“Criticar seus gastos não é misoginia. É dever, porque quem paga é o povo.” A deputada federal catarinense Júlia Zanatta (PL) reagiu após a primeira dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, classificar como “misoginia pura” a fama de gastadeira associada às suas viagens internacionais.
A declaração de Janja foi dada durante entrevista ao programa Frente a Frente, realizado pelo UOL e pela Folha de S.Paulo. Questionada sobre viagens internacionais e cobranças por maior transparência, ela afirmou que adversários atribuem à primeira dama despesas de comitivas inteiras.
Janja também declarou que viaja em classe executiva por exigências de segurança da Polícia Federal e que costuma ficar hospedada em embaixadas brasileiras. Segundo ela, sua agenda é pública e as críticas fazem parte de uma estratégia política para atingir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em resposta, Júlia Zanatta relacionou a fala ao Projeto de Lei 896/2023, conhecido como PL da Misoginia. Para a parlamentar, a proposta poderá ser usada para enquadrar críticas políticas e dificultar a fiscalização dos gastos públicos.
“É para perseguir adversário político, é para censurar, sim. E a dona Janja, é claro, vai sempre usar a cartada da misoginia. Ninguém vai poder falar dela”, declarou Zanatta.
No vídeo, a deputada também mencionou mais de R$ 117 milhões em despesas atribuídas a Janja. A cifra vem do chamado “Janjômetro”, iniciativa ligada ao deputado estadual paulista Guto Zacarias, que reúne informações publicadas em reportagens, no Diário Oficial da União e no Portal da Transparência.
O montante, entretanto, não representa um valor oficialmente reconhecido como gasto pessoal da primeira dama. O levantamento inclui despesas relacionadas a viagens oficiais, eventos e estruturas governamentais que não foram utilizadas exclusivamente por Janja.
Em abril de 2026, o Tribunal de Contas da União arquivou, por unanimidade, processos que questionavam viagens e despesas relacionadas à primeira dama. Os ministros entenderam que não havia comprovação de irregularidade ou desvio de finalidade nos casos analisados.
O TCU considerou que, embora Janja não ocupe cargo público, sua atuação pode ter caráter representativo e de interesse público. A decisão não encerrou, porém, as cobranças políticas da oposição por maior detalhamento e transparência sobre as despesas.
O projeto citado por Zanatta foi apresentado pela senadora Ana Paula Lobato (PSB) em março de 2023. O texto aprovado pelo Senado define misoginia como a conduta que manifesta ódio ou aversão às mulheres e inclui na legislação crimes de injúria, discriminação e preconceito praticados por essa razão.
A proposta prevê pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa. Na Câmara dos Deputados, o regime de urgência foi aprovado por 293 votos a 158, mas a votação do conteúdo foi adiada por falta de consenso entre os partidos.
Parlamentares contrários ao texto atual afirmam que a redação precisa ser mais clara para evitar interpretações que possam atingir as liberdades de imprensa, religiosa e de expressão. Já os defensores sustentam que a medida é necessária para enfrentar discursos de ódio, discriminação e violência contra as mulheres.

























