O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse na noite desta quinta-feira (1º), em entrevista ao Flow Podcast, que vai proibir os bancos de dar mais de um cartão de crédito por pessoa. “Então nós estamos discutindo com o Banco Central. Nós vamos proibir os bancos, dar mais que um cartão de crédito pras pessoas”, afirmou. A promessa foi feita a três dias do primeiro turno, em que ele disputa a reeleição, e sem nenhuma medida assinada: Lula não apresentou texto, prazo nem regra.
Para justificar a ideia, o presidente contou uma história. “Esses dias eu conheci um pai de um menino autista, que recebeu quatro cartão de crédito em casa e gastou oitenta mil reais. Quando o pai chegou, o moleque tava com uma dívida de oitenta mil reais”, disse. Segundo Lula, o filho explicou ao pai: “Chegou o cartão de crédito, eu gastei”.
Lula disse que a equipe econômica e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sabem do plano. “O meu pessoal da economia sabe, o Galípolo sabe que nós vamos ter que moralizar um pouco essa questão de crédito”, afirmou ao apresentador Igor Coelho. “Não é possível a gente permitir que a sociedade seja endividada da forma mais irresponsável possível.”
Recorde de nome sujo no governo dele
O endividamento que Lula promete “moralizar” bateu recorde no governo dele, que começou em janeiro de 2023. O país chegou a 83,98 milhões de pessoas com o nome sujo em agosto, o maior número de toda a série, segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa. Em julho eram 83,93 milhões, como registrou o jornal O Povo.
A pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostra 82% das famílias endividadas em agosto, sétimo mês seguido no nível recorde. Quase três em cada dez (29,9%) têm contas em atraso, e 12,5% dizem que não vão conseguir pagar. Entre quem ganha até três salários mínimos, o endividamento chega a 85,1%. O cartão de crédito é a principal dívida: em julho, aparecia em 85,3% dos casos, conforme a Agência Brasil.
Lula falou em 500% de juros; o Banco Central registra 444,9%
Minutos antes, na mesma resposta, Lula tinha reclamado dos juros. “Sabe quanto é que o povo paga? É quatrocentos e noventa e três por cento, quinhentos por cento no cartão de crédito”, disse. O dado oficial é um pouco menor: o rotativo do cartão cobrou em média 444,9% ao ano em agosto, contra 436,2% em julho, segundo as estatísticas de crédito do Banco Central divulgadas no dia 29. O número é de agosto de 2026, quarto ano do mandato. Desde janeiro de 2024, uma lei aprovada pelo Congresso limita juros e encargos do rotativo a 100% do valor da dívida, como lembrou a Agência Estado. Ainda assim, a série do Banco Central mostra o atraso no cartão de crédito perto de 10% da carteira.
Foi sobre os juros que Igor Coelho cobrou o presidente. “E não dá pra fazer nada?”, perguntou. “Dá pra fazer. Dá, porque eu tô exigindo que faça agora”, respondeu Lula. O apresentador insistiu: “E por que que tu não fez?”. A resposta: “Nós vamos ter que fazer, mas não é uma coisa que cê toma a decisão e faz assim rapidinho”. Lula emendou que “é um crime o que acontece nos bancos hoje”, que distribuem cartão “sem saber se você quer”.
Mandar cartão sem pedido já é proibido desde 1990
A prática que Lula chama de crime já é vedada pela lei em vigor. O Código de Defesa do Consumidor, de 1990, proíbe no artigo 39, inciso III, o envio de produto ou serviço sem solicitação prévia. Em 2015, o Superior Tribunal de Justiça aprovou a Súmula 532: “Constitui prática comercial abusiva o envio de cartão de crédito sem prévia e expressa solicitação do consumidor, configurando-se ato ilícito indenizável e sujeito à aplicação de multa administrativa”. Se os quatro cartões da história contada no Flow chegaram sem pedido, o banco já estava fora da lei.
Limitar a um cartão por pessoa é outra coisa, e mexeria com um mercado enorme. O Brasil tinha 243 milhões de cartões de crédito ativos em meados de 2025, mais que os 213,4 milhões de habitantes, segundo dados do Banco Central reunidos pela CNN Brasil e pelo Times Brasil. Lula não disse se a regra valeria por banco ou para todo o sistema, nem o que aconteceria com quem já tem mais de um cartão.
Não há medida assinada nem proposta pública
Até a publicação desta matéria, nem o Banco Central nem o Ministério da Fazenda haviam divulgado proposta, minuta ou norma que limite o número de cartões por pessoa. Em 24 de setembro, ao apresentar o Relatório de Política Monetária, Galípolo disse que o Banco Central está preocupado com ofertas de crédito “agressivas ou mesmo predatórias” e que o cartão, com 65% de inadimplência no rotativo, tem “problema de design”. Ele falou em medidas de prevenção e transparência, sem citar limite de cartões, de acordo com a agência Reuters, em texto publicado pelo InfoMoney.
No mesmo dia 24, em comício em Maceió, Lula já tinha atacado o cartão. “Agora você não precisa pedir cartão de crédito, o banco manda pra você”, disse, segundo o Poder360. Ali também não detalhou medida nenhuma, como registrou o portal alagoano BR104.
O Desenrola 3 e a conta do leilão
A fala sobre o cartão veio depois de Lula apresentar o Desenrola 3 como solução. “Nós vamos comprar a dívida das pessoas”, disse. Pelas contas dele, a dívida “do povo todo” é de R$ 300 bilhões e o governo vai comprar R$ 150 bilhões em leilão, com 90% ou 95% de desconto. “Ele vai pagar só os cinco por cento que faltar pagar”, afirmou. Segundo o presidente, o primeiro leilão “tava previsto pra novembro”, mas será antecipado “uns dias como plano piloto”.
A medida provisória foi assinada em 25 de setembro, em São Paulo, a nove dias da eleição. Ela reserva R$ 15 bilhões da União para comprar, com desconto mínimo de 90%, dívidas de até R$ 10 mil atrasadas entre dois e quatro anos e meio, e o governo estima alcançar até R$ 150 bilhões em dívidas e 15 milhões de pessoas, informou a Agência Brasil. O cronograma oficial, também descrito pelo Brasil de Fato, prevê o chamamento dos credores em novembro e o repasse do desconto ao devedor só em fevereiro de 2027. O Metrópoles registrou a mesma conta de R$ 300 bilhões de estoque e R$ 150 bilhões a comprar. Nenhuma data de leilão antecipado foi publicada.
Para mostrar que o cartão faz gastar mais, Lula contou ainda que, no tempo em que fumava, só comprou um charuto de 200 dólares no dia em que estava sem dinheiro e tinha em mãos o cartão de crédito que conseguiu para o PT no Bradesco. “O povo gasta com mais facilidade o cartão de crédito. E ele só vai ver o rombo no final”, disse. Sobre o crédito, encerrou: “Nós vamos tentar cuidar disso com carinho”. O primeiro turno é no domingo (4).
Fontes: entrevista de Lula ao Flow Podcast, estatísticas de crédito do Banco Central, Mapa da Inadimplência da Serasa, pesquisa de endividamento da CNC, Súmula 532 do Superior Tribunal de Justiça, Agência Brasil, Brasil de Fato, Metrópoles, Poder360, agência Reuters, no InfoMoney, CNN Brasil e Agência Estado, no jornal O Povo.
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