Ele me chamava de irmã.
A frase atribuída a Nataniele Fernanda Kroich ajuda a explicar por que Murilo Viana Cella aceitou o convite para viajar até Blumenau naquela noite.
Murilo tinha 18 anos, era natural de Brusque e morava em Balneário Camboriú. Nataniele, natural de Blumenau, era alguém em quem ele confiava. Segundo os depoimentos reunidos no inquérito, os dois já haviam morado juntos.
Quando ela o chamou para beber e encontrar amigos em uma quitinete no bairro Vorstadt, Murilo não teria percebido qualquer motivo para desconfiar.
ASSISTA AO RESUMO
A Polícia Civil afirma que esse vínculo foi usado para atraí-lo até uma emboscada planejada. No vocabulário usado pelo próprio grupo, o plano era uma “casinha”.
A expressão descreve uma armadilha na qual uma pessoa próxima mantém a vítima tranquila, conduz seus passos e a entrega aos responsáveis pelo ataque.
Depois de divulgar os primeiros detalhes do homicídio, o Jornal Razão analisou a denúncia do Ministério Público, o relatório da Divisão de Homicídios da DIC de Blumenau e o laudo produzido pela Polícia Científica.
Os documentos mostram uma sequência dividida em etapas. A trama teria começado três dias antes do crime, avançado por mensagens, passado pelo convite de uma pessoa de confiança e terminado com uma caminhada planejada pelas ruas do Vorstadt.
Primeira etapa: transformar a desconfiança em motivo para matar
A primeira movimentação registrada pela investigação ocorreu em 5 de junho de 2026.
Maria Eduarda Caetano Azevedo, natural de Itajaí e identificada nas conversas como “Duda”, enviou áudios para João Victor Pereira de Freitas, conhecido como “Alemão”.
Maria tinha proximidade com Murilo. Segundo a Polícia Civil, ela passou a observar o comportamento dele e transmitir informações a João Victor.
Nas mensagens, Maria afirmou que desconfiava de uma aproximação de Murilo com policiais.
Olha só, ele tá colando com verme.

No contexto das conversas, a palavra “verme” era usada como referência aos agentes de segurança.
A suspeita de que Murilo fosse informante passou a ser tratada como uma ameaça aos interesses do grupo. Conforme a denúncia do Ministério Público, os envolvidos seriam integrantes ou simpatizantes do Primeiro Grupo Catarinense, o PGC.
A investigação também identificou uma segunda motivação.
Murilo teria uma desavença com Matheus da Silva Costa, natural de Balneário Camboriú e conhecido como “Bagalhinho”. O conflito estaria relacionado a ciúmes envolvendo uma ex-namorada.

Segundo os relatos analisados, Murilo teria ameaçado Matheus e outras pessoas próximas dele. Para a Polícia Civil, o plano foi impulsionado pela soma desses fatores: a suspeita de colaboração com a polícia, a suposta ameaça contra Matheus e a intenção de João Victor de demonstrar autoridade dentro da facção.
Nenhuma dessas alegações contra Murilo foi julgada ou comprovada em processo próprio. Elas aparecem nos documentos como a justificativa usada pelo grupo para decidir pela morte do jovem.
Segunda etapa: tratar Murilo bem e tentar gravá-lo
A investigação afirma que João Victor assumiu o comando das conversas.
Em vez de mandar Maria se afastar, ele teria orientado o contrário. A jovem deveria permanecer próxima, conversar normalmente com Murilo e tentar obter alguma declaração.
Mais preciso dele falando algo tlgd.

A Polícia Civil interpretou esse trecho como uma tentativa de conseguir uma gravação que pudesse ser usada para justificar o crime diante de integrantes da facção.
Maria teria concordado em tratar Murilo bem para que ele não percebesse a movimentação.

As conversas mostram que a possibilidade de matá-lo passou a ser discutida diretamente. Em determinado momento, diante do receio manifestado por Maria, João Victor teria respondido:
Ele não vai ficar vivo, Maria. Calma.

Para os investigadores, essa frase demonstra que a decisão já havia sido tomada antes da viagem para Blumenau.
O relatório apresenta João Victor como o articulador. Ele teria coordenado o monitoramento, cobrado informações, discutido a participação dos demais e avaliado onde o crime poderia acontecer.

No dia 7 de junho, quando soube que Murilo pretendia passar por Balneário Piçarras antes de seguir para Blumenau, João Victor teria solicitado o endereço exato.
Segundo a Polícia Civil, a intenção era fazer contato com pessoas ligadas à facção naquela região. A possibilidade analisada seria matar Murilo antes mesmo da chegada a Blumenau.
O plano, porém, acabou mantido para o bairro Vorstadt.

Terceira etapa: usar a amiga que ele tratava como irmã
Com a decisão tomada, o grupo precisava convencer Murilo a ir voluntariamente para Blumenau.
É neste ponto que Nataniele aparece como uma das peças centrais da acusação.
Ela tinha proximidade com Murilo e era tratada por ele como irmã. Segundo os documentos, o jovem confiava nela e não esperava ser colocado em risco.

Nataniele entrou em contato e fez o convite. A justificativa era simples: beber e passar a noite com amigos.
Murilo aceitou.
Na noite de 7 de junho, ele deixou Balneário Camboriú e seguiu para Blumenau. Por volta das 23h30, chegou a uma quitinete na Rua Alfredo Kaestner.
O imóvel era ocupado havia poucas semanas pelos irmãos João Victor, o “Alemão”, e João Otávio Pereira de Freitas, conhecido como “Bodinho”. Os dois eram naturais de Itajaí.
No local também estavam Maria Eduarda, Nataniele, Matheus e Yasmim Silva de Oliveira, natural de Lages.
Para Murilo, aquele cenário reforçava a impressão de normalidade. Ele estava em uma residência, cercado por pessoas conhecidas e na companhia da amiga que o havia convidado.
Para a acusação, cada presença tinha uma função.
Nataniele havia atraído a vítima. Maria monitorava seus passos e mantinha João Victor informado. Matheus possuía a desavença pessoal. Yasmim ajudava a compor o ambiente de confraternização.
Os irmãos seriam responsáveis pela preparação final e pela execução.

Quarta etapa: reconhecer o local e preparar a fuga
As câmeras de segurança instaladas no bairro não registraram o momento do homicídio.
Os equipamentos funcionavam por detecção de movimento e produziram imagens espaçadas. Mesmo assim, os investigadores conseguiram reconstruir parte da movimentação.
Cerca de meia hora antes do crime, João Victor e João Otávio foram registrados próximos ao ponto escolhido para a emboscada.
Os irmãos pararam em uma esquina a poucos metros do lugar onde Murilo seria encontrado. Conversaram por alguns instantes e depois retornaram apressadamente para a região das quitinetes.
A Polícia Civil interpretou a movimentação como um reconhecimento prévio do local.
Enquanto isso, a fuga também era preparada.
João Victor teria orientado Maria a deixar pronto o pedido de um carro por aplicativo. O veículo seria usado assim que o grupo retornasse à quitinete.
Para a investigação, isso afasta a hipótese de uma briga inesperada. O local havia sido verificado e o transporte para deixar Blumenau já estava sendo organizado antes dos disparos.

Quinta etapa: transformar uma caminhada em armadilha
Com Murilo dentro da quitinete, o grupo precisava levá-lo para a rua sem despertar desconfiança.
Segundo um dos depoimentos, surgiu a proposta de ir até uma conveniência comprar cigarros.
Todos saíram caminhando.
As câmeras mostram Murilo acompanhado por integrantes do grupo. Eles deram voltas pelas ruas próximas e mantiveram um comportamento aparentemente normal.
Para a Polícia Civil, as caminhadas tinham uma finalidade.
O grupo estaria fazendo Murilo se acostumar com o trajeto, diminuindo a vigilância dele e criando a impressão de que não existia qualquer ameaça.
As imagens mostram que, antes do crime, todos caminhavam próximos.
Na última volta, a formação mudou.
Matheus, Maria Eduarda, Nataniele e Yasmim reduziram o ritmo. Murilo permaneceu à frente.
Segundo a denúncia, o afastamento foi deliberado. Os quatro teriam deixado a vítima isolada para permitir a aproximação dos irmãos.
João Victor e João Otávio teriam aparecido no trajeto e surpreendido Murilo.
Maria declarou que o jovem foi puxado e imobilizado antes dos disparos.
O homicídio ocorreu por volta de 1h59 do dia 8 de junho, na Rua Doutor Oswaldo Neves Espíndola, em frente ao número 250.
O Ministério Público sustenta que os dois irmãos atuaram em conjunto e efetuaram cinco disparos com um revólver Taurus calibre 38.
A versão inicial apresentada por Maria apontava João Otávio, o “Bodinho”, como responsável direto pelos tiros. O relatório policial também o descreve como executor e apresenta João Victor como articulador.
A denúncia do Ministério Público atribui a participação direta aos dois irmãos.
A definição sobre a conduta individual de cada um ainda dependerá da análise da Justiça.
Sexta etapa: correr para a quitinete e fugir por aplicativo
Depois do crime, os envolvidos retornaram em direção à Rua Alfredo Kaestner.
Moradores ouviram os disparos e viram pessoas correndo para a região das quitinetes.
Uma testemunha afirmou que não escutou carros ou motocicletas deixando o local naquele primeiro momento. Essa informação indicava que os responsáveis haviam fugido a pé e poderiam estar escondidos nas proximidades.
A Polícia Militar foi acionada e chegou ao endereço às 2h11. Murilo foi encontrado caído na rua e o óbito foi confirmado pelo Samu.
Durante as buscas, moradores relataram uma movimentação incomum em uma das quitinetes.
Quando os policiais se aproximaram, ouviram conversas em tom elevado. Os ocupantes discutiam a contratação de carros por aplicativo.
Dois veículos chegaram para buscar passageiros com destino ao litoral.
Segundo a investigação, uma parte do grupo conseguiu deixar Blumenau. Outra foi surpreendida durante a tentativa de fuga.
Três envolvidos foram presos em flagrante naquela madrugada. Os demais passaram a ser procurados no decorrer do inquérito.
Conforme a atualização repassada ao Jornal Razão, João Victor, o “Alemão”, estava entre os presos em flagrante. João Otávio, o “Bodinho”, seria o único envolvido que permanecia foragido.
Sétima etapa: os celulares, as câmeras e a arma escondida
O grupo conseguiu apagar parte dos rastros imediatos, mas deixou uma sequência de provas.
A primeira veio das câmeras.
Embora não tenham filmado os disparos, elas registraram o reconhecimento do local, as caminhadas, o afastamento de parte do grupo e o retorno em direção às quitinetes.
A segunda veio dos celulares.
Os aparelhos revelaram conversas iniciadas três dias antes, a suspeita contra Murilo, a orientação para mantê-lo por perto, a decisão de matá-lo e a preparação dos carros usados na fuga.

A terceira prova foi encontrada dentro da quitinete.
Durante as buscas, a Polícia Civil localizou um revólver Taurus calibre 38 escondido no forro da cozinha.
Segundo o relatório policial, a comparação balística relacionou os projéteis recolhidos à arma apreendida.
A Polícia Científica encontrou três projéteis no local. Um estava na rua, outro foi localizado próximo à vítima e o terceiro foi encontrado junto às roupas.
O laudo também registrou um vestígio indicando que pelo menos um disparo ocorreu a curta distância.
A conclusão da Polícia Científica confirmou uma morte violenta provocada por outra pessoa. A atribuição da autoria foi construída pela Polícia Civil com base nos demais elementos.
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Quem são os seis denunciados
Todos os acusados já eram maiores de 18 anos na data do crime e nasceram em Santa Catarina.
João Victor Pereira de Freitas, o “Alemão”, tinha 25 anos e é natural de Itajaí. A Polícia Civil o aponta como articulador do plano. Ele teria orientado o monitoramento, participado do reconhecimento e coordenado a fuga. O Ministério Público também atribui a ele participação direta na execução.
João Otávio Pereira de Freitas, o “Bodinho”, tinha 22 anos e também nasceu em Itajaí. Ele é apontado como executor direto e seria o único envolvido que permanece foragido.
Maria Eduarda Caetano Azevedo tinha 18 anos e é natural de Itajaí. Segundo a investigação, ela monitorou Murilo, manteve João Victor informado e organizou os carros usados na fuga.
Nataniele Fernanda Kroich tinha 20 anos e é natural de Blumenau. Ela teria usado a relação de confiança para convencer Murilo a viajar.
Matheus da Silva Costa tinha 21 anos e nasceu em Balneário Camboriú. Ele possuía a desavença pessoal com a vítima e teria participado da vigilância e da condução até o local da emboscada.
Yasmim Silva de Oliveira tinha 20 anos e é natural de Lages. A acusação sustenta que ela participou das caminhadas e ajudou a criar uma aparência de normalidade. A Polícia Civil reconheceu que não encontrou mensagens diretas dela discutindo o plano. Em interrogatório, Yasmim exerceu o direito ao silêncio.
Caso pode ser levado ao Tribunal do Júri
Os seis foram denunciados pelo Ministério Público por homicídio qualificado por motivo torpe e traição.
O motivo torpe estaria ligado à suspeita de que Murilo fosse informante e à intenção de preservar os interesses da organização criminosa.
A traição foi apontada porque os denunciados teriam usado a confiança da vítima para atraí-la e impedir que percebesse a emboscada.
A Polícia Civil também informou que os investigados foram indiciados por integração de organização criminosa e posse irregular de arma de fogo com numeração suprimida.
O Ministério Público pediu que eles sejam citados, respondam ao processo e, ao final da primeira fase, sejam submetidos ao Tribunal do Júri.
A Promotoria também solicitou a fixação de uma indenização mínima de R$ 10 mil para a família de Murilo.
Os documentos analisados não trazem uma decisão final da Justiça sobre a responsabilidade dos acusados.
Todos têm direito à defesa e são considerados inocentes até uma eventual condenação definitiva.






















