Aos 23 anos, o deputado estadual Alex Brasil (PL) senta no estúdio do Jornal Razão com a fala de quem já escolheu o próximo campo de batalha. Meses depois de o Supremo Tribunal Federal derrubar sua lei de cotas, o parlamentar radicado em Tijucas anuncia em primeira mão que voltará à carga, e desta vez com um alvo declarado: forçar cada ministro da Corte a assumir publicamente o que, na visão dele, hoje se esconde atrás de uma canetada. “Eu quero expor cada ministro daquela corte que me diga que eu sou obrigado a abrir cota pra trans”, dispara.
Nascido em Campo Grande (MS) e catarinense por escolha, Alex Brasil assumiu a cadeira na Assembleia Legislativa e rapidamente virou protagonista de algumas das maiores polêmicas ideológicas da Casa. Em entrevista ao Jornal Razão, a primeira dele no veículo, ele resumiu o que o move: “eu sempre fui uma pessoa muito inquieta quando eu vejo as coisas que, ao meu modo de ver, estão erradas”. O desejo de morar no estado, contou, é antigo: “sempre quis vir pra Santa Catarina desde criança”.
Antes do mandato, o deputado diz ter passado doze anos organizando manifestações de rua na Grande Florianópolis, que, na versão dele, chegaram a reunir “mais de cem mil pessoas”. A entrada na política institucional foi, segundo Alex, uma virada de estratégia. “Ao invés de ficar só tacando pedra de fora na vidraça alheia, vamos entrar no sistema, vamos enfrentar ele de frente.”
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O novo projeto de cotas
A bandeira central da conversa foi a lei de cotas de sua autoria, derrubada pelo STF. Alex Brasil afirma aceitar reserva de vagas por mérito, mas se opõe ao que considera privilégio. Para ele, é inaceitável criar caminhos para pessoas entrarem “com baixa nota, com baixa pontuação, apenas pela cor da pele, pela opção sexual, por ter sido um refugiado ou um presidiário, por ter sido alguém que pertencia ao grupo MST”. Na avaliação do deputado, “isso não combina com Santa Catarina”.
Foi durante a entrevista que o parlamentar revelou que voltaria à CCJ da Alesc naquela semana com uma nova proposta sobre o tema. A estratégia, segundo ele, é regulamentar o que o próprio STF passou a exigir, uma cota racial de 20% condicionada a baixa renda e a origem em escola pública, enquanto fecha as demais modalidades em debate na UDESC: “cota pra trans, cota pra refugiado, cota pra presidiário, cota pra MST”. O objetivo declarado é provocar a Corte.
“Eu quero expor cada ministro daquela corte que me diga que eu sou obrigado a abrir cota pra trans, porque quando eles fizeram a primeira jurisprudência, eles ficaram restritos apenas na racial.”
O deputado admite que a disputa é desigual. Questionado se não seria uma luta inglória, respondeu: “Muito inglória. Mas se eu fosse pra entrar só em batalhas que me dê a glória, eu nem teria chegado aqui.” Ele comparou o enfrentamento a mobilizações anteriores em que atuou, como o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula, episódios em que, segundo ele, se “deixava às vezes de pagar conta de casa para colocar caminhão na rua”.
“STF age como poder constituinte”
Alex Brasil concentrou críticas duras no Judiciário. Para ele, uma “caneta monocrática de um único ministro derruba o entendimento de uma Assembleia Legislativa inteira, quarenta deputados”, e a sanção de um governador. O deputado ressaltou que a lei tratava de recurso público estadual e de vagas em universidades estaduais, não de verba da União, e classificou a decisão como “um abuso de autoridade”. Ele lembrou que a ação partiu do PSOL, que tem, segundo ele, apenas um representante na Casa e é “sempre voto vencido”, mas consegue levar rapidamente o tema à Suprema Corte.
Citando editorial do Estadão publicado na semana da derrubada da lei, o parlamentar afirmou que “o STF não é poder constituinte” e acusou os ministros de reescreverem a Constituição: “Eles vão dizer: a partir de agora é assim, e passa a valer isso numa Constituição que não prevê isso.” Ele defendeu rever o equilíbrio entre os três poderes e cobrou o Senado por não abrir processos de impeachment contra ministros, órgão que, na versão dele, não cumpre o papel de “balancear” por estar “com o rabo preso”.
Spray de pimenta e feminicídio
O deputado apresentou como uma de suas principais vitórias a liberação do spray de pimenta para mulheres em Santa Catarina. Segundo ele, o primeiro projeto, voltado a mulheres sob risco iminente e com boletim de ocorrência aberto, foi aprovado de forma “inédita” e unânime, com apoio até da esquerda, e teria feito do estado “pioneiro”, inspirando lei semelhante aprovada na Câmara e no Senado, agora à espera de sanção presidencial. Alex disse esperar que “o presidiário Lula” não recue.
A motivação, contou, veio após o ataque a uma jovem em uma trilha no sul da Ilha de Florianópolis. “Se ela tivesse o spray de pimenta naquele momento, poderia ter dado a ela a possibilidade de fuga e teria salvado a sua vida”, afirmou. O parlamentar defende ir além e armar mulheres com treinamento, mas diz que o governo federal impede. Diante do aumento da procura, apresentou um segundo projeto para autorizar casas comerciais a vender o spray a todas as mulheres, com o objetivo de fazer o agressor “repensar muitas vezes na hora de agredir”.
Acusações de racismo
Alvo de acusações de racismo durante o debate das cotas, Alex Brasil rebateu atribuindo o rótulo à “militância” da esquerda e afirmou ter recebido apoio de pessoas negras. O deputado reforçou a tese meritocrática: “Nós estamos lutando por dar oportunidade pra quem realmente merece, pessoas de baixa renda, independente da cor da pele.” Segundo ele, Santa Catarina “tá muito longe de ser um Estado racista, nazista” e seria justamente o que mais recebe migrantes de outras regiões, sobretudo do Norte e Nordeste.
“Estado de vingança” e a BR-101
Morador de Tijucas, o deputado usou a própria região para ilustrar o que chama de descaso federal. Ele descreveu a BR-101 como “um caos, que já virou uma rodovia praticamente urbana” e cobrou soluções em Brasília, ressalvando que as BRs não são responsabilidade do estado. Alex disse ter percorrido 200 municípios em um ano e meio de mandato e avaliou que, enquanto as rodovias estaduais melhoraram, as federais “estão um caos”.
Segundo o parlamentar, Santa Catarina é tratada como “estado de vingança” pelo governo Lula. Ele afirmou que o estado retém apenas 10% do que produz: “se a gente produz cem, fica dez aqui e os outros noventa são distribuídos pelo resto do Brasil”. Entre os avanços do governo estadual, citou a nova rodovia Via Mar, lançada por Jorginho Mello para desafogar a 101, e a projeção de Santa Catarina se tornar o único estado com oito portos.
“Brasil em colapso”
O entrevistador confrontou Alex com a fala do ex-prefeito de Brusque Paulo Essel (PT), que, em entrevista anterior ao Jornal Razão, disse que o país vive “uma das melhores fases econômicas da sua história”. A resposta foi frontal: “Pra mim, o Brasil tá em colapso.” O deputado acusou o IBGE de mascarar a inflação e disse que a realidade “se sente no bolso” a cada compra no mercado. Alex reconheceu que Santa Catarina “tá voando”, mas atribuiu o resultado à ausência do PT no governo estadual.
Segundo o parlamentar, o desempenho catarinense ocorre apesar da falta de apoio do governo federal. Alex atribuiu ao PT os problemas econômicos do país e afirmou que a situação sentida pela população no mercado e no fim do mês seria diferente dos indicadores divulgados oficialmente. “Santa Catarina, de fato, está voando, mas sem apoio nenhum do PT”, declarou. Para o deputado, o primeiro passo para mudar a situação nacional seria retirar o partido do comando do governo federal.
2026: a aposta na queda de Lula
Sobre a eleição presidencial, o deputado disse enxergar Lula em “maré muito ruim”. Ele afirmou contabilizar oito eleições nacionais recentes nas Américas que “guinaram pra direita” e projetou que o Brasil seguirá a mesma tendência. Alex lembrou que Lula venceu a última disputa por cerca de dois milhões de votos e calculou: “Nós precisamos virar um milhão de voto, mais um, que já nos dá a vitória.” Para ele, o caminho começa em uma frase: “Primeira coisa é tirar o Lula de lá.”
Na disputa estadual, Alex avaliou que o pré-candidato João Rodrigues “entrou numa campanha muito antecipada” e adota postura “muito agressiva”, e disse não se surpreender caso ele terminasse atrás de Marcos Vieira Merísio. Sobre o governador Jorginho Mello, elogiou o empenho e disse acreditar em reeleição já no primeiro turno, citando a Via Mar como legado. Para o deputado, a eleição do Senado é a mais importante de 2026: “Se a gente colocar uma maioria no Senado, a gente consegue conter loucuras do Lula e frear essa insanidade que tá acontecendo dos ministros do STF.”
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A entrevista, a primeira do deputado no Jornal Razão, encerrou com o convite para que ele retorne no início da campanha para detalhar propostas.






















