Logo Jornal Razão
Publicidade

“A vida do Manaf valeu R$ 16,2 mil”: familiares de gari morto desabafam após empresário bêbado ser solto em SC

Em entrevista à Rádio Cidade Em Dia, familiares de Abdul Manaf Inusah relataram que souberam da soltura do condutor ao voltar do enterro. A família afirma ter ouvido de testemunhas uma suposta tentativa de trocar o motorista no local e diz que só agora "a luta começa".

“A vida do Manaf valeu R$ 16,2 mil”: familiares de gari morto desabafam após empresário bêbado ser solto em SC
Foto: Reprodução
Publicidade

“A vida do Manaf valeu R$ 16,2 mil”: foi assim que a família de Abdul Manaf Inusah resumiu a revolta que tomou conta de todos depois de descobrir, ao chegar em casa do enterro, que o motorista preso por atropelar e matar o coletor de lixo ganês já estava solto. O trabalhador de 26 anos morreu durante a coleta na rua Vitória, no Centro de Içara, no Sul de Santa Catarina, atropelado por uma caminhonete cujo condutor, segundo a Polícia Militar, dirigia embriagado. O homem foi liberado após pagar fiança.

Em entrevista à Rádio Cidade Em Dia, o primo da vítima, Sumaila Mustafah, e a familiar Crislaine Mustafah relataram a dor de perder Abdul e a indignação com o desfecho. Sumaila contou que soube da morte de madrugada, pelo telefone.

Publicidade

“Eu estava dormindo, uma hora da madrugada. Daí um colega que trabalha junto com ele ligou pra mim. Falou: nosso irmão morreu. Falei: morreu como?”, lembrou.

A família pegou o carro e foi direto ao local, onde encontrou o colega de serviço e o próprio motorista. Foi ali, segundo o primo, que as testemunhas começaram a contar como tudo tinha acontecido.

Vídeo Rádio Cidade em Dia

“Eu sei que quando tu bebe, tu não pode dirigir. Mesmo sem intenção de matar, tu sabe que quando bebe não pode dirigir. Os caras que estavam no local disseram que, se ele tivesse segurado o freio, tudo bem. Mas ele nem segurou o freio, veio com tudo”, relatou Sumaila.

Publicidade

A família afirma ainda ter ouvido de mais de uma pessoa que o condutor teria tentado fugir logo após a batida. “A gente soube que, se o motorista do caminhão não segurasse o motorista do carro, ele iria fugir”, disse o primo. Segundo Crislaine, testemunhas também teriam relatado uma suposta tentativa de trocar o motorista embriagado por outra pessoa no local do acidente. A família afirma que já repassou essas informações aos advogados para que sejam investigadas pelas autoridades.

O golpe mais duro, porém, veio depois. A família soube da soltura do condutor ao voltar do velório e do enterro de Abdul.

“A gente chegou em casa e uma pessoa que ajuda a gente muito mandou a reportagem. A gente ficou sem chão. Tinha acabado de chegar do velório, do enterro. Só deu tempo de entrar em casa e tomar um banho, foi esse tempo, e a gente teve essa informação”, contou Crislaine.

A liberação aconteceu após audiência de custódia, com a Vara de Garantias da comarca de Criciúma concedendo liberdade provisória mediante fiança de dez salários mínimos, o equivalente a R$ 16,2 mil, além da suspensão do direito de dirigir por seis meses. Para a família, o valor soou como um preço colocado sobre a vida do trabalhador.

Publicidade

“A gente não se conforma. Então a vida do Manaf, que veio pra trabalhar, um guri novo de 26 anos, valeu R$ 16,2 mil? Hoje, se tu tem R$ 16,2 mil, tu pode matar uma pessoa e vai ficar livre”, desabafou.

Por trás da revolta, há uma história de sustento que atravessa dois continentes. Abdul havia deixado Gana em busca de uma vida melhor no Brasil. Casado e pai de um menino de 8 anos, ele trabalhava para sustentar a família e, poucas horas antes do acidente, tinha enviado dinheiro para ajudar a mãe no país de origem. “Um dia antes, ele tinha mandado meses de trabalho pra mãe dele. Horas antes da morte, na verdade”, relatou a familiar.

Contar à mãe, uma senhora de idade que se abalou muito, foi uma das partes mais difíceis. E a notícia da soltura tornou tudo pior. “Quando a gente soube que o motorista foi solto, não tinha coragem de falar pra família. O que a gente ia falar?”, disse Crislaine.

Diante da confusão, a comunidade ganesa se reuniu. A família contou que juntou os conterrâneos e levou os dois advogados que vão representar o caso para conversar com todos, porque muitos acreditavam que a soltura significava o fim do processo.

“Sentamos com os advogados e explicamos pra todo mundo entender que agora a luta só começa. A gente não vai deixar impune”, afirmou Sumaila.

O primo lembrou que, para a comunidade, esse não é um caso isolado. Ele citou outras mortes de imigrantes africanos que, segundo a família, ficaram sem resposta. “Já teve outro africano atropelado, não deu nada. Já teve uma mulher que veio da África ganhar bebê aqui, por um descuido caiu dentro do hospital, bateu a cabeça e morreu depois do parto. A gente vai deixando quieto. Só que isso a gente não vai deixar. Se for deixando quieto, quantos acidentes mais vão acontecer? Dessa vez a gente não vai se calar, a gente vai buscar justiça”, declarou.

Os familiares destacaram o apoio recebido da empresa onde Abdul trabalhava, mas lamentaram que, até o momento da entrevista, nenhum representante do motorista ou da família dele tenha procurado os parentes da vítima para prestar solidariedade. A Polícia Civil investiga o caso, e a família afirma que continuará acompanhando o processo e buscando a responsabilização do condutor.

Receba as notícias no WhatsAppEntrar
Publicidade
Publicidade
Grupo de WhatsApp · Tempo real

Santa Catarina no seu WhatsApp

Entre no grupo oficial do Jornal Razão. As principais manchetes do dia, direto no seu aparelho. Sem spam.

Entrar no grupo
+48 mil catarinenses já acompanham