Três crianças pedalando e correndo pela orla, mochilas nas costas, fugindo de casa sem rumo certo. A cena, flagrada por câmeras de segurança de vizinhos na noite de sexta-feira em Itajaí, no Litoral Norte catarinense, mobilizou moradores e a Polícia Militar numa busca que terminou na praia, no trecho do Atalaia. Quando foram encontradas, as crianças fizeram um relato que mudou completamente o tom da ocorrência: elas não queriam voltar para casa.
Os três irmãos, de 8, 10 e 12 anos, contaram à Polícia Militar e ao Conselho Tutelar que sofriam castigos físicos do pai. Segundo o relato das crianças, os episódios aconteciam principalmente aos sábados, quando o pai aplicava questionários e exercícios de matemática, português e música. Quem não respondesse corretamente, diziam, era punido.
O relato das crianças
De acordo com o conselho tutelar, as crianças afirmaram que antes apanhavam de cinta, o que deixava marcas pelo corpo. Para não deixar vestígios visíveis, o pai teria passado a usar outro método: segurar a criança pelo pescoço e colocar a cabeça sob o chuveiro, com a boca fechada. Se abrisse a boca para respirar, engolia água. Um dos irmãos relatou ter passado por isso 14 vezes.
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Foi o medo de mais um sábado que motivou a fuga. Com receio de não saber tocar cavaquinho, resolver uma conta ou acertar uma questão de português, os três combinaram de sair. Um pegou a bicicleta, os outros dois foram atrás correndo, saindo da região da Rua Silva até chegar à orla, onde foram localizados.
Nas imagens registradas no momento em que foram encontrados, uma das crianças explica à equipe por que não queria ir para casa. Segundo o relato, o pai teria orientado por telefone que ficassem calados diante dos policiais, e a criança temia que, ao chegarem em casa, a situação de agressão se repetisse.
Uma família recém-chegada
A família é chilena e está há cerca de quatro meses em Itajaí. A mãe, que trabalha em um hospital da cidade, demorou a relatar o que acontecia dentro de casa. Conforme o conselho tutelar, ela temia denunciar por não conhecer as leis brasileiras e por acreditar em ameaças do companheiro, que teria dito a ela que, se o denunciasse, seria deportada e ficaria sem qualquer rede de apoio, sem moradia e sem sustento para os filhos.
O Conselho Tutelar informou à mãe que existe estrutura de acolhimento, que ela poderá continuar trabalhando e que as crianças serão matriculadas na escola. Segundo o conselho, os três estavam fora da rede de ensino, já que o pai não os levava às aulas. Além da violência física e psicológica relatada, o caso reúne indícios de violação do direito à educação.
O que sabemos até agora
- Três irmãos, de 8, 10 e 12 anos, fugiram de casa na noite de sexta-feira, na região da Rua Silva, em Itajaí.
- Foram encontrados na orla, no trecho do Atalaia, após mobilização de vizinhos e da Polícia Militar.
- As crianças relataram ao Conselho Tutelar e à PM que sofriam castigos físicos do pai.
- Mãe e crianças foram levadas juntas a uma casa de acolhimento, com apoio psicológico e pedagógico.
- Até o momento não houve prisão, por ausência de flagrante. O Conselho Tutelar apura o caso e deve representar contra o pai.
Mãe e filhos foram encaminhados juntos a uma casa de proteção, onde receberão acompanhamento psicológico e pedagógico e ficarão pelo tempo necessário. Com apoio de viaturas da Polícia Militar, a família ainda retornou à residência para retirar roupas e pertences pessoais. Até o momento, não houve prisão, uma vez que não houve flagrante. O Conselho Tutelar segue à frente da ocorrência e deve representar contra o pai junto às autoridades.























