Sentado no estúdio do Jornal Razão, em Tijucas, o ex-prefeito de Blumenau João Paulo Kleinübing puxa da memória a tragédia de 2008 para explicar o presente. Mas é quando fala do futuro de Santa Catarina que ele solta a frase mais dura da conversa: o litoral catarinense, na avaliação dele, está “expulsando os jovens” da região.
A passagem pelo Litoral Norte serviu de apresentação de pré-campanha. Kleinübing, de 53 anos, casado e pai de duas filhas, se define como alguém que entrou cedo na vida pública: disputou a primeira eleição aos 29 anos e, de lá para cá, passou pela prefeitura de Blumenau, pela Câmara Federal, como deputado em 2014, e pela direção do BRDE. “Poder administrar a sua cidade sempre é a coisa mais importante que a gente pode fazer, independentemente do tamanho da cidade”, disse, ao classificar o cargo de prefeito como a experiência mais marcante da trajetória.
Na conversa, o ex-prefeito costurou memória, gestão e projeto político, do sistema de barragens do Vale do Itajaí ao pacto federativo, passando pela inteligência artificial e por uma defesa enfática da mudança no modelo eleitoral brasileiro.
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A memória de 2008
O tema das cheias voltou ao centro da conversa diante da preocupação atual com o El Niño. Segundo Kleinübing, a discussão sobre o fenômeno remonta a 1983, ano da primeira grande enchente em Blumenau. Já 2008 foi, nas palavras dele, “naquele momento, a maior tragédia natural da história do Brasil”, por combinar enxurrada, enchente e, sobretudo, deslizamentos.
Ele detalhou os números daquele evento: mais de três mil pontos de deslizamento em Blumenau, duas mil famílias que perderam as casas e não tinham para onde voltar e 24 mortes na cidade. Em Santa Catarina, foram cerca de 110 vítimas, com todo o Vale do Itajaí atingido. “A situação era dramática, porque elas não tinham, de fato, para onde voltar”, resumiu.
Para o ex-prefeito, o aprendizado foi decisivo. Ainda na gestão, contou, foi criado o Serviço de Geologia Municipal para orientar o que podia ou não ser construído.
Durante muito tempo a gente tentou adaptar a cidade aos nossos interesses; em 2008 foi o aprendizado definitivo de que temos que nos adaptar àquilo que a natureza nos obriga.
A polêmica das barragens
Confrontado com a controvérsia sobre as barragens, em que aliados do governo falam no maior investimento da história enquanto críticos dizem que é insuficiente ou que começou tarde demais, Kleinübing defendeu que o investimento é fundamental. Lembrou que a barragem José Battistella, a mais importante para Blumenau, começou a ser construída nos anos 80 e foi concluída por volta de 1992 ou 1993, dentro de um sistema planejado após a enchente de 83.
Sobre a barragem de Botuverá, ironizada como “lendária” pela demora, afirmou que o Estado trabalha nela há muito tempo e que o governador tem o compromisso de executá-la. Atribuiu a lentidão não à falta de vontade, mas ao sistema de pesos e contrapesos: “Você tem muita resposta para órgãos de controle, licenciamentos e discussões com a comunidade que são importantes, mas é preciso que avance”. Citou ainda a barragem do Boa Vista como fundamental por conta do Itajaí-Mirim.
Mesmo defendendo as obras, fez uma ressalva:
O sistema de barragens não vai resolver todos os nossos problemas de acordo com o volume de chuva. Ele regula a vazão e minimiza o impacto, mas dependendo do volume você vai ter enchentes de maior ou menor intensidade.
Por isso, disse, a população precisa seguir atenta e preparada. Elogiou o decreto preventivo de emergência climática do governador Jorginho Mello e sustentou que Santa Catarina tem “a melhor defesa civil do Brasil” e Blumenau uma das melhores no âmbito municipal.
Blumenau crescendo para o Norte
Questionado sobre o prefeito Egídio Ferrari, a quem apoia, Kleinübing avaliou que a gestão tem cumprido compromissos e realizado obras de mobilidade, especialmente em direção à região Norte da cidade. Como diretor do BRDE, disse ter participado da aprovação do financiamento da nova ponte que escoa para o Norte, obra pensada para induzir o crescimento urbano naquela direção, já que “a cidade precisa crescer”.
Reconheceu que a manutenção da cidade foi um problema no ano passado, mas afirmou que o tema tem avançado. E ampliou a crítica ao cenário nacional:
Você tem cada vez mais responsabilidade para os municípios e menos recurso na prática para poder realizar.
“Vão 100, voltam 10”
Um dos pontos mais enfáticos foi a crítica ao desequilíbrio fiscal. Para Kleinübing, “cem reais vão para Brasília e apenas dez voltam”, um problema histórico que, na avaliação dele, encarece a máquina e abre espaço para corrupção e para a perda de prioridades. Elogiou pontos de racionalização da reforma tributária, mas emendou uma ressalva contundente: a reforma “vai de novo na contramão” ao retirar de estados e municípios a gestão sobre a própria renda.
Quanto mais dinheiro ficar na mão de estados e municípios, melhor esse dinheiro vai ser gerido.
Também criticou o que chamou de abuso das emendas parlamentares, que estariam dispersando recursos da União sem critério, embora as considere um instrumento importante. Diante da ponderação de que, com o presidente Lula favorito à reeleição, seria difícil avançar temas como o pacto federativo, respondeu que o modelo eleitoral atual privilegia o discurso e a “lacração” em detrimento do resultado.
Jovens, IA e um paradoxo
Kleinübing citou reportagem do jornal O Estado de S. Paulo apontando que a filiação de jovens de 16 a 34 anos aos partidos caiu pela metade em 15 ou 20 anos. Rejeitou a leitura de que a juventude não se interessa por política: “O jovem não se interessa por esse modelo político que está aí”, disse, atribuindo o afastamento à falta de democracia interna e ao tribalismo das legendas, mantidas por recursos fartos do orçamento federal.
Ao tratar de pautas de costumes, reforçou que o feminicídio é “talvez hoje um dos problemas mais graves do país” e defendeu que a sociedade forme uma cultura de respeito às mulheres, tema que, disse, o toca como pai de duas moças.
Sobre inteligência artificial, apontou um duplo efeito: ela pode dar mais eficiência ao governo em áreas como saúde e educação, mas também reduz a oferta de empregos, sobretudo os de entrada. “Ninguém entra numa empresa como diretor; você começa como programador júnior, e a IA acaba reduzindo essa oferta de empregos iniciais”, afirmou. Daí o paradoxo que descreveu: uma geração mais escolarizada que a dos pais, mas com perspectiva de crescimento econômico inferior à deles.
“Expulsando os jovens”
Para Kleinübing, o maior problema de curto prazo do Estado é a infraestrutura. “O Estado está ficando asfixiado, porque as suas artérias não dão para andar”, afirmou, citando especialmente o litoral norte e o Vale do Itajaí. Trouxe dados do IBGE: Santa Catarina tem hoje oito milhões de habitantes e deve chegar a cerca de 10 milhões em 2050, um acréscimo de dois milhões de pessoas puxado pela migração.
Enquanto a população brasileira para de crescer em 2040, disse, a catarinense só estabiliza em 2060, com a maior parte do crescimento concentrada no triângulo entre Florianópolis, Joinville, Jaraguá do Sul, Vale do Itajaí e litoral norte. Foi nesse ponto que veio o alerta mais forte: a valorização imobiliária é boa por um lado, mas cria um efeito perverso.
Nós estamos expulsando os jovens dessa região. Quem é que vai conseguir comprar um apartamento para morar por aqui?
A resposta, para ele, passa por planejamento habitacional de longo prazo.
As bandeiras e o voto distrital
Convidado a resumir três grandes bandeiras, Kleinübing colocou a infraestrutura do Estado como prioridade número um. Em segundo, a eficiência do recurso público e a correção da conta do “vai 100, volta 10”. Em terceiro, a educação, que classificou como pauta permanente, elogiando o programa Universidade Gratuita do governo Jorginho Mello: “É um programa fantástico, acho que vai mudar a cara de Santa Catarina nos próximos anos”.
Mas foi na defesa do voto distrital que o ex-prefeito foi mais categórico. Lembrou ter participado, como deputado em 2014, da reforma que trouxe a cláusula de barreira e o fim das coligações proporcionais, medidas que, para ele, dificultaram os “partidos de aluguel”, legendas de uma pessoa só cujo dono acaba vendendo o apoio em troca de uma coligação. Ainda assim, ponderou que isso, sozinho, não basta.
A grande mudança, defendeu, seria o voto distrital ou distrital misto: os 40 deputados estaduais ou 16 federais seriam eleitos por distritos geográficos, com cada partido apresentando um único candidato por área. Ele defende metade por distrito e metade proporcional. O modelo, segundo ele, reduziria custos e criaria vínculo entre eleitor e eleito.
Ao criar esse vínculo, você obriga esse eleito a prestar conta para aquela comunidade.
No sistema atual, argumentou, o candidato busca votos de radicais espalhados por todo o Estado; no distrital, precisaria conversar com todos os espectros da própria região. Citou a Alemanha como referência e reconheceu que a mudança não acontece “da noite para o dia”, relacionando o descrédito à abstenção crescente. A conclusão foi taxativa:
O modelo que nós temos no Brasil hoje é, sem dúvida alguma, o pior deles.
Ao encerrar, Kleinübing disse ser preciso ter as “pessoas ditas inconvenientes” que insistem nessas ideias para que o país continue avançando. O Jornal Razão o convidou a voltar quando a campanha estiver liberada, para tratar de propostas específicas.

























