“Parados hoje para não parar para sempre.” Com motos estacionadas, faixas erguidas e críticas ao novo sistema do iFood, entregadores por aplicativo realizaram uma paralisação na terça-feira (21), em Florianópolis.
O alvo do movimento foi o +Entregas, modalidade que permite ao trabalhador reservar um período e atuar dentro de uma área delimitada pelo aplicativo. Segundo os manifestantes, o sistema oferece valores de aproximadamente R$ 3,50 por entrega e estaria reduzindo a quantidade de chamadas destinadas aos profissionais que continuam no modelo tradicional, conhecido como Nuvem.
Ouvido pelo Jornal Razão durante a manifestação, um motoboy que trabalha com entregas há cerca de três anos resumiu a insatisfação da categoria.
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“O iFood lançou uma nova modalidade chamada Mais Entregas. Só que, para nós, é menos entrega”, afirmou.
Segundo o entregador, os que aderem ao novo formato precisam realizar um número maior de corridas para atingir uma remuneração considerada satisfatória. Enquanto isso, profissionais que permanecem na Nuvem relatam passar longos períodos sem receber pedidos.
“O cara que faz esse Mais Entregas tem que rodar bem mais para alcançar a taxa mínima. E quem está na Nuvem não está tocando nada, porque o iFood está preferindo lançar as corridas para quem está dentro desse sistema”, declarou.
Prioridade para quem adere ao novo sistema
A reclamação encontra um ponto de apoio no próprio material de divulgação da plataforma. Em uma página destinada aos entregadores, o iFood informa que os participantes do +Entregas recebem prioridade na distribuição dos pedidos.
Para o entregador, essa prioridade faz com que a adesão deixe de ser uma escolha simples. Embora o trabalhador possa continuar no modelo tradicional, ele afirma que a redução das chamadas acaba pressionando os profissionais a migrarem para o novo formato.
“Está ruim para os dois. Quem faz o Mais Entregas tem que rodar bem mais. Quem está na Nuvem não recebe nada. O iFood está lucrando em cima da gente, do cliente e da loja. O que estamos pedindo é para acabar com esse sistema”, disse.
Valor de R$ 3,50 é o centro da discussão
Os manifestantes afirmam que cada corrida realizada dentro da nova modalidade pode pagar aproximadamente R$ 3,50. O iFood contesta a interpretação de que este seja o pagamento total recebido pelo trabalhador.
Segundo a empresa, o +Entregas possui uma forma diferente de remuneração. O ganho seria formado por um valor fixo pelo período em que o profissional permanece disponível, somado a outro valor por cada entrega realizada. A plataforma também afirma existir uma garantia mínima quando a demanda fica abaixo do previsto.
Para receber a parcela fixa, o entregador precisa permanecer disponível durante pelo menos 90% do período reservado e não pode ultrapassar duas rotas canceladas ou rejeitadas, conforme as regras divulgadas pela plataforma.
No modelo Nuvem, o pagamento segue outra lógica. O valor mínimo informado pelo aplicativo é de R$ 7,50 para rotas realizadas com motocicleta ou carro e de R$ 7 para bicicletas. Também há o mínimo de R$ 1,50 por quilômetro e adicionais para pedidos agrupados.
Reajuste após paralisação nacional
O entregador lembrou que a categoria participou, em 2025, do Breque Nacional dos Apps. Na ocasião, os trabalhadores reivindicavam uma taxa mínima de R$ 10, além do aumento do valor pago por quilômetro rodado.
Após a mobilização, o iFood anunciou que a taxa mínima para motocicletas e carros subiria de R$ 6,50 para R$ 7,50. Para bicicletas, o valor passou a R$ 7. A empresa apresentou a mudança como um reajuste superior à inflação, enquanto os trabalhadores consideraram que as reivindicações haviam sido atendidas apenas parcialmente.
“A gente fez o breque pedindo o aumento da taxa mínima, que era R$ 6,50. Conseguimos chegar a R$ 7,50. Só que, em contrapartida, lançaram o Mais Entregas”, criticou.
Entregadores prometem novos protestos
A paralisação em Florianópolis começou como um movimento regional. Durante a entrevista, o entregador afirmou que o grupo pretendia permanecer mobilizado até aproximadamente 22h e realizar uma passeata de motocicletas pela Ilha durante a tarde.
A intenção, segundo ele, era dar visibilidade ao protesto e estimular mobilizações semelhantes em outras cidades.
“A gente quer que isso se multiplique. Vamos continuar fazendo essa greve até esse sistema sair do iFood. A gente fica debaixo de chuva, debaixo de sol, entregando a refeição de todo mundo. A gente só quer dignidade”, declarou.
Ele também afirmou que a falta de concorrentes com força semelhante na Grande Florianópolis aumenta a dependência dos trabalhadores em relação ao iFood.
“Aqui, se o iFood determina o preço, a gente é obrigado a aceitar. Não temos para onde correr”, afirmou. A declaração sobre a concentração do mercado representa a avaliação dos organizadores do movimento.
O que diz o iFood
Em posicionamento divulgado após o protesto, o iFood afirmou respeitar o direito à manifestação pacífica e à livre expressão dos entregadores.
A empresa sustentou que o +Entregas é opcional, que os profissionais podem alternar entre as modalidades sem prejuízo à conta e que a remuneração não se limita ao valor pago por cada corrida.
Segundo o iFood, os trabalhadores que optaram pelo novo sistema registraram ganho médio por hora superior ao obtido no formato tradicional. A plataforma também afirmou que acompanha a implantação da modalidade e mantém diálogo com representantes da categoria.
Os manifestantes, entretanto, exigem o encerramento do +Entregas e prometem repetir as paralisações caso não haja mudança.






















