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“Nóis vai derruba esse loko”: investigação revela “casinha” que matou jovem de BC em Blumenau

Murilo Viana Cella, de 18 anos, acreditava que participaria de uma confraternização. Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, pessoas próximas já discutiam a morte dele havia três dias. Seis foram denunciados pelo crime.

“Nóis vai derruba esse loko”: investigação revela “casinha” que matou jovem de BC em Blumenau
Foto: Reprodução
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Ele achava que estava indo para uma festa com os amigos.

Na verdade, três dias antes, esses mesmos “amigos” já discutiam que ele não sairia vivo daquela noite.

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Eles chamavam isso de “casinha”.

Murilo Viana Cella tinha 18 anos. Natural de Brusque, o jovem morava em Balneário Camboriú. Na madrugada de 8 de junho de 2026, ele foi encontrado morto em uma rua do bairro Vorstadt, em Blumenau.

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Murilo havia viajado até a cidade depois de receber o convite de uma amiga. Era alguém em quem ele confiava e que, segundo os depoimentos reunidos no inquérito, já havia morado com ele.

O convite era para beber e encontrar outras pessoas em uma quitinete. Para a Polícia Civil, porém, a confraternização nunca foi o verdadeiro objetivo.

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Era uma “casinha”, expressão usada no meio criminoso para definir uma emboscada na qual uma pessoa de confiança atrai a vítima e a entrega aos responsáveis pela execução.

A investigação aponta que o plano começou a tomar forma no dia 5 de junho, três dias antes do homicídio.

“Ele tá colando com verme”

Uma das principais provas analisadas pela Polícia Civil foi o conteúdo do celular de uma das denunciadas, uma jovem que tinha proximidade com Murilo.

De acordo com o relatório da Divisão de Homicídios da DIC de Blumenau, ela passou a monitorar os passos dele. As informações eram repassadas ao homem apontado pelos investigadores como o articulador do plano.

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No dia 5 de junho, ela enviou áudios dizendo que desconfiava que Murilo estivesse colaborando com a polícia. Em uma das mensagens, afirmou:

Olha só, ele tá colando com verme.

No contexto das conversas, “verme” era uma referência aos policiais.

Ela disse que Murilo teria mostrado uma mensagem trocada com um agente de segurança. Também afirmou que ele estaria preparando uma “casinha” contra outras pessoas e ameaçava integrantes do grupo.

Ele falou que vai matar os piá, mano. Ele vai matar.

O articulador teria orientado que ela continuasse próxima de Murilo, agisse normalmente e tentasse gravar alguma declaração que confirmasse a suposta colaboração com a polícia. Em uma das mensagens, com a grafia original, ele escreveu: “Mais preciso dele falando algo tlgd.”

Na interpretação dos investigadores, a ideia inicial era obter uma gravação que pudesse ser apresentada a integrantes da facção criminosa Primeiro Grupo Catarinense, o PGC. A denúncia do Ministério Público descreve os envolvidos como integrantes ou simpatizantes da organização criminosa.

“Nóis vai derruba esse loko”

As conversas mudaram de tom rapidamente. Em outra mensagem extraída do celular, o articulador teria escrito:

O nary ve oq tu consegue fazer ai que noix vai derruba esse loko.

A Polícia Civil interpretou a frase como uma manifestação direta da intenção de matar Murilo. Na sequência, foram enviadas outras mensagens: “Por mim eu ja fazia acontecer.” e “Mais a naty falou calma.” Segundo a investigação, a pessoa citada nesse trecho é a mulher que possuía relação de confiança com Murilo e foi responsável por convencê-lo a viajar para Blumenau.

Em outro momento, diante do receio manifestado pela interlocutora, o articulador teria sido ainda mais explícito:

Ele não vai ficar vivo. Calma.

Para a Polícia Civil, as conversas mostram que a morte não foi resultado de uma discussão inesperada. O grupo conversou sobre o crime, escolheu quem atrairia Murilo, definiu o local da emboscada e preparou a fuga.

Suspeita de delação e disputa por ciúmes

A investigação identificou duas motivações principais. A primeira era a suspeita de que Murilo colaborava com a polícia em Balneário Camboriú.

A segunda envolvia uma desavença pessoal com outro integrante do grupo. Segundo as mensagens, Murilo teria ameaçado esse homem por causa de uma disputa envolvendo uma ex-namorada. A denunciada que monitorava a vítima relatou que o jovem queria ser o único homem dentro da casa onde o grupo se encontrava e demonstrava ciúmes.

A Polícia Civil analisou o homicídio como resultado da soma desses fatores. Havia a suspeita de que Murilo fosse informante, a suposta ameaça e a intenção do articulador de preservar sua autoridade dentro da facção. No relatório, os investigadores afirmam que ele fez referências ao que já teria realizado em nome da organização criminosa e demonstrou impaciência com a demora para agir contra Murilo.

Em 7 de junho, quando o grupo descobriu que o jovem pretendia passar por Balneário Piçarras antes de seguir para Blumenau, o articulador pediu o endereço exato. Segundo o relatório, a intenção seria fazer contato com integrantes da facção naquela região para tentar matá-lo antes mesmo de ele chegar a Blumenau. O plano acabou mantido para o bairro Vorstadt.

O convite que levou Murilo a Blumenau

A mulher de confiança da vítima entrou em contato com Murilo e o convidou para beber com o grupo. Para a investigação, ela foi escolhida justamente por isso: Murilo não teria motivos para desconfiar do convite. Ele aceitou e viajou para Blumenau.

Por volta das 23h30 de 7 de junho, Murilo chegou à quitinete na Rua Alfredo Kaestner. O imóvel era ocupado havia poucas semanas por dois irmãos, ambos denunciados. No local estavam outras quatro pessoas do grupo. Segundo os depoimentos, todos consumiam bebidas e conversavam normalmente.

A Polícia Civil afirma que os irmãos evitaram permanecer na quitinete durante parte da aproximação da vítima. O objetivo seria impedir que Murilo percebesse algo estranho.

Cerca de meia hora antes do homicídio, câmeras de segurança registraram os dois próximos ao lugar escolhido para a emboscada. Eles pararam em uma esquina localizada a poucos metros do ponto onde Murilo seria morto, conversaram por alguns instantes e depois retornaram apressadamente para a região das quitinetes. Para os investigadores, as imagens mostram o reconhecimento prévio do local.

Caminhadas para não levantar suspeitas

Com Murilo dentro da quitinete, o grupo precisava tirá-lo do imóvel e levá-lo até a rua escolhida. Segundo um dos depoimentos, um dos denunciados sugeriu que todos fossem até uma conveniência para comprar cigarros. O grupo saiu caminhando pelas ruas do Vorstadt.

As câmeras não registraram o homicídio, mas captaram diferentes momentos anteriores ao crime. Os equipamentos funcionavam por detecção de movimento, por isso as gravações são espaçadas e não mostram todo o trajeto de forma contínua. Ainda assim, as imagens permitiram reconstruir parte da movimentação.

Murilo apareceu caminhando com os demais envolvidos. O grupo deu voltas pelas ruas próximas e manteve um comportamento aparentemente normal. Para a Polícia Civil, aquelas caminhadas não eram aleatórias: elas serviam para reconhecer o caminho, observar a movimentação no bairro e fazer Murilo acreditar que estava seguro.

Na última volta, quatro dos denunciados reduziram o ritmo dos passos. Murilo permaneceu à frente. Segundo a denúncia, esse afastamento foi proposital. A ideia era isolar a vítima e permitir a aproximação dos irmãos.

Os dois apareceram no trajeto e surpreenderam Murilo. Uma das denunciadas declarou que o jovem foi puxado e imobilizado antes dos disparos.

O homicídio ocorreu por volta de 1h59, na Rua Doutor Oswaldo Neves Espíndola, em frente ao número 250. Conforme a denúncia do Ministério Público, os dois irmãos atuaram juntos e efetuaram cinco disparos com um revólver Taurus calibre 38.

A versão inicial apresentada pela denunciada que monitorava a vítima apontava apenas um dos irmãos como responsável direto pelos tiros. O relatório final da Polícia Civil também o descreveu como executor e tratou o outro como mentor da ação. A denúncia do Ministério Público atribuiu a execução aos dois.

Grupo correu de volta às quitinetes

Depois dos disparos, os envolvidos correram em direção à Rua Alfredo Kaestner. Um morador ouviu os tiros e, ao sair de casa, encontrou Murilo caído. Ele não escutou carros ou motocicletas deixando o local, circunstância que indicava que os responsáveis haviam fugido a pé. Outro morador relatou ter visto pessoas retornando rapidamente em direção às quitinetes.

Um par de pantufas foi encontrado nas proximidades e recolhido como vestígio. A Polícia Científica também localizou o celular de Murilo próximo ao corpo.

A Polícia Militar foi acionada pelo Copom por volta de 1h59 e chegou ao local às 2h11. O óbito foi confirmado pelo Samu.

Durante as primeiras buscas, moradores indicaram que havia uma movimentação incomum em um conjunto de quitinetes na rua paralela. Quando os policiais se aproximaram do imóvel, ouviram conversas em tom elevado. Os ocupantes discutiam a contratação de carros por aplicativo e demonstravam nervosismo. Dois veículos chegaram para buscar passageiros com destino ao litoral.

Ao perceber a presença policial, parte do grupo tentou retornar para o interior da residência. Dentro de uma das quitinetes estavam três dos denunciados. Todos foram abordados e presos em flagrante. Uma delas afirmou que os policiais precisaram forçar a entrada no imóvel, versão apresentada por ela durante o interrogatório.

Três conseguiram fugir para Itajaí

Antes da chegada da polícia, os outros três deixaram Blumenau em um carro por aplicativo, um VW Fox prata. Um vizinho contou que viu uma mulher e dois homens entrando no carro logo depois do homicídio. A denunciada presa em flagrante também informou que os três haviam fugido e que levavam a arma usada no crime.

Ainda em 8 de junho, a Polícia Militar localizou os três em Itajaí, por volta das 16h10. Eles foram identificados como os passageiros do carro que saiu de Blumenau. Um deles foi identificado como foragido do sistema prisional.

Apesar das suspeitas, a autoridade policial que realizou o atendimento em Itajaí entendeu que não havia situação de flagrante naquele momento. Os três foram interrogados e os elementos recolhidos foram encaminhados ao inquérito de Blumenau. Mais dois celulares foram apreendidos.

Versões contraditórias

Os interrogatórios apresentaram versões diferentes sobre o que aconteceu. Um dos denunciados afirmou que Murilo teria se envolvido em uma briga espontânea com dois homens desconhecidos durante a caminhada para comprar cigarros. Para os investigadores, os supostos desconhecidos eram os dois irmãos. A Polícia Civil considerou a versão incompatível com as imagens, com os horários e com o relato da denunciada que monitorava a vítima.

O apontado como articulador declarou que estava dormindo e que soube do homicídio quando bateram à sua porta. Ele também afirmou que deixou Blumenau sozinho por medo. A declaração foi confrontada com os depoimentos dos outros dois que fugiram, que confirmaram a viagem conjunta até Itajaí. O relato do vizinho que viu dois homens e uma mulher entrando no carro também contradiz a versão.

A mulher que convidou Murilo afirmou que o chamou apenas para beber. A Polícia Civil sustenta que as mensagens demonstram que o convite fazia parte do plano.

Uma das denunciadas optou por permanecer em silêncio durante o interrogatório, direito garantido pela legislação. Os investigadores reconheceram que não foram encontradas mensagens diretas dela discutindo o homicídio. A acusação nesse caso se baseia na presença durante as caminhadas, no afastamento coordenado e na tentativa de fuga após os disparos.

Arma estava escondida no forro da cozinha

Durante as buscas na quitinete, a Polícia Civil encontrou um revólver Taurus calibre 38 escondido no forro da cozinha. O relatório informa que a comparação balística relacionou os projéteis recolhidos à arma encontrada. Esse resultado se tornou uma das principais provas materiais do inquérito.

O laudo da Polícia Científica registrou três projéteis no total. Um foi encontrado na rua, outro estava próximo à vítima e o terceiro foi localizado junto às roupas. A existência de três projéteis recuperados não contradiz a informação de cinco disparos apresentada na denúncia, já que nem todo projétil efetuado em uma ocorrência é localizado no cenário analisado.

A Polícia Científica também identificou uma marca semelhante à fuligem na roupa de Murilo. Segundo o perito, o vestígio indicava que pelo menos um disparo foi efetuado a curta distância.

A conclusão pericial confirmou que houve uma morte violenta provocada por outra pessoa. A definição da autoria foi construída posteriormente pela Polícia Civil a partir das imagens, dos celulares, dos depoimentos e do exame balístico.

A função atribuída a cada acusado

A investigação dividiu a atuação do grupo da seguinte maneira. Um dos irmãos é apontado como o articulador do plano: ele coordenou as conversas, orientou o monitoramento de Murilo, participou do reconhecimento do local e atuou na execução.

O outro irmão é apontado como executor direto. Ele morava na quitinete, participou da preparação e abordou Murilo junto com o articulador.

Uma das denunciadas monitorou a vítima, manteve o articulador informado e organizou os carros por aplicativo usados na fuga. Outra usou a confiança que Murilo depositava nela para convencê-lo a viajar até Blumenau.

Um quinto denunciado participou da vigilância, das caminhadas e da condução da vítima. A disputa pessoal com Murilo também é apontada como parte da motivação. A sexta ajudou a criar o ambiente de normalidade durante as caminhadas e acompanhou o afastamento que deixou Murilo isolado.

Essas são as conclusões da Polícia Civil e as acusações apresentadas pelo Ministério Público. A responsabilidade criminal de cada denunciado ainda será analisada pela Justiça.

Seis foram denunciados

O Ministério Público ofereceu denúncia contra seis pessoas: quatro homens e duas mulheres, entre eles os dois irmãos que ocupavam a quitinete. Todos foram acusados de homicídio qualificado por motivo torpe e traição.

O motivo torpe está relacionado à suspeita de que Murilo fosse informante policial e à intenção de preservar os interesses da organização criminosa. A qualificadora da traição foi atribuída ao uso da relação de confiança para atrair a vítima e deixá-la sem possibilidade de perceber a emboscada.

No encerramento do inquérito, a Polícia Civil também informou que os investigados foram indiciados por integração de organização criminosa e posse irregular de arma de fogo com numeração suprimida. O indiciamento feito pela polícia não se confunde com a denúncia do Ministério Público: na peça analisada, a Promotoria apresentou acusação específica pelo homicídio qualificado.

O MP pediu que os denunciados sejam citados, respondam ao processo e, ao final da primeira fase, sejam levados ao Tribunal do Júri. Também foi solicitada a fixação de uma indenização mínima de R$ 10 mil pelos danos morais causados à família de Murilo.

Na atualização divulgada em 15 de julho, a Polícia Civil informou que uma mulher apontada como responsável por atrair Murilo foi presa em Barra Velha. Outro mandado foi cumprido contra um investigado que já estava preso por um processo relacionado ao tráfico de drogas. Um sexto envolvido continuava foragido.

Os acusados têm direito à defesa e são considerados inocentes até uma eventual condenação definitiva. Não foram localizadas manifestações públicas das defesas sobre o conteúdo integral da denúncia. O espaço permanece aberto.

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