Tijucas aprovou um empréstimo multimilionário para investir no saneamento da cidade em setembro de 2023, às vésperas do início do último ano da gestão Eloi Mariano Rocha.
A Câmara de Vereadores aprovou a lei. O ex-prefeito sancionou. A previsão era ampliar a estação de tratamento de água na Itinga, implantar uma nova adutora de 400 milímetros ligando a Itinga ao Centro, construir um novo reservatório com capacidade para 2 milhões de litros e fazer melhorias na Estação de Tratamento de Esgoto, no bairro Sul do Rio. O banco escolhido para a operação foi o BRDE — Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul. O valor: R$ 20 milhões.
Quase três anos depois, Tijucas quer saber: onde foi parar esse dinheiro?
A resposta é simples. Não foi parar. O dinheiro nunca chegou às obras. O empréstimo autorizado pela Lei nº 2995/2023 nunca virou estação ampliada, adutora nova, reservatório ou estação de tratamento de esgoto reformada. Por razões que ainda não foram explicadas publicamente, o que foi autorizado pela Câmara e sancionado pelo prefeito não saiu do papel.
Sem esses investimentos, a cidade praticamente dobrou de tamanho e ficou sem estrutura para acompanhar. Segundo dados do IBGE, Tijucas saiu de 30.960 habitantes em 2010 para 58.695 em 2025 — um salto de quase 90% em 15 anos, que coloca o município entre os dez que mais cresceram proporcionalmente em Santa Catarina no último ano. Em consequência, Tijucas luta contra o tempo para conseguir fazer a água chegar com qualidade e força nas casas de todos.
Quando a conta chegou
A primeira fatura dessa conta começou a chegar em janeiro de 2025. Em apenas dois meses, foram 13 rompimentos na adutora principal de Tijucas, uma tubulação de 300 milímetros com cerca de 30 anos de uso — a mesma que o financiamento de 2023 previa substituir. Sete rupturas em janeiro. Seis em fevereiro. Bairros inteiros sem água por dias seguidos.
No dia 9 de março de 2025, com 14 falhas registradas no ano e a cidade no limite, o prefeito Maickon Sgrott assinou o Decreto nº 2535 e colocou Tijucas em estado de emergência hídrica. Foi a forma encontrada para liberar contratações rápidas e dar conta de uma estrutura que estava ruindo na frente da gestão.
A reconstrução às pressas
Em junho de 2025, o SAMAE passou por uma reestruturação. Assumiu o comando o engenheiro sanitarista Tiago Suckow Guimarães.
A nova gestão encontrou uma estrutura sem sistema de monitoramento, sem telemetria, sem instrumentação. O controle do nível dos reservatórios da ETA Itinga era feito por leitura visual em régua graduada. O plantão noturno funcionava com telefone na mão de servidor, sem geração formal de ordem de serviço. As perdas do sistema eram estimadas entre 30% e 40% de toda a água tratada.
A partir desse ponto, o SAMAE começou a fazer — em regime emergencial, com recursos próprios e parcerias — o que o empréstimo de 2023 já deveria ter feito anos antes.
Em julho de 2025, foi instalada uma motobomba de 100 litros por segundo e 250 cavalos no Rio Tijucas, no Jardim Progresso, para reforçar a captação. Entre agosto e setembro, começou a operar a plataforma Vectora de monitoramento de pressão na rede, que hoje conta com 12 pontos e atualização a cada 30 minutos.
No final de 2025, foi concluída a estrutura do reservatório dos Areias, que entrou em operação definitiva em fevereiro de 2026 com instrumentação completa. Em março de 2026, começou a substituição de 1,6 quilômetro da adutora antiga por uma nova tubulação de 500 milímetros. A previsão de conclusão é para o final de junho.
Em paralelo, o SAMAE concluiu a fase final de modernização da própria ETA Itinga. A estação ganhou instrumentação para vazão e nível, deixou de depender da leitura manual em régua graduada e recebeu uma nova bomba na captação da Cachoeira. A ampliação da ETA Itinga era, justamente, uma das quatro obras previstas no empréstimo de 2023.
A lista segue. Booster novo na Avenida Emília Ramos em fase final de instalação, com testes previstos para esta semana. Ampliação do booster da Joaia, que sai de 100 para 150 cavalos. Reservatórios novos no Bosque da Mata e no Jardim Progresso, com 70 mil litros cada. Projeto de uma nova ETA, com previsão de dobrar a produção atual de água tratada.
A pergunta sem resposta
Cada uma dessas obras tem um custo. Parte delas estava prevista, em alguma medida, no projeto que justificou o empréstimo aprovado em 2023 — a modernização da ETA, a nova adutora, um reservatório de grande porte. Três dos quatro itens daquele pacote têm hoje alguma obra equivalente em andamento pelo SAMAE, feita às pressas, com recursos diferentes e em pleno cenário de emergência.
A quarta obra prevista — as melhorias na Estação de Tratamento de Esgoto do Sul do Rio — segue sem registro de obra correspondente. O reservatório de 2 milhões de litros, que era a peça mais expressiva do pacote em capacidade de reservação, também não tem equivalente direto: os reservatórios novos do Bosque da Mata e do Jardim Progresso somam 140 mil litros, e o reservatório do Santa Helena, de 1 milhão de litros, virá como contrapartida de um empreendimento privado — não com dinheiro público.
Tijucas hoje paga, com obras emergenciais e com bairros que ainda sofrem com falta d’água, o preço do que não foi feito quando deveria ter sido feito. E segue sem resposta a pergunta que abre essa história: por que o empréstimo de R$ 20 milhões, autorizado pela Câmara de Vereadores e sancionado pelo então prefeito Eloi Mariano Rocha, nunca saiu do papel?
























