Emerson Stein já sabia que a pergunta viria, e não desviou. Sentado no estúdio do Jornal Razão, o ex-prefeito de Porto Belo, ex-deputado estadual e ex-secretário de Estado ouviu o entrevistador apontar a contradição que persegue sua pré-candidatura: filiado ao MDB, ele vai apoiar a reeleição de um governador que o próprio partido, em tese, não deve sustentar. A resposta veio sem rodeio. “O Emerson estará apoiando o governador Jorginho Melo. Essa é uma decisão que está tomada e isso já foi falado ao presidente do partido”, cravou, aos 51 anos, poucos dias depois de confirmar que disputa uma vaga de deputado estadual na convenção marcada para 1º de agosto.
A lealdade ao governador é o fio que costura toda a entrevista, e Stein a justifica com uma lista de entregas que credita a Jorginho Melo: os 10 milhões de reais de convênio anunciados para os molhes de Tijucas, o Morro do Encanto em Itapema, o acesso a Porto Belo e Bombinhas, o Hospital Marieta, que segundo ele ficou 12 anos parado e foi entregue em todas as fases, o elevado do acesso Antônio Re e programas como a universidade gratuita. Ele chegou a ligar para o governador pedindo que a licença ambiental de instalação em Tijucas saísse no mês do aniversário de 166 anos da cidade, o que por poucos dias não coincidiu com a data.
Nascido em Blumenau em 1975 e criado em Porto Belo desde os seis anos, Stein construiu na cidade toda a sua vida pública. Filho de Totônho, que segundo ele foi três vezes vereador e é figura histórica do MDB, o pré-candidato conta que herdou do pai o gosto pela política. “Sempre acompanhei meu pai na política, sempre gostei de estar próximo das pessoas. E dali que nasceu essa vontade de ser político”, afirmou. A trajetória passou por vereador, prefeito, prefeito reeleito, deputado estadual e secretário de Estado. Mesmo defendendo a atual pré-candidatura ao Legislativo, admitiu sentir falta do Executivo. “Sinto saudades. A satisfação de você poder executar, de fazer a realização da sua cidade, é muito especial”, disse, resumindo que o deputado é “praticamente um vereador do estado”, enquanto o prefeito executa.
Briga por representação
O eixo central do discurso é a representatividade regional. Stein afirma que, desde o início do mandato em 2023, priorizou a região por perceber carência de lideranças, e diz ter destinado, mesmo sem emenda individual, quase 40 milhões de reais a municípios como Porto Belo, Bombinhas, Itapema, Tijucas, Canelinha e Nova Trento por meio de emendas de bancada do Vale do Itajaí e de parcerias com o Estado, chegando a 60 milhões ao incluir a região da Amfri. Quando o entrevistador provocou por que uma região tão próspera, polo industrial e logístico que abriga gigantes como a Growth de Tijucas, é tão ignorada na representação política, ele apelou à identidade regional. “São quase 150 mil votos que a gente tem que depositar em lideranças daqui, pra ter o olhar do governo do Estado e do governo federal”, afirmou.
Sobre os molhes de Tijucas, a obra que o interlocutor lembrou ser “a lenda” da cidade, o entrevistador registrou que o prefeito Maicon costuma dizer que “quem pegou pela mão foi o Emerson Stein”, e relatou o espanto do ex-adversário eleitoral Tiago Peixoto diante do avanço do projeto, das licenças e do recurso já garantido. Stein ampliou a lista de conquistas que reivindica: os molhes do Rio Perequê em Porto Belo, a balneabilidade de 100% na última temporada, Meia Praia, o Rio Perequezinho e o acesso a Bombinhas.
Fidelidade partidária
Segundo o pré-candidato, o MDB só teria seu apoio na majoritária se encabeçasse a chapa ao governo, hipótese que descarta. “Se o Onídio for candidato a governador e o João Rodrigo for vice, aí podemos avaliar, porque é o MDB que está na cabeça. Mas não é isso que vai acontecer”, ponderou, acrescentando que apoiará o projeto do partido para o Senado, com o pré-candidato Antídio Nery. Sobre João Rodrigues, foi respeitoso, mas taxativo.
É um grande político, mas esse não é o momento do João.
Ao falar do próprio legado em Porto Belo, Stein afirma que o orçamento saltou de 79 milhões de reais em 2017 para os cerca de 450 milhões previstos para o fim deste ano, transformando a cidade em “referência na construção civil” e tirando-a da condição de mera passagem para Bombinhas e Itapema. “Porto Belo voltou a sorrir quando nós entramos na prefeitura”, declarou, atribuindo o resultado à equipe. Ele lembrou que renunciou ao mandato em 2022, junto com o vice, para disputar a Assembleia, e diz ter elegido na suplementar seguinte o então presidente da Câmara com 78% dos votos, reelegendo-o depois com 87%, marcas que soma à própria reeleição com 83% para classificá-las como a segunda maior votação proporcional de Santa Catarina.
Economia e governo Lula
O tom endureceu quando o assunto virou economia e governo federal. Stein citou a BR-101 como “situação grave”, uma rodovia que segundo ele “mata pessoas” e sobre a qual o governo federal “não toma atitude”, e disse ver a construção civil, principal motor de empregos da região, muito retraída. “Eu não vejo nada que foi feito aqui pelo governo federal em Santa Catarina”, afirmou. O entrevistador apresentou o contraponto do ex-prefeito de Brusque Paulo Essel, que em entrevista anterior disse que o Brasil “está voando” e credita o pleno emprego catarinense ao sucesso econômico de Lula. Stein rebateu ponto a ponto.
O Brasil está em crise. E se Santa Catarina tá voando alto, não é por causa do PT, é por causa do governo Jorginho Melo.
Confrontado com a crítica recorrente nas redes de que o MDB integra o governo Lula, Stein confirmou ter recebido propostas para trocar de legenda, cita Podemos, Republicanos e PL, mas disse ter optado por permanecer. “Meu pai é histórico do MDB. Eu ganhei uma prefeitura em Porto Belo pelo MDB”, argumentou, evocando o legado do ex-governador Luiz Henrique da Silveira. A permanência também é cálculo eleitoral: ele lembrou que na eleição passada o MDB ficou de fora por dois mil votos na legenda, com 29 candidatos, e afirmou que agora o partido trabalha para montar chapa proporcional completa, 41 candidatos a estadual e 17 a federal, com a meta de manter os seis deputados estaduais, subindo para sete ou oito, e os três federais.
Nas considerações finais, resumiu o pedido à região. “Nós não podemos perder essa cadeira”, insistiu, argumentando que os recursos trazidos economizaram, segundo ele, 20 milhões em Porto Belo, 12 milhões em Itapema, cerca de 10 milhões em Tijucas, quase 5 milhões em Bombinhas e 1,2 milhão em Canelinha. A entrevista, ressalvaram os dois lados, ocorreu antes do período eleitoral, sem pedido de voto, e antes mesmo da convenção que oficializará ou não a candidatura.

























