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Menino morto pelo “pai” por não dar “bom dia” passou meses em abrigo de SC antes de ser devolvido ao assassino

Documentos do MPSC mostram que os cinco irmãos ficaram três meses acolhidos em Palmitos, no Oeste catarinense, após denúncias de vizinhos; peritos concluíram que não havia maus-tratos e a Justiça devolveu a guarda meses antes de Oliver, de 3 anos, ser espancado até a morte pelo pai missionário no RS.

Menino morto pelo “pai” por não dar “bom dia” passou meses em abrigo de SC antes de ser devolvido ao assassino
Foto: Reprodução
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Durante três meses, cinco irmãos dormiram longe dos pais em um abrigo de Palmitos, no Oeste de Santa Catarina. Vizinhos haviam denunciado agressões dentro de casa, e a rede de proteção agiu. Mas peritos e assistentes sociais concluíram que não havia elementos suficientes de maus-tratos, que o casal reunia condições de criar os filhos, e que as próprias crianças sofriam com o afastamento. Em junho de 2025, a Justiça catarinense autorizou o retorno da família. Pouco mais de um ano depois, o menino Oliver Golden Grayson, de 3 anos, estava morto, espancado pelo próprio pai em Viamão, no Rio Grande do Sul.

O missionário norte-americano Dandre Jermaine Grayson, de 33 anos, confessou o crime. Segundo a Polícia Civil gaúcha, ele desferiu socos no peito e no abdômen do menino e bateu a cabeça da criança contra o chão. O motivo declarado por ele em depoimento é tão banal quanto assustador: Oliver não teria lhe dado “bom dia” da maneira que esperava naquela manhã de 5 de julho. A mãe, Mayanna Angelina Rodgers, de 29 anos, foi presa preventivamente sob suspeita de omissão e conivência.

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Rastro em três estados

O que o desfecho no RS trouxe à tona foi um rastro de denúncias que atravessou pelo menos três estados. Antes de Santa Catarina, a família morou em Águas de Lindóia, no interior de São Paulo, onde chegou a ser instaurado um inquérito por suspeita de maus-tratos contra uma das crianças. O procedimento acabou arquivado sem que as diligências fossem concluídas. Com a mudança para Palmitos, o caso passou a ser acompanhado pelo Ministério Público de Santa Catarina.

Em Palmitos, a denúncia veio de moradores. Segundo o MPSC, vizinhos relataram, de forma anônima, supostas agressões físicas contra um dos filhos do casal. Uma força-tarefa formada por Conselho Tutelar, Polícia Militar e o promotor de Justiça da comarca foi até a residência. Na inspeção, os profissionais examinaram o corpo do menino apontado na denúncia e não encontraram hematomas nem sinais aparentes de violência. As crianças estavam alimentadas, vestidas e a casa apresentava boas condições de higiene.

Ainda assim, diante do histórico da família em outro estado e do teor das denúncias, os órgãos de proteção optaram por uma medida cautelar. A Justiça determinou o acolhimento institucional das crianças, que passaram cerca de três meses no abrigo enquanto psicólogos, assistentes sociais e equipes da rede avaliavam a situação familiar.

A guarda devolvida

As conclusões técnicas pesaram a favor do casal. Segundo o Ministério Público catarinense, as perícias apontaram que pai e mãe tinham condições psicológicas para exercer a guarda, e o estudo social não encontrou elementos suficientes para confirmar maus-tratos. Os relatórios registraram ainda que o afastamento estava provocando sofrimento nas crianças, especialmente no filho mais velho, de 9 anos. Durante as visitas assistidas, as crianças demonstravam forte vínculo com os pais e diziam querer voltar para casa.

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Com base nessas avaliações, a Justiça autorizou o retorno da família em junho de 2025. O acompanhamento pela rede de proteção de Palmitos continuou, e, segundo o MPSC, não houve novos registros de suspeita de maus-tratos enquanto a família permaneceu em Santa Catarina. Poucos meses depois, em agosto, o casal deixou o estado e se mudou para Viamão. Antes da mudança, o Ministério Público catarinense pediu que todo o procedimento fosse encaminhado à Justiça gaúcha para que o acompanhamento não se perdesse. O pedido foi deferido em setembro de 2025.

O Estado falhou

Do outro lado da fronteira, o alerta voltou a soar. A prefeitura de Viamão admitiu que acompanhava a família desde o fim de novembro de 2025, quando uma enfermeira de uma unidade de saúde identificou hematomas no corpo de Oliver. Houve reuniões e visitas presenciais, mas o acolhimento das crianças foi sendo adiado. Uma nova visita à casa, que ocorreria sem a presença de Dandre, estava marcada justamente para a quinta-feira em que a morte do menino já havia sido confirmada. O prefeito da cidade declarou publicamente que “o Estado falhou”.

O caso agora ganhou dimensão internacional. O Ministério Público e a Polícia Civil do Rio Grande do Sul acionaram a Interpol, por meio da Polícia Federal, para rastrear o passado de Dandre nos Estados Unidos e verificar se ele já respondia por crimes contra crianças antes de chegar ao Brasil. A família vive no país há cerca de nove anos.

A investigação também apura a conduta da mãe. A defesa de Mayanna sustenta que ela é vítima, e não coautora, descrevendo um ambiente de controle emocional, físico e espiritual imposto pelo marido. Segundo a versão da defesa, o isolamento da família e a submissão da mulher eram parte da própria dinâmica de violência. A polícia, no entanto, trabalha com a hipótese de conivência, e busca esclarecer, por perícia, se Mayanna também praticava as agressões. Os outros quatro filhos do casal, com idades entre 1 e 9 anos, seguem em acolhimento institucional, agora no Rio Grande do Sul, enquanto os investigadores apuram se também foram vítimas de violência ao longo dos anos.

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