Rainha das Pontes, mulher dos molhes, mulher das avenidas. Os apelidos se acumulam sobre Nilza Simas, e agora ela quer somar mais um título: o de deputada estadual de Santa Catarina. Ex-prefeita de Itapema por dois mandatos e ex-consultora executiva da Secretaria de Estado da Saúde, a enfermeira e professora esteve no Jornal Razão para se apresentar como pré-candidata pelo PL, partido do governador Jorginho Mello, e não fugiu de nenhum dos apelidos que carrega, incluindo o mais afiado de todos: “faca na bota”.
Nascida e criada em Itapema, ela resume a trajetória como a de quem construiu carreira dentro do próprio município. Foi duas vezes vereadora, diz ter sido campeã de votos e a primeira mulher a presidir a Câmara. Depois disputou a Prefeitura, elegeu-se com 50,1% dos votos como a primeira mulher no cargo, e foi reeleita. Ao todo, oito anos de gestão. Escolheu a enfermagem, conta, “porque gosto de cuidar das pessoas”.
Sobre a fama de polêmica, não recua. Diz que faz parte da identidade, herdada dos pais, que segundo ela lhe ensinaram que “o trabalho dignifica o homem e que ter pulso firme, ter lado, é importante”. “Eu tenho lado, eu não fico em cima do muro, eu erro. Tenho humildade de voltar atrás e dizer que errei, mas na tentativa de fazer eu acertei muito mais”, afirmou.
O legado que reivindica
Fora da gestão municipal, mas ainda morando na cidade, Nilza diz andar “de cabeça erguida” pelas obras que entregou. Seu maior troféu, na versão dela, é ter passado oito anos na Prefeitura sem sofrer uma operação policial, algo que apresenta como ruptura em relação a um passado em que Itapema figurava nas páginas policiais com prefeitos cassados, afastados e presos. “O maior desafio que eu tive foi resgatar credibilidade”, resumiu.
Ela descreve a herança financeira como crítica. Ao assumir, afirma, 59% da receita ia só para a folha de pagamento, o município estava sem certidão negativa de débitos e incapaz de contrair empréstimo ou receber emenda. A saída, segundo ela, foi enxugar a máquina, de 14 para 7 secretarias e de 350 para 50 cargos comissionados, e passar a gerir a prefeitura “como se fosse uma empresa privada”. “Ela tem que dar lucro, porque o que sobra tem que ser investido em obras, tem que voltar pra população”, justificou.
A virada de chave que reivindica veio, na sua narrativa, com a outorga onerosa, instrumento que Balneário Camboriú já adotava desde 2011. Com o lema “muda Itapema”, diz ter cumprimentado adversários para avisar que “acabou a bandeira, acabou política e agora precisamos fazer gestão”. O resultado que celebra é Itapema apontada como o metro quadrado mais valioso do Brasil, algo que, ressalva, “não foi de um dia pra noite”. Depois da Prefeitura, conta ter sido convidada por Jorginho Mello para atuar como consultora na Saúde do Estado, onde diz ter rodado mais de 50 mil quilômetros visitando hospitais e orientando prefeitos.
Lacração x solução
Boa parte da conversa girou em torno da tensão entre viralizar e resolver. Em tempos de cortes para TikTok e Instagram, o público não teria se acostumado a parlamentares mais preocupados em lacrar do que em entregar? Nilza concordou que sente essa ausência e admitiu que também poderia “vestir um personagem e pegar a rede social e descer o cacete”. Contou que chegou a duvidar se lançaria a pré-candidatura por causa da internet, e decidiu pesquisar na própria cidade se o eleitor queria o “personagem” ou o trabalho. A conclusão que relata: “Eles querem trabalho, eles querem quem aponta solução.”
Para a pré-candidata, o efeito da lacração é de curto prazo. “Tu me enganas por um dia, por um mês, por um ano, mas não por uma vida inteira, porque a tua máscara cai”, disse. Ela afirma não trocar de figurino se eleita: “O personagem tu muda; a identidade, não.” Questionada se, dentro do PL do governador, subiria à tribuna para criticar a gestão ou para blindá-la, respondeu que já foi “faca na bota” mesmo estando na Secretaria de Saúde, e que já teve embates com o próprio governador. Como enfermeira, resume que não tem jogo de cintura: “Uma injeção intramuscular é no músculo. Se eu botar o medicamento errado na veia, eu mato o paciente.”
A guerra contra as cheias
O trecho mais técnico foi sobre enchentes, tema que Nilza trata como obsessão. Ela lista as obras que diz ter tocado com R$ 30 milhões em recurso próprio: a dragagem do Rio Perequê, do qual afirma ter retirado 100 mil metros cúbicos de areia, além do desassoreamento dos rios da Fita e Bela Cruz e a construção de molhes na foz. Antes, conta, bastavam 50 milímetros de chuva para alagar; hoje diz ter aguentado 162 milímetros sem enchente.
A solução, porém, ela apresenta como permanente, não definitiva. Com 200 milímetros, admite, Itapema ainda alaga, como ocorreu em 16 de janeiro de 2025. O próximo passo que aponta é um parque inundável, nos moldes do que faz Camboriú, para conter a água que desce do Sertão de Trombudo. Perguntada pelo custo, estimou que “não vai custar mais de trinta milhões”, e minimizou a dificuldade: “O pior já foi feito.”
O contraponto foi afiado: com o El Niño em curso, o primeiro ato de muito gestor é vestir o colete da Defesa Civil e aparecer nas redes só quando a água já subiu. Nilza foi enfática ao responder que o político que não entendeu a lógica da prevenção “vai apanhar daqui a alguns meses, vai fazer o povo sofrer”. Para ela, o desassoreamento tem de ser rotina mensal, com cronograma, e cobrou também a população, lembrando que geladeira, pneu e televisão jogados no rio acabam inundando a casa do vizinho.
‘Tijucas é a bola da vez’
Ao falar da região, Nilza cravou: “Pra mim, hoje, Tijucas é a bola da vez.” Ela credita o momento às obras estruturantes do prefeito Maickon Sgrott, a quem chama de amigo, e destaca a licença obtida para dragar o Rio Tijucas e construir molhe, intervenção que, segundo ela, beneficiará todo o Vale do Rio Tijucas, incluindo Canelinha, São João Batista e Nova Trento. A obra, lembra, era esperada havia cerca de 20 anos.
Com o rio navegável, ela projeta desdobramentos econômicos: a chegada de investidores, a ideia de um Porto Seco e até o transporte de mercadorias pelo Rio Tijucas, aliviando a BR-101, que no seu diagnóstico “colapsou”. Nesse ponto entra a defesa da Via Mar, obra do governo estadual, e a cobrança por definir quais serão os acessos da região e quem paga por eles. “Precisa de deputado que brigue por nós aqui, que entenda da importância da mobilidade”, afirmou.
A crítica aos parlamentares foi recorrente. Nos oito anos de prefeitura, disse, nenhum deputado a visitou para cobrar ou ajudar, apenas para trazer emenda. Para ela, ser parlamentar não é “entregar um milhão de emenda”, mas sentar com o prefeito e levar experiência. E alfinetou os que, em ano eleitoral, gravam vídeo parados na rodovia: “Mas o que que tu fez em quatro anos pra resolver esse gargalo?”
Turismo, segurança e o recado ao eleitor
Nilza voltou várias vezes ao caso de um vídeo de vereador sobre a balneabilidade de Itapema, que segundo ela “arrebentou com a temporada”. Sem endossar ou negar o mérito ambiental, ela critica o método: expor o problema nas redes sem trazer a solução, num município que vive do turismo, prejudica de quem vende milho na praia ao investidor. “Jogar literalmente a merda na rede social e depois ficar esperando like, isso não é fazer oposição, isso é arrebentar com o município”, disparou.
Ela encerrou com o elogio ao estado que quer representar: o mais seguro do Brasil, na sua leitura, porque “o povo gosta de trabalhar”. Diz ter criado em Itapema uma guarda municipal com 90 homens e erguido um hospital com 100 leitos, centro cirúrgico, dez leitos de UTI e maternidade. Aos que chegam para trabalhar, promete acolhida; aos que vêm “bagunçar”, avisa que Polícia Militar, Polícia Civil e Guarda Municipal estão agindo.
No fecho, sem poder ainda pedir voto, reforçou a imagem que quer fixar. “Eu sou de opinião, eu não sou Maria-vai-com-as-outras”, disse, atribuindo o temperamento à própria história: “A vida não me permitiu ser frágil.” Ao se despedir, apresentou-se por inteiro: Nilza Simas, ex-prefeita de Itapema por dois mandatos e pré-candidata a deputada estadual por Santa Catarina.


























