O chamado veio de dentro da própria cela. Por volta das 7h20, um interno da cela 166 da Galeria “H”, no Pavilhão 2 do Complexo Penitenciário do Estado (COPE), em São Pedro de Alcântara, gritou pela portinhola pedindo a presença de um policial. Quando os agentes penais abriram a passagem, ouviram que havia um homem morto ali dentro, e que quem avisava dizia ter sido o autor. O que os policiais ainda não sabiam era quem estava caído no chão daquela cela.
O morto era Alejandro Sebastian Techera Martinez, uruguaio de 38 anos. O nome talvez não diga nada para a maioria dos catarinenses, mas ecoou forte no Chile e no Uruguai em setembro de 2024. Foi ele o homem apontado pela polícia como autor do feminicídio de uma chilena de 51 anos, encontrada morta no apartamento onde morava, no bairro Canasvieiras, no norte de Florianópolis.
O interno que fez o chamado e assumiu a autoria da morte tem 23 anos e é natural de Barra de Santa Rosa, na Paraíba. Segundo o relato dos agentes penais, ele declarou de forma espontânea, no momento em que a portinhola foi aberta, que teria matado o companheiro de cela, resumindo tudo em duas frases: “fui eu que matei o cara” e “ele me ameaçou”. A confissão foi feita antes de qualquer procedimento formal, e a alegação de ameaça ainda depende de apuração.
O crime que chocou o Chile
Para entender quem era o morto, é preciso voltar ao fim de 2024. A vítima do feminicídio vivia havia cinco anos em Florianópolis, no bairro Canasvieiras, junto da filha. Segundo o que a família relatou à imprensa chilena na época, ela conheceu Techera na praia, poucos dias antes de morrer, quando ele estava em situação de rua. O uruguaio teria dito que sofria de um tumor cerebral, história que a sensibilizou. Ela decidiu acolhê-lo em casa e passou a lhe dar comida.
A filha desconfiou desde o início. Ela estava no Chile passando as festas nacionais quando o crime aconteceu, e afirmou à imprensa de seu país que havia alertado a mãe. Segundo relatou, dava má impressão nela, porque o homem dizia viver no Brasil havia anos mas não falava português, e carregava uma tatuagem no rosto. O aviso não impediu a tragédia.
No dia 16 de setembro de 2024, uma segunda-feira, a mulher não respondia às chamadas desde a manhã. O zelador do prédio estranhou ver os cães dela do lado de fora do apartamento e resolveu bater à porta. Sem resposta, um chaveiro foi acionado. Ela foi encontrada sem vida, com sinais de violência no pescoço. As primeiras investigações apontaram asfixia como causa da morte, o que levou as autoridades a tratar o caso como feminicídio.
Segundo vizinhos, discussões teriam sido ouvidas no apartamento na madrugada anterior. As câmeras de segurança registraram um homem deixando o imóvel com duas malas por volta do meio-dia, e outra câmera o localizou depois na rodoviária de Florianópolis. Antes de sumir, ele teria levado o celular da vítima. A filha chegou a receber mensagens enviadas do aparelho da mãe, e percebeu algo estranho: quem escrevia cometia erros de ortografia que ela jamais cometeria.
A fuga durou pouco. Techera seguiu para o Rio Grande do Sul e foi identificado e preso em Bagé, no sul do estado, perto da fronteira com o Uruguai, três dias após o crime, numa ação de cooperação entre as polícias. Levado à Justiça catarinense, passou a cumprir pena por execução penal na comarca de São José, com término previsto apenas para setembro de 2054. Foi essa condenação que o levou ao COPE, onde acabou morto.
Seis na mesma cela
A cela onde o corpo foi encontrado não abrigava apenas a vítima e o autor confesso. Outros quatro internos dividiam o mesmo espaço no momento em que a morte foi comunicada aos policiais penais, o que coloca a superlotação no centro do que a investigação terá de esclarecer. Ambientes assim, com seis homens em uma única cela, são terreno recorrente para desavenças que terminam em violência.
Diante da informação, os agentes acionaram imediatamente a supervisão de plantão, que adotou as providências de praxe. O caso agora depende da perícia da Polícia Científica para determinar a causa da morte e do trabalho da Polícia Civil para confirmar a dinâmica, a motivação e o grau de participação de cada um dos presos que estavam na cela. Até que a investigação avance, a alegação de ameaça feita pelo autor confesso segue como versão, sem confirmação independente.
O desfecho encerra, dentro de uma cela superlotada em São Pedro de Alcântara, a história de um crime que começou em uma praia de Florianópolis e atravessou fronteiras. A mulher que abriu a porta de casa para um homem em situação de rua, comovida por uma história de doença, acabou morta por ele. Menos de dois anos depois, ele próprio foi encontrado sem vida, no chão de uma prisão catarinense.






















