O corpo estava de bruços numa estrada de chão que dá acesso a um plantio de eucalipto, embrenhado na mata, às margens da via. Uma das mãos tinha sido decepada. Da outra, restava apenas um dedo. No tórax, no peito, nas costas, nos braços e na cabeça, dezenas de perfurações feitas por instrumento perfurocortante. A cena, na comunidade Corredeira, em Campos Novos, no Meio-Oeste catarinense, território habitado por descendentes de quilombolas, tinha todos os indícios de uma execução com requintes de crueldade.
A vítima foi identificada pela perícia como Nicolas Ruan Souza da Silva, de 21 anos, conhecido dos órgãos de segurança, com passagens por tráfico de drogas e furtos.
A ocorrência chegou à Polícia Militar de forma arrastada, atravancada pela própria geografia do lugar. Uma moradora da região contou à guarnição que estava em casa quando um homem, que ela não conseguiu identificar nem descrever, apareceu em seu portão. O desconhecido disse que tinha encontrado um cadáver enquanto colhia pinhão, ali perto. Ela foi até o ponto indicado e confirmou: havia mesmo um corpo caído na mata.
O problema foi pedir socorro. A casa dela não tem sinal de telefonia nem energia elétrica, e a comunidade inteira é uma zona morta de comunicação. Para acionar a polícia, a moradora precisou caminhar até a residência mais próxima. O corpo teria sido avistado por volta das 14h, mas a Polícia Militar só conseguiu ser chamada lá pelas 18h. Foram cerca de quatro horas entre o achado e o pedido de ajuda.
Sem rádio e sem telefone
Quando a guarnição chegou ao ponto e confirmou o cadáver, a falta de comunicação no local seguiu atrapalhando. Sem telefone e sem rádio funcionando, foi preciso acionar a Polícia Civil e a Polícia Científica para que se deslocassem até a Corredeira. Ao local compareceram um agente da Polícia Civil e uma perita da Polícia Científica, que fizeram o levantamento fotográfico e os trabalhos periciais antes da remoção.
Foi a perícia que confirmou a identidade do morto. E o nome trazia uma história recente.
Indulto dias antes
Menos de uma semana antes de o corpo ser encontrado, a Justiça havia declarado extinta a punibilidade de Nicolas em um processo de execução penal que tramitava na Comarca de Campos Novos. A decisão, assinada em 26 de junho, reconheceu o indulto para parte de suas condenações e considerou cumprido o restante da pena.
O benefício veio do indulto natalino concedido pelo Decreto nº 12.790, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicado no Diário Oficial da União em 23 de dezembro de 2025. O indulto de Natal é uma tradição prevista na Constituição: na prática, significa o perdão da pena, permitindo ao preso ser libertado, e também pode resultar na extinção total da pena, conforme o que o decreto especifica. A cada ano, o governo debate os critérios de quem poderá acessar ou será excluído do benefício, e desde 2019 o Supremo Tribunal Federal entende que o presidente da República tem a atribuição constitucional de editar o indulto. Ou seja, todo fim de ano um novo decreto é publicado, e cabe a cada presidente definir quem entra e quem fica de fora.
No caso de Nicolas, somadas, as condenações chegavam a 1 ano, 4 meses e 25 dias de pena privativa de liberdade, por crimes como ameaça, dano, furto e desacato. Eram penas baixas, cumpridas em regime aberto desde o início. Parte delas, ligada a um contexto de violência doméstica, ficou de fora do indulto por ser considerada crime impeditivo, mas a magistrada entendeu que o tempo já cumprido era suficiente para extinguir também essas reprimendas.
Na prática, ele estava em liberdade e com as contas com a Justiça zeradas quando foi morto. As circunstâncias da execução, com a mutilação e o número de golpes, são o tipo de marca que costuma aparecer em acertos de conta. Mas, até o momento, nada nos elementos reunidos liga a morte ao processo que acabava de ser encerrado, e a motivação segue em aberto.
A Polícia Civil ficou responsável pela investigação do homicídio. Não há, por enquanto, suspeitos identificados nem informação sobre a dinâmica exata do crime. O caso segue sob apuração.
























