Uma araucária de mais de dois metros de diâmetro foi arrancada pela raiz. Placas voaram cento e cinquenta metros. Onze casas ficaram irreconhecíveis. Foi o que os meteorologistas do Simepar, o sistema oficial de monitoramento do Paraná, encontraram ao sobrevoar de drone a zona rural de Reserva, nos Campos Gerais, e o cenário só tinha uma explicação possível: tornado. A confirmação oficial saiu na manhã desta quarta-feira, com uma classificação que assusta quem mora na porta ao lado. Categoria F2 na Escala Fujita. Ventos estimados em duzentos quilômetros por hora.
O fenômeno atingiu a localidade de Imbu no domingo, 28 de junho, durante a passagem da mesma frente fria que agora empurra instabilidade sobre Santa Catarina. Segundo a Defesa Civil do Paraná, cinquenta pessoas foram afetadas e dez moradores ficaram desalojados ou desabrigados. É o segundo tornado F2 confirmado pelo Simepar apenas em 2026, depois do que devastou trezentas casas em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, em janeiro. Na sequência histórica ainda ecoa o F3 de Rio Bonito do Iguaçu, em novembro do ano passado, que matou seis pessoas e derrubou noventa por cento da cidade.
O corredor dos ventos extremos
O padrão não é aleatório, e é justamente isso que preocupa os meteorologistas. O consultor do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, Fernando Mendonça, tem repetido em análises recentes que o Sul do Brasil está geograficamente encaixado no segundo maior corredor do mundo para ocorrência de ventos extremos como ciclones, furacões e tornados. E a atmosfera, hoje, está com o combustível cheio.
O que abastece esses eventos é energia oceânica. O ano de 2025 registrou o maior aquecimento já medido nas águas dos oceanos, e a passagem para 2026 não trouxe o resfriamento esperado. Segundo Mendonça, as águas dos oceanos Pacífico e Atlântico Sul seguem anormalmente quentes, o que aumenta a disponibilidade de energia na atmosfera e faz os ventos circularem cada vez mais rápido, formando ciclones e tornados. Some-se a isso o fator novo do calendário: o El Niño, cuja formação já é considerada consenso pelos meteorologistas da própria Defesa Civil catarinense, tem noventa por cento de chance de se estabelecer ao longo do inverno de 2026 e pode alcançar intensidade forte na primavera.
SC na rota da mesma frente fria
Santa Catarina, por enquanto, está no anel mais externo desse mesmo sistema meteorológico. A Defesa Civil do estado emitiu, ainda na madrugada desta quarta, alerta de temporais com raios, rajadas de vento, granizo e alagamentos para treze municípios da Grande Florianópolis e do entorno, incluindo Tijucas, São José, Palhoça, Biguaçu, Governador Celso Ramos, Antônio Carlos, Porto Belo e Bombinhas. O aviso vale para as próximas horas. Segundo o monitoramento meteorológico da secretaria, a frente fria se desloca lentamente e as instabilidades já se espalham do Meio-Oeste ao Litoral, com destaque para o Planalto Norte, na divisa com o Paraná, onde os temporais estão mais intensos.
O boletim oficial da Defesa Civil catarinense classifica o risco como moderado a pontualmente alto para alagamentos, destelhamentos, danos na rede elétrica e queda de galhos e árvores. E ainda não é o pior cenário previsto para a semana. A Climatempo projeta que grandes volumes de chuva devem se acumular sobre os três estados do Sul até 4 de julho, com estimativa de duplicar ou triplicar a média histórica de precipitação para o mês em vários pontos. No Paraná e em Santa Catarina, especificamente, a análise de índices de potencial de tempestades indica que ocorrências de raios, rajadas e eventual granizo devem se repetir em muitas áreas por vários dias seguidos.
Gatilho climático armado
A previsão do trimestre confirmada pelo 242º Fórum Climático Catarinense, reunião oficial que juntou meteorologistas da Defesa Civil, da Epagri/Ciram, da UFSC e do IFSC no fim de maio, já apontava para esse quadro: junho, julho e agosto devem registrar aumento da instabilidade a partir da segunda metade de junho, com atuação frequente de frentes frias e ciclones extratropicais e sinais do El Niño ficando mais evidentes em julho e agosto. A recomendação oficial da secretaria é acompanhar diariamente os avisos e boletins de previsão do tempo, buscar abrigo longe de árvores e placas durante temporais e ficar em cômodo central da casa, de preferência sem janelas grandes.
O que o tornado do Paraná escancara é o que os próprios técnicos catarinenses vêm dizendo há semanas em nota técnica: o gatilho climático está armado. Águas oceânicas anormalmente quentes, El Niño em fortalecimento, ciclones extratropicais em sequência e uma geografia que coloca o Sul do Brasil como um dos pontos mais expostos do planeta a ventos severos. Em Reserva, o gatilho disparou no domingo. Em Santa Catarina, a Defesa Civil pede que a população não trate os alertas dos próximos dias como rotina de inverno. Ocorrências pelos telefones 199 ou 193.
























