O celular tremia na mão enquanto o homem gravava, do lado de fora das portas de vidro da Reitoria da UDESC, em Florianópolis. Do outro lado do vidro, a sessão do Conselho Universitário que decidiria a ampliação das cotas na universidade. Do lado de cá, um grupo que se identifica como de direita e que dizia, aos gritos, estar sendo impedido de entrar. “Eu, cidadão comum, não posso entrar aqui? É pra isso que a gente paga os nossos impostos?”, questionava o manifestante, apontando a câmera para as catracas.
O grupo afirma que chegou à universidade para acompanhar a votação desta quinta-feira (9) e que foi barrado e hostilizado logo na entrada. Segundo o relato de quem gravava, a confusão começou quando integrantes contrários tentaram impedir o acesso deles, e teria evoluído para agressão física. “Tem filmado, a gente tava quieto e eles agrediram a gente”, diz o manifestante nas imagens, repetindo que havia um flagrante registrado e cobrando uma resposta da instituição.
Na sequência, o autor das imagens acusa os militantes do lado oposto de terem se refugiado dentro de uma sala com a proteção da universidade. “Eles se trancam lá dentro, protegidos pela própria reitoria”, afirma. Em outro trecho, dispara: “Isso aqui virou a casa da mãe Joana”, em referência ao que classificava como falta de controle sobre o que acontecia no prédio público.
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O momento de maior tensão foi registrado em vídeo, com empurra-empurra na entrada e gritos de “recua” de parte a parte. Enquanto o grupo cobrava explicações, do outro lado se ouviam palavras de ordem chamando os manifestantes de “fascistas”. No meio da confusão, o autor das imagens afirma ter tido o celular derrubado, mas seguiu gravando.
O bate-boca com a professora
Um dos pontos mais tensos foi a discussão entre o grupo e uma professora, que se identificou como defensora das cotas e classificou a postura dos manifestantes como racismo. A resposta veio na hora. “Ah, eu sou racista?”, rebateu o manifestante, insistindo para que ela dissesse o próprio nome. A docente se recusou, e a troca subiu de tom. “A senhora é uma pessoa pública e me chama de racista e não fala o nome?”, cobrou o manifestante, apontando o que via como contradição na acusação.
Bruno Souza registra ocorrência
Entre os presentes contrários à proposta estava o ex-deputado estadual Bruno Souza (PL), que acionou a Polícia Militar e foi registrado como vítima na ocorrência. Ele relatou aos militares que tinha ido participar do debate sobre as cotas, que foi hostilizado, agredido por um homem e chamado de racista, e afirmou ter tudo registrado em imagens.
A Polícia Militar foi acionada pela Central Regional de Emergência para atender uma ocorrência de vias de fato e calúnia na Avenida Madre Benvenuta. Ao chegar, a guarnição encontrou uma aglomeração de pessoas, mas o princípio de confronto já havia cessado. Com base no material apresentado pela vítima, a equipe tentou localizar o autor da agressão, acompanhada pelo reitor da universidade. Diante do grande número de pessoas no interior do prédio e por segurança da própria guarnição, a busca foi rápida e o autor não foi localizado. As imagens foram anexadas à ocorrência.
O que os manifestantes contestam
O grupo que foi à UDESC se posiciona contra a ampliação do sistema de cotas, em votação na sessão desta quinta. A crítica central é a de que a universidade é pública e sustentada com o imposto de todos os catarinenses, e que a reserva de vagas avançaria sobre espaços onde, na visão deles, deveria valer apenas o mérito. Contrários à proposta chegaram a lançar um abaixo-assinado pedindo que os conselheiros rejeitem o texto.
Na Assembleia Legislativa, a ampliação também vinha sendo questionada. O deputado Alex Brasil (PL) afirmou que a nova política não se restringiria aos alunos e seria aplicada também às contratações da universidade, o que classificou como possível ilegalidade, por entender que normas de concurso público são matéria de lei.
A proposta em votação institui a nova Política de Ações Afirmativas e Diversidades da UDESC. Pelo sistema em vigor desde 2011, a universidade reserva 30% das vagas do vestibular, sendo 20% para quem cursou todo o ensino em escola pública e 10% para candidatos negros. A nova política amplia os grupos contemplados e estende as reservas até a pós-graduação. Opositores afirmam que a reserva total poderia chegar a até 55% das vagas do vestibular, número que a universidade não confirmou publicamente.
Até a publicação desta reportagem, a UDESC não havia se manifestado publicamente sobre a denúncia de que manifestantes teriam sido impedidos de acompanhar a sessão. A votação seguia em andamento.























