Antes da medalha, existe um adolescente. É assim que a família de Davi Dalmut, 14 anos, morador de Itapema, no Litoral de Santa Catarina, prefere começar a contar essa história. Estudante do 9º ano da rede pública municipal, Davi tem Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e altas habilidades/superdotação. Recebeu o diagnóstico de TEA com 1 ano e 10 meses e é irmão gêmeo de Samuel, que também é autista. Tranquilo, observador, organizado e curioso, é descrito pela família como reservado, educado, sensível e dono de um forte senso de justiça.
O interesse incomum por letras e números apareceu cedo. Com 1 ano e 6 meses, Davi já cantava o alfabeto em português e em inglês. Por volta dos 3 anos, aprendeu a ler sozinho, um fenômeno conhecido como hiperlexia. Enquanto outras crianças se dividiam entre os carrinhos, ele se encantava com letras, números, calendários, placas, outdoors e tudo o que envolvia padrões. Também montava quebra-cabeças e passava horas com peças de LEGO, criando construções. Os sinais mostravam que ele aprendia de um jeito muito particular.

A confirmação veio em 2020, aos 8 anos, quando uma avaliação neuropsicológica identificou as altas habilidades/superdotação, com destaque para a matemática. “O talento já existia. A avaliação apenas ajudou a compreendê-lo”, resume a família. Para eles, a matemática nunca foi obrigação: resolver desafios, descobrir padrões e encontrar soluções sempre fez parte da forma de Davi brincar e aprender. Foi esse interesse que o levou, de maneira natural, à Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) e não o contrário.

A trajetória na competição foi construída ao longo dos anos. Em 2024, Davi conquistou a medalha de bronze nacional e a de prata regional. Em fevereiro de 2025, ingressou no PIC, o Programa de Iniciação Científica Jr. da OBMEP, com aulas em três sábados por mês. No mesmo ano, veio o ouro: nacional e regional. A conquista o levou, com a família, ao Encontro Nacional dos Medalhistas e à cerimônia nacional de premiação, no Rio de Janeiro, em junho.
Perguntado sobre o que a medalha representa, Davi foi direto: “Meu amor pela matemática.” A resposta, para a família, resume tudo. Mais do que um prêmio, o ouro representa a alegria de aprender, descobrir e resolver desafios, algo que sempre fez parte da vida dele.

A matemática, porém, é só uma parte de quem ele é. Davi gosta de inglês, assiste a vídeos no idioma e conversa em inglês com o irmão Samuel. É apaixonado por Super Mario, acompanha conteúdos sobre Jesus e costuma compartilhar mensagens que o inspiram. Sensível e carinhoso, busca sempre o diálogo, prefere a paz aos conflitos e ambientes tranquilos aos lugares movimentados. A rotina inclui escola no período da tarde, o projeto Novos Caminhos, acompanhamento psicológico, natação aos sábados, as aulas do PIC e o computador para estudar, pesquisar e se divertir. Na escola, adaptações como abafadores em ambientes barulhentos e espaços de regulação fazem diferença no dia a dia.
A viagem ao Rio trouxe algo que a família não esperava. Foi a primeira vez que Davi participou de um encontro com centenas de adolescentes que compartilhavam o mesmo interesse pela matemática. Além da comemoração, a experiência trouxe aprendizados sobre autonomia, pertencimento e habilidades sociais. “Percebemos que, mesmo sendo um adolescente autista nível 1 de suporte, ele ainda precisava de apoio em algumas situações para se sentir seguro”, conta a família, que passou a compartilhar essas reflexões com outras famílias.

Para a mãe, Josi Dalmut, a medalha vale mais do que um resultado em uma olimpíada. Ela mostra o quanto o acolhimento, o incentivo e as oportunidades podem transformar a vida de um adolescente, e como talentos florescem quando cada criança é vista para além do diagnóstico. “Nossa maior preocupação nunca foi colecionar medalhas. Sempre buscamos oferecer oportunidades para que o Davi pudesse desenvolver seus talentos, respeitando seu jeito de ser.” O desejo maior, dizem, é que ele continue conquistando autonomia, fortalecendo suas habilidades sociais e encontrando pessoas que o acolham e valorizem quem ele é, e que sua história inspire outras famílias a acreditarem no potencial de seus filhos. “Mais do que formar um medalhista, nosso maior desejo é que o Davi continue sendo reconhecido por quem ele é.”






















