A maior estrutura de contenção de cheias do Vale do Itajaí está sendo recuperada com uma comporta travada e o relógio correndo contra o El Niño. As obras na Barragem Norte, em José Boiteux, avançam para a etapa mais delicada da reforma justamente no momento em que a previsão climática acende o alerta para chuvas acima da média na primavera e no verão.
A barragem é a maior das três que protegem o Vale do Itajaí das enchentes. Sozinha, tem capacidade para armazenar 357 milhões de metros cúbicos de água, mais do que a soma dos reservatórios de Taió e Ituporanga juntos. É essa estrutura que ajuda a frear o avanço das águas sobre cidades da região em episódios de cheia.

O problema é que uma das comportas está emperrada. Para chegar até ela, as equipes precisaram primeiro construir um aterro provisório e acessar o fundo da galeria de descarga, hoje obstruída por galhos e material acumulado. A retirada dessa galharia é o que vai permitir baixar o nível da água nas tulipas, as estruturas que fazem a tomada d’água das comportas, e finalmente alcançar a peça travada.
“Essa limpeza inicial é um trabalho complexo e cirúrgico, mas essencial. Retirar esse material acumulado é o que vai nos dar terreno seguro para acessar a comporta que hoje está travada. Estamos limpando o caminho para entrar na fase mais crítica e definitiva da engenharia dessa obra”, explicou o diretor de Gestão de Obras da Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil, Douglas Meincheim.
A recuperação da comporta, considerada a etapa mais importante da reforma, só deve começar daqui a cerca de um mês. Até lá, o trabalho segue concentrado na liberação do acesso. Depois disso, a obra ainda prevê a recomposição da casa de comando, novo sistema hidráulico, instalação de uma nova ponte rolante, cercamento da área e outras adequações estruturais.
E é aí que mora a preocupação
O cronograma foi montado para colocar as fases mais sensíveis ao clima em dia antes do período historicamente mais chuvoso, entre a primavera e o verão. Só que a janela está estreita.
O El Niño foi confirmado oficialmente pela agência norte-americana NOAA, e a expectativa é de que o fenômeno ganhe força ao longo dos próximos meses. Segundo a Defesa Civil de Santa Catarina, há 63% de chance de o evento atingir intensidade muito forte, com pico previsto entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027. Caso a previsão se confirme, será um dos El Niño mais intensos registrados desde 1950.
Na prática, o fenômeno significa mais chuva no Sul do Brasil. Crescem os riscos de alagamentos, inundações e deslizamentos, sobretudo em episódios de chuva persistente, exatamente o tipo de evento que a Barragem Norte existe para conter. A memória do Vale do Itajaí ainda guarda as cheias severas do segundo semestre de 2023, quando o último El Niño atingiu todo o estado.

A própria gravidade do cenário levou o Governo de Santa Catarina a assinar, em maio, um decreto inédito de alerta climático por 180 dias. A medida permite o pré-posicionamento de equipes em regiões vulneráveis e fixa critérios objetivos para que municípios atingidos decretem situação de emergência, como chuva superior a 80 milímetros em 24 horas.

A equipe técnica da Defesa Civil afirma que as chuvas previstas não devem comprometer o andamento dos trabalhos. Mas a corrida é evidente: recuperar a maior barragem de contenção de cheias da região antes que o El Niño chegue com força.
A Defesa Civil orienta os moradores a acompanhar diariamente os boletins meteorológicos pelos canais oficiais, evitar áreas alagadas e próximas a rios e encostas durante a chuva e ficar atentos a rachaduras em muros e movimentos de terra. Em emergências, o número é o 199.



























