Basta um tropeço num tapete solto, um piso molhado no banheiro ou um passo em falso no corredor mal iluminado. A queda, que parece bobagem, é hoje uma das ocorrências que mais ocupam as ambulâncias do SAMU em Santa Catarina, e a vítima, na maioria das vezes, é um idoso que caiu dentro da própria casa.
Entre janeiro e maio de 2026, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência registrou 7.325 atendimentos relacionados a quedas em todo o estado. O número levou a Secretaria de Estado da Saúde (SES) a reforçar o alerta à população às vésperas do Dia Mundial de Prevenção de Quedas, lembrado nesta quarta-feira (24).
A conta se concentra nas regiões mais populosas. A Grande Florianópolis lidera, com 1.658 ocorrências, seguida pelo Sul (1.410) e pela Foz do Rio Itajaí (1.350). As demais macrorregiões somaram 756 chamados no Vale do Itajaí, 695 no Extremo Oeste, 633 no Meio Oeste, 628 no Norte/Nordeste e 195 na Serra Catarinense.
O perfil desses chamados tem nome e endereço. A maior parte é de acidente doméstico, ligado à idade avançada ou a limitações de mobilidade. Segundo Marcos Fonseca, superintendente de Urgência e Emergência da SES/SC, residências com idosos ou pessoas com mobilidade reduzida precisam de adaptações simples para reduzir o risco.
“As quedas, em sua maioria, são acidentes domésticos e estão diretamente relacionadas à idade avançada ou a limitações de mobilidade decorrentes de lesões prévias. Por isso, residências com idosos ou pessoas com mobilidade reduzida precisam de adaptações simples, como retirar tapetes, instalar corrimãos e barras de apoio, adequar a altura de móveis e garantir boa iluminação”, afirma o superintendente.
E o risco não é pequeno
Fonseca alerta que uma queda da própria altura pode causar lesões neurológicas graves e fraturas importantes, como as de fêmur e bacia, justamente as que tiram a autonomia do idoso e podem deixá-lo acamado.
O volume de chamados também pesa sobre todo o sistema de saúde, não só sobre as ambulâncias. Conforme a coordenadora médica interina da Macrorregião Sul do SAMU, Dra. Mariane Ribeiro Cardoso, o aumento das quedas impacta diretamente a demanda das equipes e gera reflexos nos serviços hospitalares, que recebem as fraturas, os traumatismos cranianos e os sangramentos severos.
O retrato de 2026 confirma uma tendência preocupante. Em todo o ano de 2025, o estado contabilizou 17.703 atendimentos por queda. Desse total, 15.362 foram feitos por Unidades de Suporte Básico, 1.886 por Unidades de Suporte Avançado, 253 por Motolâncias e 202 pelo Serviço Aeromédico.
Por trás dos números está o envelhecimento da população catarinense. Em Santa Catarina, o grupo com 60 anos ou mais saltou de pouco mais de 702 mil pessoas (10,9% da população) em 2012 para cerca de 1,25 milhão em 2024, o equivalente a 15,6% dos habitantes, conforme dados do IBGE (PNAD Contínua 2024). A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 28% dos idosos sofram ao menos uma queda por ano.
“Sem dúvida, o envelhecimento da população é um ponto de atenção, pois o risco e a frequência das quedas são maiores nos extremos de idade”, observa Dra. Mariane, que reforça serem os ambientes domiciliares o cenário mais comum das quedas entre idosos.
Como evitar os acidentes
A SES recomenda a prática regular de atividades físicas, o acompanhamento médico e o uso correto de medicamentos, além de medidas dentro de casa: retirar tapetes soltos, instalar corrimãos e barras de apoio em banheiros e áreas escorregadias, e garantir boa iluminação nos ambientes.
A prevenção não se limita à terceira idade. Entre os mais jovens, boa parte das ocorrências está ligada ao ambiente de trabalho, o que torna fundamental o uso adequado dos equipamentos de proteção individual (EPIs).
E, se a queda acontecer, a orientação dos especialistas é clara: não mover a vítima, acionar o SAMU pelo telefone 192 e manter a calma até a chegada da equipe. Manter a pessoa imóvel até o socorro pode ser o que evita que uma fratura vire uma lesão permanente.






















