Jean Pirola chegou ao estúdio do Jornal Razão com uma missão declarada: transformar quatro mandatos de vereador em Brusque numa cadeira na Câmara dos Deputados. Progressista de primeira e única filiação, afilhado político do senador Esperidião Amin, o parlamentar do PP se apresentou como pré-candidato a deputado federal e fincou a bandeira que pretende levar a Brasília, o que definiu como “protagonismo regional” para o Vale do Rio Tijucas e o Vale do Itajaí-Mirim.
Na conversa, gravada no formato de podcast batizado no ato de “De Frente com o Lorran”, Pirola declarou apoio a Amin para o Senado e a Jorginho Mello para o governo, rebateu adversários do PT sobre a fama de Santa Catarina como recordista de prefeitos presos, saiu em defesa do empresário Luciano Hang e resumiu a tese da campanha em uma frase: a microrregião “senta na segunda fileira” e precisa de representação própria em Florianópolis e em Brasília.
O tom nacional foi anti-PT do começo ao fim. “Nós vamos apoiar quem for contra o PT aqui na nossa essência”, afirmou, ao explicar como pretende costurar apoios estaduais e federais.
Do azarão ao afilhado de Amin
Vereador em quarto mandato consecutivo, Pirola faz questão de se colocar na órbita do padrinho. “A gente brinca, né, sou afilhado do Esperidião Amin, que é um senador fantástico”, disse, atribuindo ao parlamentar uma “índole ilibada” e sustentando que, se todos tivessem o mesmo currículo, “talvez o Brasil seria diferente, principalmente no respeito que o STF teria com o nosso país”.
Ele conta ter começado como “azarão”. Elegeu-se vereador pela primeira vez na disputa de reeleição do então prefeito, que havia sido seu professor, em uma votação que, na versão dele, ninguém esperava. “Azarão, ninguém esperava que eu me elegesse, muito menos o prefeito”, lembrou. Hoje, afirma, a base em Brusque caminha junto com o PL, partido do prefeito e do vice, Deco.
“O melhor senador do Brasil é catarinense”
No tabuleiro estadual, o vereador declarou apoio a Jorginho Mello para o governo e a Amin para o Senado. Creditou ao atual governador investimentos em Brusque, como a Beira-Rio, a rodovia e o trevo de acesso à BR-101, e não economizou elogios ao senador.
O melhor senador do Brasil é catarinense.
O entrevistador ponderou que o próprio Amin usa o bairrismo catarinense como argumento de campanha contra Carlos Bolsonaro, que não nasceu no Estado, e classificou parte desse discurso como “um pouquinho de hipocrisia”: o orgulho de ser daqui que convive com o voto em nomes de fora. Pirola discordou de que a origem de Carlos atrapalhe. Disse ter escolhido Amin como primeiro voto e deixou o segundo em aberto, “pode ser no Carlos, pode ser na Detoni”, condicionando a decisão a não haver risco de a esquerda disputar uma das vagas.
Prefeitos presos: “aqui a Justiça faz valer”
Questionado sobre a fama de Santa Catarina como recordista de prefeitos presos, o vereador rejeitou a leitura de política corrupta e inverteu o argumento. “Não é política corrupta, é que aqui a Justiça faz valer. A investigação vai a fundo”, disse, tratando apreensões e bloqueios de bens como resultado natural de investigações que funcionam, “coisas que nós não vemos em outros locais”.
O apresentador trouxe o contraditório, citando um vídeo recente em que o deputado Décio Lima teria dito que o bolsonarismo, o PL e Jorginho Mello “contaminaram” a política catarinense, explicando assim o número de prefeitos afastados. Diante da comparação, Pirola concordou “mais ou menos”, mas fez uma ressalva que virou uma das frases da entrevista.
Nós não temos político de estimação. E a gente não tem que passar a mão na cabeça. Se ele foi corrupto e cometeu o ato, que seja julgado, e se for condenado, que pague a sua pena.
Ele lembrou que a própria legenda já teve gente presa e disse não fazer distinção nesses casos.
A ruptura com o PT e a conta das enchentes
Confrontado com o fato de Brusque já ter sido governada pelo PT, inclusive com apoio dele na reeleição, o vereador reconheceu que o petista “fez um bom trabalho como prefeito no primeiro mandato”, mas disse ter rompido logo depois. Na versão de Pirola, a relação com o Legislativo azedou em menos de dois meses por falta de respeito em reuniões. “Nem meu pai levantou a voz comigo. Quem dera alguém que foi eleito igual eu”, afirmou. Ele diz ter apoiado a cassação do prefeito, que teria sido, segundo ele, o primeiro cassado na história de Brusque, por propaganda extemporânea com obra pública.
O vereador responsabiliza a gestão petista pela lentidão da Beira-Rio e afirma que a obra, se tivesse avançado, teria poupado a cidade de enxurradas. Segundo ele, nas últimas cheias a margem direita concluída depois fez o rio “deixar de subir um metro e meio, dois metros”. Como alfinetada, contou que a única via aberta pelo ex-prefeito virou piada local, apelidada de “avenida” de cerca de 15 metros na praça central. Provocado de que “tudo é narrativa” e que o adversário contaria outra versão, concordou: “Ah, sim, com certeza”. O Jornal Razão registrou a intenção de promover um debate direto entre os dois lados.
A defesa de Luciano Hang
Pirola disse ter assistido à entrevista do ex-prefeito Paulo Eccel ao próprio Jornal Razão e rebateu a acusação de xenofobia contra Santa Catarina. “Que vergonha isso pro nosso Estado”, reagiu, alegando que o Estado recebeu “mais de 350 mil migrantes da região Norte e Nordeste” pela demanda de mão de obra. Para ele, a queda no turismo não tem a ver com política, e sim com economia. “A cada 20 dias nós temos um imposto novo no Brasil”, disse, questionando qual segurança uma família teria para gastar 10 a 20 mil reais em dez dias de litoral.
O vereador também citou empresas brasileiras migrando para o Paraguai, entre elas uma visita recente de Luciano Hang ao país vizinho. O entrevistador cobrou coerência, ao lembrar que o dono da Havan já havia dito que fecharia lojas se o PT vencesse e, ainda assim, seguiu abrindo unidades. Pirola exaltou a coragem do empresário, a quem classificou como “um patriota ao extremo”, condenado a oito anos de inelegibilidade no que chamou de “condenação política” e alvo de “perseguição da esquerda”.
A conta das cadeiras em Brasília
Sobre como se elege deputado federal numa cidade com outras candidaturas em disputa, o vereador garantiu que há espaço e apresentou a base eleitoral. Brusque tem 101 mil eleitores; somada a Guabiruba, Botuverá, Nova Trento, São João Batista, Canelinha e Tijucas, a conta passa de 200 mil; agregando Gaspar, Ilhota e Itajaí, chega a quase 400 mil. Filiado à federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, ele projeta que a legenda elege duas cadeiras e briga por uma terceira na sobra, caso ultrapasse 450 mil votos.
Os nomes já postos, segundo ele, são Zé Milton, do PP, e o deputado federal Fábio Schiochet, do União Brasil. Pirola se coloca como possível terceira cadeira ou, na pior hipótese, primeiro suplente, cenário que melhoraria caso Schiochet assumisse um ministério. Ele descreveu ainda uma “dobradinha” com o vice-prefeito Deco, do PL, um mirando a Assembleia e outro o Congresso, e citou como reforço regional o apoio do ex-deputado Serafim Venzon.
“Sentamos na segunda fileira”
O eixo do discurso é a queixa de que a microrregião não tem representação própria. “Hoje, a gente não é protagonista. Nem o Vale do Rio Tijucas, nem o Vale do Rio Itajaí-Mirim”, afirmou. Pela conta dele, um deputado federal movimenta de 45 a 100 milhões de reais em emendas por ano e um estadual, de 25 a 30 milhões; regionalizar metade disso, diz, dobraria o que a região recebe hoje. Ele criticou emendas insuficientes que travam obras: “Deputado trouxe uma emenda de 200 mil pra fazer uma rua, mas ela custa um milhão. Quem vai pagar os outros 800?”.
Como exemplos concretos, apontou a dependência de Brusque em relação à regional de Blumenau para serviços como Celesc, Bombeiros, Polícia Militar e Samu, o que faria uma empresa esperar de seis a sete meses por um transformador de energia. Defendeu uma regional própria em Brusque, a Barragem de Botuverá para conter enxurradas, um consórcio de tratamento de esgoto de Tijucas a Nova Trento e obras viárias. “A 401 aqui precisa urgentemente de uma terceira faixa”, disse, comparando os cerca de 15 minutos entre Brusque e Itajaí, em trecho duplicado, à hora e meia gasta até Blumenau ou Tijucas. O Jornal Razão deixou um pré-convite para que o vereador volte a detalhar propostas após a confirmação da candidatura, respeitando o período eleitoral.
























