Onze anos depois de ser inaugurada com festa pela então presidente Dilma Rousseff, a ponte Anita Garibaldi voltou ao centro do noticiário catarinense pelo pior motivo possível: fechada, com o Sul do estado travado e uma pergunta que um deputado agora quer levar aos órgãos federais de controle. Como uma das maiores obras de infraestrutura já executadas em Santa Catarina, que consumiu quase R$ 800 milhões dos cofres públicos, chegou a esse ponto tão cedo?
A ponte, cartão-postal de Laguna e peça estratégica da BR-101 no trecho que liga o Sul catarinense ao Rio Grande do Sul, está totalmente interditada nos dois sentidos desde a noite de quinta-feira. Quando ela fecha, o Sul para junto: trabalhadores, caminhões, entregas e veículos de passeio ficam presos no desvio pela antiga Ponte de Cabeçudas, e o prejuízo, segundo o deputado que investiga o caso, já se conta em milhões.
Quem faz o questionamento é o deputado estadual Mário Motta (PSD), conhecido na Assembleia pelo trabalho de fiscalização de contratos públicos. Ele reconstruiu a linha do tempo da obra para embasar a cobrança. A ponte começou a ser erguida em 2012, dentro do Programa de Aceleração do Crescimento do governo federal, e foi entregue ao tráfego em julho de 2015, em cerimônia que teve Dilma como estrela. O detalhe que ele destaca é o do custo: a obra tinha orçamento previsto de R$ 597 milhões na licitação e terminou saindo por quase R$ 800 milhões, um salto de quase 30% sobre o valor inicial.
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Alerta desde 2022
O ponto que o deputado considera mais grave, porém, não é o preço, e sim o histórico de problemas estruturais que, segundo ele, se arrasta há anos. De acordo com o parlamentar, a própria concessionária que administra o trecho teria alertado o DNIT e a ANTT ainda em 2022 sobre danos estruturais sérios, risco de colapso e a necessidade de interdição. Soluções emergenciais teriam sido executadas na época, mas o mesmo problema teria voltado a aparecer em outros pontos da estrutura.
Desta vez, conforme o relato do deputado, cabos internos de aço se romperam. Ele faz questão de diferenciar esses cabos daqueles estais externos, os fios grossos e visíveis que sustentam o vão central e que, segundo ele, seguem intactos. O problema estaria dentro da pista, nos cabos engolidos pelo concreto que mantêm a estrutura unida.
Quando eles cedem, a ponte deixa de ser segura.
A versão do deputado dialoga com o que a concessionária admitiu publicamente, ainda que com tom diferente. A CCR ViaCosteira confirmou que uma inspeção especial identificou o rompimento parcial de fios internos em um dos 90 cabos de estaiamento da ponte e decidiu interditar a estrutura de forma preventiva. A empresa, no entanto, descarta risco de colapso e afirma que a integridade estrutural está preservada, tratando o reparo como parte da vida útil de grandes obras de engenharia. Uma empresa italiana especializada em pontes estaiadas foi contratada para acompanhar as avaliações.
Meses de restrição
O deputado também não vê o prazo divulgado como o fim do problema. Segundo ele, mesmo depois dos cerca de dez dias de interdição e dos reparos emergenciais, a ponte não deve voltar ao normal de imediato. A previsão seria liberar apenas parcialmente o fluxo, com cargas mais pesadas restritas por pelo menos seis meses. Na prática, o trânsito no Sul do estado continuaria prejudicado por muito mais tempo do que o anunciado.
Para o parlamentar, o que mais incomoda é o modo como tudo veio à tona. Ele afirma que o catarinense só ficou sabendo da real situação da ponte quando ela já estava fechada, sem aviso prévio sobre a gravidade do quadro.
Alguém precisa explicar o que foi feito desde 2022, quando os primeiros sintomas foram detectados. Quem fiscalizou? Por que uma obra de quase R$ 800 milhões começou a dar problema tão cedo?
O deputado afirma que ele e o gabinete estão investigando o caso e reunindo elementos para levá-lo aos órgãos federais de controle. O objetivo, segundo ele, é responsabilizar quem falhou na fiscalização e na manutenção da estrutura ao longo dos anos.
Esse desrespeito ao catarinense não pode ficar sem resposta.
Enquanto a apuração avança, a ponte segue fechada e o desvio pela Ponte de Cabeçudas concentra todo o tráfego da BR-101 no trecho, com filas quilométricas nos horários de pico. A concessionária mantém a previsão de interdições programadas até o dia 20 de julho e pede paciência aos motoristas, sem cravar quando a estrutura voltará a operar com capacidade total.

























