“Ele já era um nome que circulava nos bastidores da investigação desde 2022”. A frase, dita por uma fonte que acompanhou o caso à época, descreve a primeira vez em que o autor do brutal estupro é assassinato da estudante Catarina Kasten apareceu no radar policial.
Não houve indiciamento, não houve responsabilização, e o processo acabou concluído por “falta de provas”. Agora, quase três anos depois, a morte brutal de Catarina expõe um passado que nunca foi esclarecido e que, se tivesse sido solucionado, talvez poderia ter tido outro desfecho.
A reportagem do Jornal Razão teve acesso a documentos, laudos periciais, diligências, depoimentos e ao relatório final do inquérito do crime de 2022, que investigou a violência cometida contra uma idosa no bairro Açores, no Sul de Florianópolis. A partir desse material, é possível reconstituir o que realmente aconteceu naquele início de ano, quando o agora autor confesso do homicídio de Catarina tinha apenas 17 anos.
“Ele batia minha cabeça no chão com muita violência. Eu senti o sangue escorrendo pela minha boca e pela minha roupa. Eu estava toda ensanguentada.”
O crime esquecido na casa dos Açores
No final da tarde de 4 de janeiro de 2022, a vítima estava em casa participando de uma chamada de vídeo com amigas. Era pouco antes das 18h quando ela percebeu uma movimentação rápida atrás de si, mas não identificou quem havia entrado. O agressor a atacou pelas costas. A derrubou no chão. A sufocou até deixá-la sem reação. E, conforme relatado no boletim de ocorrência, a estuprou enquanto ela tentava, sem sucesso, compreender o que estava acontecendo. A sessão durou cerca de 30 minutos, segundo a própria vítima. O agressor fugiu, deixando a casa revirada e marcas de sangue nas paredes e nos utensílios.

“Eu estava de olhos fechados quando senti uma coisa estranha no meu pescoço. A pessoa me sufocava, e eu acreditava que fosse morrer ali mesmo. Não vi se era corda ou braço. Só sentia a força apertando meu pescoço.”
Aquela residência, cercada por árvores e localizada em uma rua tranquila, recebia naquele dia jardineiros contratados para manutenção do quintal. O adolescente que hoje está preso pelo assassinato de Catarina fazia parte da equipe que prestava serviços no local. Nos depoimentos anexados ao inquérito obtido com exclusividade pelo Jornal Razão, tanto ele quanto um auxiliar aparecem citados e são ouvidos pela polícia, que tentou reconstruir a presença de cada um no terreno. Mas a defesa apresentada pelos investigados, aliada à ausência de testemunhas presenciais e à coleta incompleta de evidências, acabou encerrando o procedimento sem responsabilizações.
“A violência durou cerca de 30 minutos. Eu não tinha noção de tempo. Eu só tentava respirar. Em certo momento ele disse ‘não olha pra trás senão eu te mato’.”
O laudo da perícia criminal constatou manchas compatíveis com sangue na sala, na toalha da mesa e na parede. Uma corda encontrada no quintal foi analisada. Marcas de solo na cerca indicavam possível escalada. Mas, na ausência de um suspeito claro, o caso foi arquivado.

rua durante a janela crítica pós-crime.
A vítima, ainda em estado de choque, descreveu o agressor como “um homem jovem”, “de pele mais clara que a dela” e usando “roupas escuras e máscara”. A informação não foi suficiente para o indiciamento.
“Eu tentei me levantar como se fosse um ‘zumbi’. Meu corpo não respondia. Eu não enxergava direito. Eu só caminhava porque sabia que precisava sobreviver.”
Três anos depois, em 10 de julho de 2025, o inquérito foi formalmente concluído. O delegado responsável registrou que “não houve elementos suficientes para identificação do autor, apesar das diligências realizadas”. O caso ficou parado até esta semana, quando a confissão do abuso sexual e homicídio de Catarina reacendeu as suspeitas antigas e forçou uma resposta das autoridades.
A ponte entre 2022 e 2025
O nome de Catarina marcou um triste episódio da história de Florianópolis no dia 21 de novembro de 2025, quando saiu de casa para uma aula de natação. Ela nunca chegou ao destino. Câmeras de moradores mostraram o autor se escondendo atrás de uma lixeira minutos antes de ela passar pela trilha. Testemunhas o fotografaram seguindo turistas momentos antes. Ele confessou o crime: estuprou Catarina ainda com vida, estrangulou e arrastou o corpo para a mata.

Com a repercussão do caso e o início da investigação para entender o histórico do suspeito, as autoridades confirmaram à imprensa que ele havia sido investigado por um estupro quando era menor de idade. Trata-se exatamente do caso da idosa nos Açores.
Embora ele não tenha sido identificado como autor à época, documentos obtidos com exclusividade pelo Jornal Razão mostram que seu nome esteve presente em todos os pontos-chave: ele estava no local; tinha acesso direto à casa; trabalhou no dia dos fatos; e foi considerado formalmente como um possível envolvido.
A reabertura do caso agora se dá sob outra perspectiva. A narrativa construída nos bastidores da investigação de 2022, antes considerada insuficiente, volta para o centro da análise.

Depoimentos colhidos à época descrevem um jovem que tinha acesso facilitado ao imóvel e que, segundo colegas, circulava pelo terreno para buscar ferramentas e conectar equipamentos elétricos. A vítima relatou ter visto “uma mão branca desligando o celular” durante a chamada de vídeo instantes antes do ataque. Essa descrição reaparece em outro depoimento de 2022, prestado por uma testemunha que participava da live e que relatou a mesma “mão branca” surgindo na tela da vítima.
“Durante a live, minhas amigas viram uma mão branca desligando o telefone. Era a mão dele. Eu não faria ideia do que estava por acontecer.”
No laudo pericial do imóvel, peritos registraram marcas de solo na cerca frontal compatíveis com uma pessoa pulando o muro, além de um rastro que indicava possível tentativa de fuga rápida após o crime. Os profissionais coletaram impressões digitais que, por falta de correspondência, nunca geraram confronto positivo. Com a repercussão atual, esse material poderá ser novamente periciado.
A pergunta inevitável
A análise conjunta do caso de Catarina e da investigação de 2022 levanta questionamentos inevitáveis. A autoridade policial, em documento oficial, reconheceu que a investigação anterior teve “excesso de demanda” e “redução de efetivo”, fatores que dificultaram a conclusão do caso dentro do prazo legal. Agora, com a confissão do autor e com a reabertura do inquérito antigo, cresce a pressão sobre possíveis falhas que permitiram que o suposto adolescente estuprador de então seguisse sua vida sem qualquer restrição judicial ou acompanhamento.
Catarina, estudante brilhante e professora dedicada, perdeu a vida em um ataque que abalou Florianópolis. E, ao que tudo indica, esse não foi o primeiro ato de violência extrema cometido pelo autor. As duas histórias se encontram no mesmo bairro, nas mesmas trilhas e, agora, no mesmo inquérito ampliado. A investigação tenta responder se Catarina poderia estar viva caso o caso de 2022 tivesse resultado em outra decisão.
Para os moradores dos Açores, a reabertura do inquérito é um sinal tardio, mas necessário. Para a família de Catarina, é um capítulo doloroso em uma história ainda sem respostas completas. Para a Justiça, é o desafio de revisitar possível um erro que não pode se repetir.






















