O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a alertar nesta terça-feira (2) que os brasileiros se tornaram “vítimas dos algoritmos”. A fala foi feita para estudantes durante a inauguração do campus de Catalão do Instituto Federal Goiano (IF Goiano), em Goiás, e reforça uma ofensiva digital que o governo vem escalando nas últimas semanas, com decreto contra big techs, defesa do Pix contra os Estados Unidos e críticas ao impacto das apostas online na população.
“Nós estamos virando vítimas dos algoritmos. Os algoritmos estão controlando a gente, não é a gente que está controlando eles”, declarou Lula. A frase é quase idêntica à que o presidente usou em entrevista ao programa Sem Censura, na TV Brasil, em 22 de maio: “Estamos virando algoritmo, sendo vítimas do algoritmo. Não estamos dominando os algoritmos, eles estão dominando”.
“Vocês fizeram disso parte do corpo”
Em Catalão, Lula mirou diretamente o vício em celulares. “Vocês, que usam o celular 9 horas e 60 minutos por dia, precisam se autovigiar”, disse aos estudantes. Dados da consultoria Bain & Company, de janeiro de 2025, apontam que os brasileiros passam, de fato, mais de 9 horas por dia conectados. O Brasil também lidera o ranking mundial de tempo em redes sociais, com média de 3 horas e 32 minutos diários, segundo o Relatório Digital 2025.
O presidente descreveu cenas do cotidiano para ilustrar o que chamou de dependência. “Vocês não vão no banheiro sem celular, vocês não tomam banho sem celular, vocês não dormem sem celular, vocês não acordam sem celular, vocês vão namorar com o celular”, afirmou. E completou: “Ele fica falando com a China, ela com o Rio Grande do Sul, e termina o jantar sem conversarem entre si”.
Bets e o endividamento dos pobres
Na sequência, Lula voltou suas críticas às plataformas de apostas online. “Apareceram as bets. Vocês não conseguem mais ver televisão de tanta publicidade da bet. Você não vê mais gol, porque ao invés do gol, tem um cara falando das bets, levando o pobre a se endividar mais, porque todo mundo quer ganhar dinheiro fácil”, disparou.
As apostas esportivas foram legalizadas em 2018, no governo Michel Temer (MDB), mas foi o próprio governo Lula que regulamentou o mercado, com a sanção da Lei 14.790/2023 e a criação da Secretaria de Prêmios e Apostas no Ministério da Fazenda. O mercado regulado começou a operar em janeiro de 2025. Só no ano passado, o governo federal arrecadou R$ 6,85 bilhões com o setor.
“Estudem o máximo que puderem”
O apelo aos estudantes foi claro: “Só tem um jeito limpo para você ficar rico: estudem o máximo que vocês puderem e trabalhem a vida inteira”, disse o presidente, que mencionou o Banco Master e os filhos de Bolsonaro como exemplos de quem encontrou “outros jeitos” de enriquecer. “Mas é muito complicado você roubar, porque você pode ser preso”, declarou.
Decreto contra big techs e a guerra pelo Pix
O discurso de Catalão não é isolado. Em 21 de maio, Lula assinou o Decreto 12.975/2026, que endurece as regras para plataformas digitais no Brasil. A medida obriga redes sociais a manterem representante legal no país, removerem conteúdos criminosos após notificação extrajudicial e reduzirem, por meio de seus próprios algoritmos, o alcance de ataques coordenados. A fiscalização ficou a cargo da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
No mesmo dia do discurso em Catalão, o presidente entrou na segunda cerimônia do dia — a inauguração do Hospital Universitário da UFCAT — carregando um cartaz com a frase “O Pix é do Brasil”. O gesto foi uma resposta direta ao relatório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que, horas antes, incluiu o sistema de pagamentos instantâneos entre as práticas brasileiras consideradas “desleais” por prejudicar bandeiras de cartões americanas, como Visa e Mastercard.
O Pix, criado pelo Banco Central em 2020, é usado por mais de 175 milhões de brasileiros. O USTR argumenta que o governo brasileiro obriga instituições financeiras com mais de 500 mil contas a adotarem o sistema, o que, na visão americana, dá vantagem competitiva injusta ao Pix em relação a provedores privados de pagamento dos EUA.
O fio que conecta tudo
Os movimentos do governo nas últimas semanas seguem uma mesma linha: a defesa do que o Planalto chama de soberania digital brasileira. O decreto contra big techs mira o controle algorítmico das plataformas estrangeiras. A defesa do Pix resiste à pressão americana para abrir espaço aos cartões de crédito internacionais. E o alerta sobre celulares e bets, repetido em dois discursos diferentes em menos de duas semanas, funciona como peça de comunicação direta com a população, especialmente jovens eleitores, a quatro meses das eleições de outubro.
Conforme Lula declarou no Sem Censura: “Eu não quero perder o humanismo que existe dentro do ser humano”.






















