No mesmo ponto da Barragem Norte onde ouviu do governador de Santa Catarina que fosse “à merda”, a cacique Antônia recebeu, das mãos de uma deputada estadual, a cópia de um documento que agora corre no Ministério Público Federal contra Jorginho Mello (PL). A cena foi registrada em dois vídeos publicados nos últimos dias pela deputada Luciane Carminatti (PT).
Deputada estadual há quatro mandatos e candidata à reeleição, Carminatti esteve na Terra Indígena Laklãnõ Xokleng, em José Boiteux, no Alto Vale do Itajaí, onde entregou em mãos à cacique a cópia da representação encaminhada ao procurador-chefe do MPF em Santa Catarina. O pedido é que as falas do governador no dia 8 de julho sejam apuradas.
“Nós não estamos acusando ninguém, o que nós estamos pedindo é que se apure os fatos e que a lei tem que valer para todo mundo”, afirmou a petista em um dos vídeos, gravado ao lado da cacique na estrutura da barragem.
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“Se eu, como deputada, não posso ofender o governador, ele também não pode, como governador, ofender uma liderança indígena ou ofender as mulheres. Isso é básico”, disse Luciane Carminatti.
Ainda segundo a deputada, dois dias depois do episódio, no dia 10 de julho, a assessoria dela esteve na aldeia, e a Procuradoria da Mulher da Assembleia Legislativa divulgou nota de solidariedade. Na sequência, ela encaminhou a representação ao MPF, que abriu apuração sobre o caso.
Nos vídeos, a cacique Antônia relata o encontro com o governador. “Eu queria saber o que o senhor veio fazer aqui”, conta ter dito ao se apresentar. Segundo ela, que hoje representa a cacique Fabiana na liderança, o aviso foi direto: “Você tem que respeitar. Eu sou uma liderança. Sou cacique daqui”.
O desfecho do diálogo, na versão da cacique, é o que sustenta a representação: “Quando eu falei isso pra ele, o que ele disse pra mim? Vai à merda”.
Carminatti aproveitou a visita para mirar o discurso do governador. “Esse tipo de discurso autoriza todo tipo de violência e preconceito. Quando a maior autoridade fala disso, pode estar agradando uma parte da população, que quer ódio nas redes, mas a gente não pode permitir que isso se naturalize”, disse. Na legenda de um dos vídeos, resumiu: “Respeito não é favor, não é escolha. É dever”.
A versão do governador
Dias antes, Jorginho Mello publicou um vídeo com a própria versão do impasse. Nele, afirma que “centenas de milhares de pessoas de Blumenau e região correm risco por conta de um protesto de alguns poucos indígenas de José Boiteux” e que o Estado finalmente venceu a licitação, tem recursos em caixa e empresa disponível para reformar a barragem, “arrumar aquilo que nunca arrumaram”.
O governador lembra que, em 2023, autorizou o uso de força policial para operar a barragem diante da previsão de chuva na região e diz que, desde então, a relação com os indígenas melhorou. Em 2025, segundo ele, sentou pessoalmente com as lideranças e começou a cumprir um acordo de 2015 “que nunca foi cumprido por governo nenhum”, com casas em construção e equipamentos em obras.
Ainda de acordo com Jorginho, o cenário mudou em 2026, quando o então cacique geral teria sido preso por tráfico de drogas e os novos líderes passaram a ignorar o que foi acordado. O governador afirma esperar uma decisão da Justiça Federal “para poder intervir novamente naquele local. Com força policial, se necessário”. E encerra: “Uma dezena de pessoas não pode colocar em risco centenas de milhares de catarinenses”.
Entenda o caso
No dia 8 de julho, o Jornal Razão mostrou o momento em que Jorginho mandou a cacique “à merda” durante protesto na maior barragem de SC. Dias depois, a cacique afirmou que o governador não pediu autorização para entrar na terra indígena, e os indígenas voltaram a ocupar a Barragem Norte com uma lista de exigências ao Governo do Estado. Após a representação, o MPF abriu apuração sobre as falas do governador.
A apuração do MPF segue em andamento, e não há decisão da Justiça Federal sobre uma nova intervenção na barragem. “Agora a gente vai acompanhar”, disse Carminatti à cacique ao entregar o documento.
























