Pesa dois gramas, cabe na ponta dos dedos e foi colocado dentro do coração de uma paciente sem que fosse preciso abrir o peito. Foi esse dispositivo, pouco maior que uma cápsula, que colocou o Hospital Santa Isabel (HSI), em Blumenau, num capítulo novo da cardiologia catarinense. A instituição realizou o primeiro implante de marcapasso cardíaco sem fio da sua história, e também o primeiro do interior de Santa Catarina.
O aparelho é conhecido no meio médico como leadless, que em tradução livre significa “sem eletrodos”. A cirurgia foi conduzida pelo cirurgião cardíaco Eduardo Moeller Mota e representa a incorporação de uma das tecnologias mais modernas da medicina cardiovascular. Na prática, o procedimento amplia as opções de tratamento para pacientes com indicação específica de estimulação cardíaca e reforça a atuação do hospital em cirurgias de alta complexidade.
Sem fios, sem gerador
A diferença para o modelo tradicional está justamente no que o novo dispositivo não tem. O marcapasso convencional funciona com eletrodos, fios finos que levam o impulso elétrico até o músculo cardíaco, ligados a um gerador instalado sob a pele, na região do tórax. O leadless dispensa os dois. Ele é implantado diretamente dentro do coração por uma técnica minimamente invasiva, sem gerador aparente e sem a fiação que atravessa as veias.
E é aí que mora o ganho para quem está na mesa. Menos peças significa menos coisa que pode falhar.
“A ausência de eletrodos reduz o risco de infecções e de complicações mecânicas relacionadas aos fios, além de proporcionar uma recuperação mais rápida e maior conforto ao paciente. O dispositivo utilizado nesta cirurgia foi o Medtronic MICRA, que pesa apenas dois gramas, cerca de 25 vezes menos que um sistema convencional”, explica o cirurgião cardíaco Eduardo Moeller Mota.
O número dá a dimensão do salto. Um marcapasso tradicional, com gerador e eletrodos, é um conjunto que o paciente carrega sob a pele e sente. O MICRA é uma peça única, minúscula, que se fixa dentro da câmara cardíaca e some do campo de visão de quem o recebe.
Paciente acompanhada há 15 anos
A paciente atendida em Blumenau não é uma desconhecida do serviço de cardiologia do hospital. O cirurgião cardíaco Newton José Martins Mota, que a acompanha há mais de 15 anos, destaca que a tecnologia representa mais uma alternativa para casos específicos na cardiologia.
“A tecnologia leadless amplia as opções terapêuticas para pacientes com indicação específica de estimulação cardíaca, oferecendo um procedimento seguro, eficaz e menos invasivo, com excelentes resultados clínicos”, afirma Newton José Martins Mota.
A ressalva importa. O leadless não substitui o marcapasso convencional em todos os casos, e nenhum dos dois médicos afirma isso. A tecnologia entra como opção para pacientes com indicação específica, ampliando o cardápio terapêutico em vez de aposentar o que já existia. Em mais de meio século, a estimulação cardíaca teve poucas mudanças estruturais desse tamanho.
O que muda para o Vale
Para Blumenau e para o Vale do Itajaí, o significado é geográfico antes de ser técnico. Procedimentos desse nível costumam se concentrar na capital e nos grandes centros, e o paciente do interior precisa se deslocar, com tudo que isso implica de custo, tempo e desgaste para a família. Ter a tecnologia disponível no Vale encurta essa distância.
O Hospital Santa Isabel afirma que a chegada da tecnologia reforça seu investimento em inovação e amplia o acesso da população a tratamentos alinhados às principais práticas da medicina cardiovascular. O primeiro implante de marcapasso cardíaco sem fio realizado no interior catarinense passa a integrar esse avanço.

























