Bastou uma participação de podcast pra transformar o deputado federal Zé Trovão (PL-SC) no nome mais malfalado do Planalto Norte catarinense nesta semana. Sentado entre o prefeito de São Bento do Sul, Antônio Tomazini (União Brasil), e o vereador Marcelo Quost (PL), o parlamentar partiu para o ataque verbal contra o vice-prefeito da cidade, o médico cardiologista Tirso Hümmelgen, e ainda soltou uma frase sobre servidoras públicas que o sindicato da categoria classificou como machista. O vídeo viralizou e a revolta não parou mais de crescer.
A cena foi gravada no dia 2 de julho, durante o Quintow Podcast, em São Bento do Sul. Em determinado momento, Zé Trovão ressuscitou uma antiga desavença política: Tirso teria se recusado, no passado, a assumir interinamente a prefeitura para abrir caminho a uma manobra eleitoral do grupo. Foi aí que o deputado disparou o que mais repercutiu.
“Político de merda”
Nas imagens que circulam nas redes, o parlamentar chama o vice-prefeito de “covarde” e vai além. “É um político de merda que só pensa no que ganha, porque está muito bem onde está, ganhando para não fazer porra nenhuma”, afirmou, para visível constrangimento de Tomazini e Quost, que estavam ao seu lado.
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O peso do ataque tem a ver com quem é o alvo. Tirso Hümmelgen não é um nome qualquer na região: médico cardiologista, integra a equipe da UTI do Hospital e Maternidade Sagrada Família, onde atende diariamente pacientes em estado grave. É apontado como uma das principais lideranças que elegeram o próprio Tomazini, e é filiado ao União Brasil, o mesmo partido do prefeito.
A fala sobre “lingerie”
No mesmo podcast, Zé Trovão comentou a insatisfação das servidoras municipais com uma mudança recente no vale-alimentação. O benefício, que antes era pago em dinheiro e podia ser usado livremente, passou a ser concedido apenas por cartão eletrônico, que funciona só em estabelecimentos credenciados do setor alimentício, como supermercados, mercados e padarias. A categoria reclama de ter perdido a liberdade sobre o próprio benefício.
Ao comentar essa insatisfação, o deputado teria dito que as servidoras estariam reclamando porque agora teriam que gastar o vale “em alimentação” e não “em lingerie”. A fala é atribuída ao parlamentar na nota oficial do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de São Bento do Sul e Região, que registrou a declaração publicamente.
A nota de repúdio
O sindicato publicou nota de repúdio classificando a declaração como ofensiva e machista, e exigiu retratação pública. Para a entidade, a fala desrespeita as servidoras e banaliza uma reivindicação legítima da categoria.
São mulheres que sustentam, com trabalho sério e comprometido, serviços públicos indispensáveis à comunidade. Não podem ser tratadas com deboche, ironia ou insinuações de cunho machista.
A nota não parou no deputado. A entidade também cobrou o prefeito Antônio Tomazini e o vereador Marcelo Quost, que estavam ao lado dele e, segundo o sindicato, não se manifestaram diante da declaração e ainda teriam reagido com risos à situação.
A reação em cadeia
A defesa de Tirso veio de vários lados. A filha do vice-prefeito se pronunciou publicamente, pediu respeito ao pai e declarou que Zé Trovão não terá o voto do povo de São Bento. O União Brasil de Santa Catarina, por meio do presidente estadual, deputado federal Fábio Schiochet, divulgou nota repudiando a fala e defendendo o filiado.
O ex-prefeito de Três Barras e pré-candidato a deputado federal Elói Quege (MDB) também entrou na disputa, dizendo que o ataque atinge simbolicamente todo o Planalto Norte.
Quem conhece o Tirso sabe que ele não foi merecedor de uma situação de agressão e de ataque como a que aconteceu.
O pano de fundo eleitoral
A leitura política é inevitável, e é o pano de fundo de tudo. O episódio explode em plena largada da disputa de 2026, e a crítica que ecoa entre as lideranças regionais é a de que Zé Trovão, ligado a Joinville, estaria desconectado da identidade do Planalto Norte, uma região que historicamente cobra mais representatividade no cenário estadual e federal. O que começou como um bate-boca de podcast virou combustível para um discurso regional contra o parlamentar.
Pressionado pela repercussão negativa, o deputado tentou se defender. No fim de semana, publicou um vídeo nas redes sociais em que atribui as críticas a uma articulação da esquerda e do centrão, e afirmou que “não ataquei a pessoa do Tirso”. A justificativa, no entanto, não esfriou o caso, e a onda de manifestações de lideranças da região seguiu crescendo ao longo dos primeiros dias de julho.
Até o momento, não há registro de retratação formal de Zé Trovão à categoria dos servidores, nem manifestação pública do prefeito Antônio Tomazini ou do vereador Marcelo Quost sobre a cobrança feita pelo sindicato.

























