acertar a rodoviária ou podia acertar o aeroporto e ir embora”, afirma, e completa que tem certeza de que nenhum dos dois está interditado. É a parte do vídeo que mais colou nos comentários e a que ela repete em versões diferentes ao longo da fala.
O que ela diz ter encontrado
Antes da provocação, vem a lista. Segurança em primeiro lugar. A paraibana afirma que se alegra em ver uma cidade que não é dominada por facções criminosas, situação que, segundo ela, é a realidade do lugar de onde saiu. “Que o bandido diz que não faz e ai dá que eles que fizerem”, resume, sobre a terra natal.
Depois vem o trabalho. Ela conta que passou a trabalhar por conta própria em Itajaí, que hoje faz, nas palavras dela, “a melhor empada do mundo”, e que conseguiu proporcionar uma vida mais digna aos filhos. E credita a travessia dos períodos ruins justamente a quem ela agora defende. “No meu momento ruim, de dificuldade, foi aqui quem me apoiou, foi o catarinense. Que me abraçaram, que me acolheram.”
O terceiro ponto é o que ela cobra de quem chega. Adaptação. “Eu vim pra cá sabendo que eu tinha que me adaptar à forma que eles vivem aqui”, diz, listando cultura, jeito de pensar, jeito de falar e culinária. “E só não vai se adaptar aqui quem não quer.”
Sem passar pano para conterrâneo
O vídeo não poupa o próprio grupo de origem. A paraibana critica o que chama de disputa de superioridade, diz que “tem uns que são cão, tem uns que são satanás” e emenda que gente ruim existe em todo lugar. Também rejeita, antes que alguém acuse, a leitura de que estaria puxando o saco de alguém para se dar bem.
“Ah, mas vim aqui pra lamber as botas dos catarinenses. Ah, tá defendendo eles porque quer ganhar ponto. Eu vim ganhar dinheiro, meu amor. Apenas isso. E eu tô vencendo.”
A discussão que nasceu nos comentários
A publicação abriu uma discussão longa entre seguidores, com catarinenses e gente de outros estados concordando com a fala dela. “Pessoas como você sempre serão bem-vindas em Itajaí”, escreveu um seguidor, enquanto outra resumiu a reação em duas palavras: “falou tudo”. Uma comentarista foi seca com quem reclama e fica: “fique aí mesmo, até o momento em que um te maltratar”.
Houve também quem discordasse do encaminhamento. Uma catarinense nascida em Itajaí escreveu que já viu muitos nordestinos sofrerem preconceito no estado, citou o caso do padrasto baiano e ponderou: “quem sofre racismo ou xenofobia não é quem deve ir embora, pelo contrário”. Fez a ressalva elogiando a história da autora do vídeo.
A resposta veio no mesmo tom da gravação. A paraibana respondeu que conhece nordestinos honestos e trabalhadores, e se inclui nesse grupo, mas manteve a posição sobre quem reclama: “os incomodados que devem se retirar sim, afinal ninguém foi na minha casa me trazer pra cá”. Também escreveu que chegou ao estado com as próprias pernas e que quem quer vencer não perde tempo com militância.
O caminho inverso apareceu na conversa. Uma seguidora contou que saiu de Santa Catarina para morar no Ceará e disse estar morrendo de saudade, mesmo criticando facções, som alto e lixo na rua no estado de onde veio. Escreveu que voltar dependeria de o marido largar um emprego de quinze anos na mesma empresa.
Um debate antigo no Litoral
A discussão não é nova em Itajaí nem no restante do Litoral catarinense, região que puxa migração de outros estados pela oferta de trabalho ligada ao porto, à construção civil, ao comércio e ao turismo. Vídeos comparando cidades, custo de vida, cultura e acolhimento circulam nos dois sentidos e voltam a aparecer a cada temporada, sempre com o mesmo par de acusações trocadas: de um lado, xenofobia; do outro, ingratidão.
O que a gravação fez foi colocar esse embate na boca de quem veio de fora, e não de quem nasceu no estado, o que explica parte da repercussão. A paraibana encerra o vídeo repetindo a frase que, segundo ela, já dizia na Paraíba, e que agora vale para Santa Catarina. “Os incomodados, ó, que se mudem.”
Ela seguiu respondendo comentários um a um depois da publicação, reafirmando a posição a cada resposta.






















