Petista, ex-prefeito de Brusque e professor de direito processual civil, Paulo Eccel chegou à sede do Jornal Razão, em Tijucas, para um debate longo e sem anestesia sobre a política catarinense. Ele, que diz completar 40 anos de Partido dos Trabalhadores, confirmou a intenção de disputar uma vaga na Assembleia Legislativa de Santa Catarina em 2026 e, ao longo da conversa, transformou quase cada pergunta num embate: acusou o governador Jorginho Melo de praticar “a antipolítica”, chamou o 8 de Janeiro de “quebradeira e tentativa de golpe”, classificou o juro alto como “agiotagem institucionalizada” e cravou que o Estado vive uma das melhores fases da sua história.
O currículo é a base de quase todos os argumentos. Eccel foi prefeito de Brusque por duas vezes, deputado estadual eleito em 2002, coordenou a campanha de reeleição de Dilma Rousseff em Santa Catarina em 2014 e, nos últimos três anos, comandou a Superintendência do Ministério do Trabalho e Emprego no Estado. “A política, quando exercida de maneira decente, ela melhora a vida das pessoas”, resumiu, ao definir o ofício.
O tom mais duro recaiu sobre Jorginho Melo, com quem foi colega de Assembleia a partir de 2002. Segundo o pré-candidato, o Jorginho de duas décadas atrás era “uma criatura de fino trato, do diálogo”, que se relacionava com todos os governos e chegou a apoiar Dilma. Na versão de Eccel, esse político desapareceu.
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Eu não sei se o personagem Jorginho Melo é o atual ou é aquele que eu conheci há 23 anos, porque são duas criaturas distintas.
A acusação central é institucional: ele afirma que Lula já esteve quatro vezes em Santa Catarina e que houve “quase 30” idas de ministros ao Estado no período, sem que o governador comparecesse a nenhuma. Para ele, recusar o “cerimonial do cargo” é a própria antipolítica.
O entrevistador contrapôs que talvez não tenha sido Jorginho quem mudou, mas a própria política, e que o próprio Lula estimularia a polarização ao dizer que “eleição é tempo de guerra”. Eccel devolveu insistindo numa definição: “A política, na sua grande acepção, é a arte da busca, através do diálogo, da construção de consensos. Como é que eu vou construir consenso se eu não dialogo?” Para sustentar, recorreu à trajetória em Brusque, onde diz ter sido eleito prefeito pela primeira vez com o PT e metade do PP e, na reeleição, já com dez partidos na base. “As pessoas perceberam que eu não era bicho-papão, que o PT dialoga”, afirmou.
O PÊNDULO CATARINENSE
O pré-candidato descreveu a política catarinense como um pêndulo entre esquerda e direita, com uma massa de eleitores que oscila. Lembrou que Santa Catarina foi o estado que mais votou em Lula em 2002 e depois deu a Jair Bolsonaro uma das melhores votações per capita do país. O exemplo escolhido foi o pré-candidato ao governo Gelson Merísio, que segundo Eccel foi de direita até 2018 e hoje integra uma aliança de centro-esquerda ao lado de Lula, pelo PSB. “O Gelson não é a esquerda”, ressalvou, situando-o no centro, e projetou crescimento para o PT no Estado: passar de quatro para seis ou sete deputados estaduais.
Provocado sobre o ciclo que hoje mantém Bolsonaro na cadeia após ter tido Lula preso, Eccel separou os dois casos. Sobre a Lava Jato, criticou o rito, citando a condução coercitiva de Lula: “Isso não existe em lugar nenhum do planeta, o procedimento foi errado.” Pressionado a dizer se, além do abuso, houve corrupção, não recuou: “Teve excessos, lógico que teve excessos, mas houve corrupção, várias corrupções que foram comprovadas, inclusive as pessoas tiveram que devolver os bens, dinheiro e joias.” O entrevistador contrapôs que o STF, em especial Dias Toffoli, também derrubou multas e acordos bilionários “na caneta”.
STF E 8 DE JANEIRO
Sobre o Supremo, Eccel foi enfático em dizer que não põe a mão no fogo pela Corte. “O STF precisa, sim, de uma rediscussão no nosso país”, afirmou, defendendo mandato para os ministros no lugar da permanência até os 75 anos e o fim da possibilidade de advogar para empresas após deixar o cargo. Negou, porém, estar justificando abusos: “Não justifica nenhum tipo de abuso, nem de um lado, nem de outro.” Disse ser contra impeachment de ministro por motivação ideológica e a favor apenas “quando o ministro rouba, quando o ministro vende sentença”.
Questionado diretamente se o 8 de Janeiro foi quebradeira ou tentativa de golpe, respondeu: “Foi os dois.” Na avaliação dele, quem depredou o patrimônio acreditava estar “destituindo o regime” e esperava que os militares assumissem, pessoas que classificou como “induzidas” e “financiadas” por quem foi “o cérebro dessa operação”. Sobre a competência do STF para julgar os atos, argumentou que não se tratava de foro privilegiado, mas de um ataque “ao centro dos três poderes”, de alcance nacional, o que inviabilizaria o julgamento por um juiz de primeira instância de Tijucas, Tubarão ou Blumenau.
“ISSO É CRISE?”
Foi ao tratar da economia que Eccel cravou o ângulo que mais deve incomodar a direita. Sobre a ideia de que Santa Catarina “não sabe votar”, deslocou o foco para a imagem do Estado e cobrou uma fatura econômica. Para ele, o rótulo de “estado bolsonarista” não parte da esquerda, mas dos próprios bolsonaristas, “deputados e senadores que nos seus videozinhos se orgulham disso, muitas vezes com xenofobia, querendo que o nordestino não venha pra cá”. A consequência, na versão dele, apareceu no verão passado: “Balneário Camboriú sobrou apartamento pra alugar, não teve aquele público todo que esperava”, disse, apontando que o mesmo teria ocorrido em Florianópolis.
Contestado sobre se a queda de turistas não seria efeito da economia nacional, Eccel afirmou o oposto. “Nós estamos vivendo, do ponto de vista econômico, uma das melhores fases da nossa história”, disse, apontando o desemprego catarinense na faixa de 2,5% e as placas de “contrata-se” espalhadas pelas cidades. “Isso é crise? O trabalhador catarinense está se dando ao luxo de escolher onde quer trabalhar”, provocou, rejeitando o que chamou de “narrativa da extrema-direita” de um país mergulhado no caos.
O maior vilão da economia, na visão do pré-candidato, é a taxa de juros, que classificou como “agiotagem institucionalizada”. Ele atribuiu o problema à independência do Banco Central, que chamou de “uma política de extrema-direita” a fazer “o jogo dos rentistas”. Lembrou que, em reuniões na FIESC e nos conselhos do SESI e do SENAI, “não tinha uma voz que se levantava contra os juros altíssimos” além de Lula, então criticado por “meter o bedelho” numa autarquia autônoma.
Ao encerrar, Eccel transformou a entrevista em manifesto contra o extremismo. “As pessoas que estão assistindo não precisam concordar, mas obrigatoriamente precisam respeitar”, disse, ao relatar o “ápice da insanidade” de ser atacado por postar uma flor de determinada cor nas redes sociais. “Não é necessário que as famílias tenham dois grupos de WhatsApp. A gente tem que parar com isso”, concluiu, apostando no voto do Vale do Rio Tijucas em 4 de outubro.
























