Carlos Humberto Silva não escolheu ser político. A decisão veio depois de uma noite em que, aos 29 anos, empresário da construção civil com dez prédios em obra, ele levou seis tiros num assalto e chegou a ser dado como morto. “Morri, voltei”, resume o deputado estadual, hoje com 45 anos, sobre o episódio que ele mesmo classifica como divisor de águas. Foi essa história, e a versão explosiva sobre o racha que quase destruiu o Partido Liberal em Balneário Camboriú, que ele levou para a entrevista ao Jornal Razão, dentro da série de conversas com pré-candidatos às eleições de 2026.
Os três tiros na cabeça e três no corpo vieram numa tentativa de assalto em que os criminosos não levaram nada. “Tentaram me assaltar, eu não tinha o que roubar, queriam dinheiro e eu não tinha”, conta. A recuperação foi longa, e a virada, inesperada até para ele. “É um evento traumático que mudou a minha vida. Mas mudou para melhor. Muita gente acha que isso muda para pior; mudou para melhor.” Cinco anos depois, decidiu entrar na política, diz, “para retribuir à comunidade”. E marca um limite: “Sou político, mas não sobrevivo da política. Não dependo dela para sobreviver.”
A origem, ele faz questão de contar, é humilde. O avô paterno, João Manuel da Silva, era garçom na Casa da Agronômica, em Florianópolis. O pai, professor da rede estadual, foi o primeiro da família a se formar, como engenheiro. “O meu avô era garçom na Casa da Agronômica, servia as pessoas. Hoje eu frequento a Casa da Agronômica como deputado”, resume. Formado em Direito, diz ter começado a trabalhar aos 13 anos e a empreender na construção civil por volta dos 18.
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O racha do PL
O trecho mais espinhoso da conversa foi a versão do deputado sobre a eleição municipal de 2024. Presidente do PL em Balneário Camboriú, Carlos Humberto afirma que convidou o então pré-candidato a governador Fabrício Oliveira para o partido e lhe entregou a própria presidência da sigla. “Vem pro PL, eu te entrego a presidência. Tu és o prefeito, eu sou o vice”, diz ter proposto.
Segundo o parlamentar, quando chegou a eleição de prefeito, a legenda, já sob comando do novo filiado, lançou um nome “que não era do partido”. “A pessoa que disputou a eleição não era filiada ao Partido Liberal. Eu sou do partido e nunca vi esse cidadão no partido”, acusou, referindo-se ao candidato Peter Lee. Questionado pelo Jornal Razão, que ponderou que o postulante teria se filiado em fevereiro, já no fim do prazo, Carlos Humberto reagiu: “Não se filiou? Duvido! Tem alguma coisa de errada aí no meio.”
O deputado diz ter rompido e apoiado Juliana Pavan, hoje prefeita da cidade, que venceu o pleito. “Eles foram derrotados. Eu reassumo o Partido Liberal, destruído, e agora a gente está remontando”, declarou. Sobre a motivação do adversário, admite trabalhar com hipóteses: “Ele só veio pro PL para fazer o partido perder”, disse, para em seguida ressalvar que se trata de leitura pessoal, “não estou afirmando, é achismo”.
O time da direita
Carlos Humberto aproveitou a entrevista para escalar, nome por nome, a chapa que diz coordenar de Florianópolis a Joinville, passando por Tijucas, Itapema, Balneário Camboriú, Navegantes e Itajaí. “Esse é o time: Flávio Bolsonaro à Presidência, Jorginho Mello, Carlos Bolsonaro e Carol Detoni ao Senado, Jair Renan Bolsonaro a deputado federal e Carlos Humberto a deputado estadual”, listou, lembrando que todos ainda são pré-candidatos e dependem das convenções.
O parlamentar diz acreditar em vitória de Flávio Bolsonaro já no primeiro turno. “As piores pesquisas nos dão cinco pontos atrás; as melhores, dois na frente.” Para ele, o senador é “novidade”, enquanto o presidente Lula “todo mundo já sabe qual é o discurso”. Ainda assim, afirmou que preferiria uma “grande coligação” na direita catarinense, que somaria, na sua conta, “duzentos mil votos a mais” para o presidenciável.
Ataques ao PT e a Zema
Ao ser questionado se o PT seria “erradicado” na eleição, o deputado foi enfático e passou a acumular críticas. “O Lula é riquíssimo, o PT é bilhão. Eles são uma organização do planeta”, afirmou. Para ele, não há solução em um só mandato: “Não se erradica essa gente em quatro anos. Eles tomaram conta, estão dentro do Judiciário, da polícia, do Ministério Público, dos tribunais de contas, das Forças Armadas. São 30 anos de poder.” Na avaliação dele, até tucanos entram na conta: “O Fernando Henrique é o Lula com educação.”
O parlamentar também mirou aliados do próprio campo. Criticou o Partido Novo, “sempre fazem a mesma inhaca chegada à eleição”, e, principalmente, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema: “O Zema pisou na bola. Não agregou nada pro Flávio, destruiu a campanha dele e só criou problema.” Fez ainda uma autocrítica à gestão de Jair Bolsonaro: “Cortou a mamata, tirou cinquenta mil funcionários públicos e arrumou um exército contra. Isso, pelo menos, a gente aprendeu.”
Apaixonado por futebol, Carlos Humberto saiu em defesa de Neymar, “acho que ele está certo; uma pena que não teve material humano para jogar junto nessas quatro Copas”, e ligou o declínio do esporte e da cultura brasileira à ascensão do PT, “desde 2002”. A crítica virou apelo social: “Hoje, se não tiver um empresário ou um pai que pague, o pobre nem chega mais. O Brasil não oportuniza mais isso para o mais humilde.”
No encerramento, o deputado defendeu que a mudança que prega exige tempo. “Não adianta querer resolver tudo em quatro anos. Precisa de um plano de vinte anos para reestruturar o Brasil”, com educação, cultura, ensino técnico e valorização do trabalho. E terminou com um tom de reconciliação que destoou dos ataques: “Inclusive a esquerda, temos que trazer para o nosso lado. A vida de vocês pode ser melhor; não precisam viver nesse pé de guerra. Vamo todo mundo junto.” E cravou: “Os problemas do Brasil se resolvem com educação.”
As declarações, opiniões e acusações reproduzidas nesta reportagem são de responsabilidade do entrevistado. O Jornal Razão registra, no corpo do texto, o contraditório apontado durante a conversa e garante espaço de resposta às pessoas e instituições citadas.























